Blog de Tiradentes
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Fonte: Instituto Histórico Geográfico de Tiradentes, fundado em 19 de janeiro de 1977
SOBRE ELEVAÇÃO DA VILA DE SÃO JOSÉ DEL REY A CIDADE DE TIRADENTES.
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A Cidade do Alferes
A mais sentida homenagem que já se tributou ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, entre tantos monumentos e títulos que lhe têm sido atribuídos, ainda é a que nasceu da emoção de Silva Jardim, na aurora da República. Graças ao seu apelo, o terceiro ato assinado pelo primeiro governador republicano de Minas, Cesário Alvim, em 6 de dezembro de 1889, transformou a legendária Vila de São José del Rei em Cidade de Tiradentes.
Dois séculos depois de seu martírio, em meio às lições de liberdade e cidadania legadas pelo precursor da Independência, o grande tributo que continuamos a lhe dever será, certamente, o da preservação e valorização da cidade que ostenta o nome do Tiradentes. Aos pés da Serra de São José, estende-se o santuário cívico em que arte e história guardam a consciência do Brasil.
Conservar Tiradentes não é manter a cidade em redoma que lhe inviabilize o desenvolvimento
No último dia 25 de maio regressou a cidade o retrato do Imperador D. Pedro II, que fica exposto no Museu Padre Toledo. A peça de arte pertence a prefeitura municipal está cedida a Fundação Rodrigo Melo Franco de Andrade, responsável pelo Museu desde 1971.
O Retrato
Um costume vindo dos tempos antigos, ainda hoje mantido é a colocação do retrato do governante nos salões principais dos prédios públicos. Em sessão de 15 de maio de 1839 a Câmara de São José del Rei mandou pagar ao Alferes José Moreira Coelho o que este gastou em mandar executar um retrato do Imperador Pedro II, que naquele ano ainda não tinha completado 15 anos e não tinha sido coroado. O retrato seria colocado na sala de sessões. Era procurador da instituição na época Carlos José de Assis, depois comendador. O senhor Coelho encomendou ao pintor acadêmico Manoel de Araújo Porto Alegre, discípulo de Debret e presidente da Imperial Academia de Belas Artes. A obra que custou 150$000 (Cento e Cinqüenta Mil Reis), as despesas ainda incluiu um caixão que veio o mesmo, no valor de 2$000 e condução do Rio a São José 2$600.
O retrato substituiu o do primeiro Imperador, pintado anos antes por Manoel Vitor de Jesus. O curioso é que a Câmara resolveu utilizar uma moldura que pertenceu ao retrato de D. José I (1755-1777) para colocar o novo retrato.
Trata-se de uma magnífica moldura verde e dourada em estilo rococó com largas talhas em concheados a toda a volta, feita em cedro, datável por volta de 1770.
Esta importante peça de arte e antiguidade, é talvez, junto com o tinteiro de prata as únicas peças remanescentes do antigo senado da câmara e por isto propusemos no Conselho Municipal de Patrimônio, o seu tombamento em nível municipal.
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Um breve histórico sobre o IHGT
O Instituto Histórico e Geográfico da cidade de Tiradentes foi criado em 19 de janeiro de 1977, sendo Prefeito Municipal o Dr. Josafá Pereira Filho, que o fez nos decreto municipal nº200, tendo sido posteriormente tornado-se entidade autônoma, com a aprovação dos estatutos sociais. A criação do IHGT, teve parecer favorável do Conselho Federal de Cultura em 16 de setembro de 1976 (parecer 2.230). Foi declarado de utilidade pública municipal por lei nº374 de 15/12/1977 e estadual através da lei nº11. 764 de 17/01/1993. Tem como objetivo estudar a história local, proteger o patrimônio histórico, artístico, paisagístico, arqueológico, geográfico e cultural da região do Rio das Mortes. Nos quase 30 anos de atividades, mantém reunião ordinária mensal no 3º domingo de cada mês e sessões solenes anualmente em 19 de janeiro e 21 de abril. Promove concursos histórico-literários, exposições de arte e documentos, seminários sobre história local, além do regate dos acervos documentais ligadas a história local. Funciona em sala do “Sobrado Ramalho”, imóvel pertencente ao IPHAN, cedida para tal fim, possui uma pequena biblioteca, arquivo da coletoria estadual (1890-19720, arquivo de fotografias. Obras de arte como o quadro representando a Justiça, Deusa Astréia de Manoel Victor de Jesus, datada de 1824, Cabeça de Tiradentes de Alberto Delpino, datada de 1894, um oratório com crucifixo, provenientes da sala de júri do fórum de Tiradentes. A mesa de reuniões também provem do antigo Fórum e data de 1890. O IHGT tem 27 cadeiras de sócios efetivos, 50 de correspondentes e 20 de honorários.
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Pelo Amor de Deus, não esquartejem o Tiradentes outra vez
Depois que o Tiradentes foi executado e teve o seu corpo esquartejado para ser distribuído em Minas, nos locais em que ele fazia a sua pregação revolucionária, nenhuma das partes foi colocada nas Vilas de São José del Rei e de São José (atual Tiradentes) ambas situadas na região onde Joaquim José nasceu.
Se, naquela ocasião, as duas Vilas foram poupadas da contemplação macabra, hoje alguns oportunistas ensaiam a encenação de um espetáculo entristecedor nas duas cidades: disputam a naturalidade do Tiradentes, reivindicando primazias nas comemorações do bi-centenário da morte do Alferes Joaquim José.
Que isso ocorra no âmbito do estudo da história local é perfeitamente compreensível. Ir além é expor-se a um jornalismo sensacionalista que poder levar ao ridículo o esforço edificante daqueles que, nas duas cidades, se empenham, atualmente, em construir um programa comemorativo à altura do evento de 21 de abril.
Afinal, o Tiradentes é tão mineiro nascido em São João quanto em São José. E, há muito, ele não pertence mais só a Minas Gerais. É um patrimônio cívico da nação brasileira. Pertence a todos que, neste momento, querem reverenciá-lo realmente. E não àqueles que pretendem utiliza-lo como objetivo de promoção desta ou daquela cidade.
A tradição de festeja o 21 de abril em Tiradentes, remonta ao tempo em que a cidade ainda se chamava São José. Em 1881, um tiradentino republicano fundou, no Rio de Janeiro, o Clube Tiradentes que incluiu, entre outras finalidades, o compromisso de “comemorar todos os anos o dia 21 de abril”. O Presidente do Clube Tiradentes, Timóteo Antunes, terá estimulado, desde então, em sua terra natal, o gosto por essa comemoração.
No ano da proclamação da República a cidade de São José passou a se chamar Tiradentes por iniciativa da liderança republicana. Daí em diante não mais descuidou de celebrar a data de 21 de abril. Em 1892, os tiradentinos criaram a Sociedade Comemorativa do Centenário de Tiradentes, que erigiu o primeiro monumento à memória do Alferes, na Comarca do Rio das Mortes.
Os festejos do 1º Centenário, em 1892, na cidade de Tiradentes, culminaram com a celebração de uma Missa de Réquiem na Matriz, contrapartida ao Te-Deum que, um século antes, as autoridades portuguesas mandaram celebrar em regozijo pelo fracasso do movimento inconfidente.
Os moradores de São João del Rei identificam-se de tal forma com a iniciativa dos tiradentinos, nas festividades do 1º Centenário, que constava do programa publicado: “haverá trens extraordinários da Estrada de Ferro Oeste de Minas, da cidade de São João del Rei para a de Tiradentes”, de maneira a permitir que sanjoanenses e tiradentinos confraternizassem no dia do herói maior das duas cidades. Um exemplo de ontem a ser lembrado nos dias de hoje, pelos que se preocupam em dividir as duas cidades.
A Inconfidência Mineira e a Cidade de Tiradentes
A Vila de São José del Rei, atual cidade de Tiradentes, foi, no século XVIII, um dos mais importantes centros urbanos de Minas Gerais. Sua participação na Inconfidência Mineira foi das mais relevantes. O Vigário Pe. Carlos Toledo, em dos mais ativos dos conspiradores, era homem de cultura e sua biblioteca, embora inferior à do cônego Luís Vieira da Silva, destacava-se pelo número de dicionários, pelos volumes de Gramática, pelas obras de Direito, Teologia, História Sagrada, Moral e clássicos em geral. Pe. Carlos de Toledo portou-se, nos interrogatórios, com uma dignidade só superada por Tiradentes. Pe. Toledo foi o único, além do Alferes, que não procurou incriminar os companheiros de infortúnio. Ainda tentou quando pôde despistar os inquiridores.
Luis Vás de Toledo Piza, Irmão do Pe. Carlos, era Sargento-mor do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de São José, onde exercia o cargo de Juiz de Órfãos. Foi um dos onze réus condenados à morte, na primeira sentença e, na Segunda, a degredo perpétuo.
José de Resende Costa, pai, e José de Resende Costa, filho, moravam no arraial da Laje (atual cidade de Resende Costa), então no termo da Vila de São José. Ambos foram condenados à morte na primeira sentença e, na Segunda, a degredo por dez anos.
Vitoriano Gonçalves Veloso, natural da Vila de São José, era Alferes do Regime dos Parodos. Desenvolveu notável atividade, depois da prisão de Tiradentes, a levar avisos aos demais inconfidentes da prisão do Alferes. Foi condenado e degredo por dez anos.
João Dias da Mota era Capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de São José. Morava no Engenho do Campo, pertinho da Vila. Foi condenado a dez anos de degredo, na primeira sentença, pena confirmada na Segunda.
Francisco Antônio de Oliveira Lopes morava na sua fazenda da Ponta do Morro. Herculano Veloso equivocou-se ao supor que o nome primitivo da Vila de São José fora Ponta do Morro. Ora, fundado o arraial de Santo Antônio, que fora elevado a Vila com o nome de São José del Rei, continuou a existir a Ponta do Morro, então no termo da Vila.
Francisco Antônio de Oliveira Lopes era Coronel do Regimento de Cavalaria Auxiliar de São José, foi condenada à morte na primeira sentença e, na segunda, a degredo perpétuo.
Da. Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, mulher de Francisco Antônio de Oliveira Lopes, bem mais inteligente e mais instruída que o marido, foi quem escreveu os bilhetes aos inconfidentes, com o aviso da prisão de Tiradentes. O Dr. Tarquínio J. Barbosa de Oliveira a considerava a grande heroína da Inconfidência Mineira. Ela nasceu na vila de São José, filha do Capitão-mor Pedro Teixeira de Carvalho, nome muito ligado à história da Vila. O Visconde de Barbacena não a e perdoou. Ordenou ao Ouvidor da comarca do Rio das Mortes, Luís Ferreira de Araújo de Azevedo que nos sequestros respeitasse a meação de Da. Bárbara Heliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, mas nos do casal Francisco Antônio de Oliveira Lopes – Hipólita Jacinta Teixeira de Melo fosse realizado o sequestro de todos os bens sem respeitar a meação da mulher. Mas Da. Hipólita reagiu, lutou bravamente, digiriu requerimento até a D. Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, Ministro da Marinha e Ultramar e conseguiu salvar sua meação, ou melhor, o patrimônio que herdara de seu pai, Capitão-mor Pedro Teixeira de Carvalho. No seu testamento, Da. Hipólita determinou a celebração de 200 missas por alma de seus pais, 150 missas por alma de seu marido, alforriou mais de um dezena de escravos e, para alguns, ainda deixou dinheiro.
Antônio de Oliveira Lopes era piloto, isto é, medidor de sesmarias, nomeado pela Câmara de São José. Foi condenado na primeira sentença a degredo perpétuo, reduzido a dez anos, na Segunda.
Há ainda a figura de Claro José da Mota, cheia de mistérios, homem que fazia a ligação de Minas com São Paulo. Esse homem desapareceu e, apesar de todas as diligências, não conseguiu ser preso.
Foram 26 os réus condenados pela sentença da Alçada. Desses, dois o foram por denúncia falsa, isto é, nada tinha a ver com a inconfidência Mineira. Foram, portanto, em número de 24 as vítimas do movimento. Desses 24, 13 eram da Comarca do Rio das Mortes. Desses 13, a maioria pertencia à freguesia e termo da Vila de São José. A Vila de São José era, pois, o maior foco conspirador e o mais importante centro da Inconfidência Mineira.
Resta um comentário a respeito do líder do movimento, o proto - mártir da independência. Não pretendemos colocar lenha na polêmica sobre a naturalidade do Alferes Xavier. Queremos apenas transcrever o trecho inicial do testamento feito pelos pais de Tiradentes, em 1751, Domingos da Silva dos Santos e Antônia da Encarnação Xavier. “Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo, três Pessoas distintas e um só Deus verdadeiro... no ano do nascimento de N. S. Jesus Cristo, de 1751, em casa de morada de Manuel Goulart, nesta vila de São José, onde nos achamos, Domingos da Silva dos Santos e minha mulher, Antônia da Encarnação Xavier, moradores que somos em Rio Abaixo, no nosso sítio chamado Pombal, freguesia e termo desta vila...”
A Cidade do Alferes
A mais sentida homenagem que já se tributou ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, entre tantos monumentos e títulos que lhe têm sido atribuídos, ainda é a que nasceu da emoção de Silva Jardim, na aurora da República. Graças ao seu apelo, o terceiro ato assinado pelo primeiro governador republicano de Minas, Cesário Alvim, em 6 de dezembro de 1889, transformou a legendária Vila de São José del Rei em Cidade de Tiradentes.
Dois séculos depois de seu martírio, em meio às lições de liberdade e cidadania legadas pelo precursor da Independência, o grande tributo que continuamos a lhe dever será, certamente, o da preservação e valorização da cidade que ostenta o nome do Tiradentes. Aos pés da Serra de São José, estende-se o santuário cívico em que arte e história guardam a consciência do Brasil.
Conservar Tiradentes não é manter a cidade em redoma que lhe inviabilize o desenvolvimento. Assim como cultuar o Tiradentes não é perder-se numa retórica alheia aos conflitos da realidade brasileira, salvaguardar sua cidade significa apenas respeito aos bens culturais e naturais que a particularizam no elenco de centros urbanos do País.
A ganância e a esperteza de alguns poucos, não podem prevalecer sobre o compromisso nacional do Povo Tiradentino com a defesa de um patrimônio que, pertencendo a cada morador da cidade, é igualmente um parte da alma de todos os brasileiros. Um programa efetivo, nesse sentido, é a homenagem que cabe às gerações deste bicentenário.
Celebramos, aqui, a presença viva do Tiradentes. Joaquim José da Silva Xavier projeta sua herança sua herança em cada trecho da cidade que nos cumpre amar e proteger. O bicentenário do sacrifício do patrono cívico da Nação é um convite à união de todos também em favor da Cidade de Tiradentes. Ela é força espiritual de Minas e do Brasil à espera de nossa consciência.
Padre Toledo
Padre Carlos Correia de Toledo e Mello era paulista de Taubaté, nascido em 1731, filho de Timóteo Correa de Toledo e Ursula Isabel de Mello. Dois de seus irmãos foram religiosos, Pe. Bento Cortes de Toledo, seu coadjutor em São José do Rio das Mortes e frei Antônio de S. Vasula Rodovalho, bispo de Angola. Seu pai depois de viúvo tornou-se padre e duas irmãs eram freiras.
Toledo foi nomeado para a paróquia de Santo Antônio da Vila de São José em 1776, assumindo efetivamente em 1777 esta imensa e rentável freguesia. Tentando retomar a capela de São Bento do Tamanduá, hoje Itapecirica, que havia se tornado paróquia, cria imensa confusão, invadindo a igreja e administrando os sacramentos. O caso vai parar na mesa Consciência e Ordens de Lisboa, em alentado processo. Viveu com a família em um palacete, na Vila de São José, situada na Rua do Sol, hoje museu.
A época da Inconfidência o vigário possui a casa na vila de São José com cavalariça, oficinas avaliadas em 3.6000$000 réis; a Fazenda da Laje com casas, moinho e engenho; terras mineiras no Arraial de São Tiago (hoje cidade) em sociedade com Manoel Rodrigues Pacheco de Morais; uma biblioteca com 105 volumes; 31 escravos, dos quais 2 eram músicos. A casa tinha excelente mobiliário como sofás, mesas de jogos, uma cama baldaquino de damasco e cabeceira dourada, cadeiras, mesas, espreguiçadeiras. Na decoração havia um retrato do rei Dom José com dossel vermelho. A sua prataria estava penhorada no cofre dos ausentes da Vila de São José, onde ele tinha tomado empréstimo. Entre os papéis haviam um livro de dividas dos paroquianos.
Toledo foi um dos mais atuantes no malogrado movimento, tendo aliciado mita gente e ido várias vezes a Vila Rica para encontrar os companheiros daquela comarca. Para o levante prometeu mandar 150 homens montados, todos de suas fazendas e minerações.
Toledo convidou para a revolta os Resende Costa, o Cel. Oliveira Lopes e o delator Correia Pamplona.
uando soube da prisão de Tiradentes em maio, no Rio, tentou levantar os ânimos do Cel. Francisco Antônio, mandou recados a Vila Rica, ao comandante Francisco de Paula que deflagrasse o movimento, fosse como fosse porque “era melhor morrer com a espada na mão que como um carrapato na lama”. Nada conseguiu e foi preso quando fugia para sua fazenda da Laje. Nos interrogatórios tentou ocultar a verdade, mas acabou falando tudo, mas sem acusações, além do Silvério dos Reis. Foi deportado para Portugal sem saber sua sentença, ficando preso na Fortaleza de São Julião da Barra e depois levado para a clausura dos franciscanos de Lisboa, onde hoje é a Academia de Belas Artes da Universidade de Lisboa e lá faleceu em 1803. Na Vila de São José se celebrou as missas de costume por sua alma.
Os Delatores
Joaquim Silvério dos Reis Montenegro passou à história como principal delator da inconfidência. Era homem abastado, com várias fazendas na região de Barbacena, contratador de entradas e grande devedor à coroa. Após a inconfidência não teve sossego pois o povo o perseguia. Em 1790 sofreu um atentado a bala no Rio de Janeiro. Viu um homem ser espancado em frente a sua casa, confundido com ele, tentaram incendiar seus armazéns. O povo o insultava na rua. Declarou que não podia viver em minas. Foi para Portugal, depois voltou ao Brasil, para morar em São Luiz do maranhão, onde morreu.
Inácio Correia Pamplona era um grande fazendeiro e desbravador do sertão do triângulo mineiro, terrível Capitão do mato, vivia em sua fazenda do Mendanha, em Lagoa Dourada. Depois de denunciar a inconfidência, não recebeu regalia alguma e em seu testamento reclama do Visconde de Barbacena e declara textualmente em 1806 que “ Pelo ódio que todo o povo me tem, parece-me que hei de morrer assassinado...” e sei que meu filho mesmo, depois de visto este testamento, maior há de ser ódio que todo o povo do Brasil lhe há de Ter, só por ser filho de tal pai...”
Foi na Vila de São José, nome dado em homenagem ao infante D. José, que nasceu, em 1746, Joaquim José da Silva Xavier. O pai de Joaquim José era o português Domingos da Silva Santos, estabelecido na região há bom tempo, tendo exercido cargos públicos como vereador no Senado da Câmara e Almotacel.
Este Domingos foi casado com Antônia da Encarnação Xavier. O casamento ocorreu na Matriz de Santo Antônio da Vila de S. José, em 30 de junho de 1738. Antônia da Encarnação, nascida em 1721, na mesma vila, era filha de Domingos Xavier Fernandes, um dos primeiros habitantes do Arraial Velho do Rio das Mortes.
Joaquim José vai se tornar o conhecido alferes Tiradentes, depois de muitas andanças por Minas e Rio. Progador das idéias da Conjuração Mineira, intentada pela intelectualidade e fazendeiros – mineradores das comarcas de Vila Rica e Rio das Mortes. Apaixonado pelas idéias de liberdade da pátria mineira, o alferes tornou-se figura impar dentro do movimento, inspirado nas idéias iluministas francesas, sonhava com a república e trazia consigo uma tradução francesa de uma coletânea das leis das colônias inglesas na América do Norte. Debelado o movimento, presos os acusados, processados e mofando nos cárceres da Ilha das Cobras, durante três anos, o Tiradentes chama para si, nos depoimentos, a responsabilidade maior do malogrado levante, eximindo Tomás Antônio Gonzaga, que dizem tratavam das leis da nova nação. Na Segunda metade do século XIX, já no reinado do nosso Pedro II, o historiador Joaquim Norberto de Souza e Silva, faz o primeiro estudo sobre a Inconfidência Mineira e o Tiradentes, muito sob a visão de monarquista e sem querer desagradar o seu imperador, homem querer desagradar o seu imperador, homem pacato e amigo da intelectualidade.
Com a fundação em 1870, no Rio de Janeiro, do partido Republicano, lançando o manifesto republicano, inicia-se efetivamente a propaganda da república. Lança o jornal “A República” e muitos dos históricos defensores daquele ideal se agregam em torno dele. É aqui que a figura ímpar de Joaquim José da Silva Xavier desponta irreversivelmente como herói nacional, símbolo e precursor do ideal republicano.
Em 1872 o Dr. Pedro Bandeira de Gouvêa lança na imprensa carioca uma campanha para erigir um estátua ao herói. Abre-se uma subscrição popular. A iniciativa de Bandeira Gouvêa é atacada com ímpeto por Joaquim Noberto e segue-se uma polêmica na imprensa da época. Bandeira Gouvêa reúne artigos num opúsculo publicano no mesmo ano.
Neste final de século XIX, o abolicionista e republicano Angelo Agostini, imigrante italiano, mas comprometido com as idéias de liberdade brasileira, desenha e faz publicar a primeira representação do Tiradentes. Como não havia registro algum da figura do herói mineiro, Agostini idealiza uma figura do herói mineiro, Agostini idealiza uma figura de cabelos e barba longos lembrando a figura de Cristo, imagem que se vai multiplicar e persistir até os dias atuais, embora de longe não corresponda à realidade dos costumes e usos dos fins do século XVIII.
Em 21 de abril de 1881, um grupo de republicanos funda no Rio de Janeiro o “Clube Tiradentes”, sob a direção de Antunes, natural de S. José del Rei, de longa duração, que além de divulgar o ideal republicano, cultuava a memória do mineiro ilustre.
Ainda na década de 1880, um grupo de republicanos ligados ao Clube Tiradentes, viaja a Minas e faz uma “romaria cívica” à terra do herói. Estes republicanos vêm encontrar na Velha Cidade de S. José del Rei, a casa do vigário Pe. Carlos Corrêa de Toledo e Melo, um dos inconfidentes, que àquela época acreditava-se tratar da casa do próprio Tiradentes.
Ali, os republicanos fizeram Sessão Cívica em louvor ao Tiradentes e pregaram o advento da república. Ainda neste período, imediatamente anterior à proclamação da República, o grupo de propagandista do novo regime descobriu no Cartório de S. José del Rei, o inventário dos bens dos pais do Tiradentes, documento posteriormente extraviado, e hoje no arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Este documento veio a estabelecer o local do nascimento do herói em São José del Rei. No ano de 1889, Dr. Sampaio Ferras, profere uma conferência no aniversário da morte do Tiradentes, como noticiou o jornal republicano “Pátria Mineira” de S. João del Rei, no seu número inaugural do referido ano. A nota publicada no jornal diz sobre a casa do Pe. Toledo, o seguinte: “esta casa costuma ser visitada nestes dias pelas pessoas que veneram a memória gloriosa dos inconfidentes, e nela já se tem celebrado sessões comemorativas do aniversário do proto-Martyr”.
No dia 23 de abril de 1889, Silva Jardim, o líder republicano mais exaltado e que acreditava no advento do novo regime através da mobilização popular, em visita a São João del Rei, tentou falar ao povo e foi agredido com pedradas, no Grande Hotel, onde se hospedava. Neste mesmo dia, Silva Jardim chega a Estação de São José del Rei (hoje Tiradentes) pelo trem da Estrada de Ferro Oeste de Minas e lá mesmo faz um inflamado discurso republicano, em que sugeriu que o nome da terra natal de Joaquim José da Silva Xavier fosse mudado de São José del Rei, que lembravam o nome de um rei português, para Tiradentes, em homenagem ao maior herói da nação.
Com os acontecimentos dos dias 15 e 16 de novembro de 1889, que tornaram realidade a República, não pela ação popular, mas pela mão dos militares descontentes, a província de Minas torna-se Estado da Federação. Coube ao segundo governador provisório do Estado, o Dr. José Cesário de Faria Alvim, assinar o ato número 03, datado de 6 de dezembro de 1889, que mudou o nome de São José del Rei para Tiradentes, propulsionado pelo ilustre estadista mineiro Dr. João Pinheiro da Silva Jardim no início do ano. O ofício que comunica o aludido ato ao presidente da Câmara, o Barão de Itapicirica, é o seguinte: “Comunico, para Vosso conhecimento a fim de que torneis público por editaes, que por ato desta data, determinei que essa cidade e município passe a ter a denominação Cidade e município de Tiradentes. Saúde e fraternidade. José Cesário de Faria Alvim”.
Só no dia 28 de dezembro de 89 que o presidente da Câmara Municipal expede edital comunicando a substituição do nome da cidade e vai aparecer na imprensa sanjoanense em janeiro de 1890. “O Pátria Mineira” publica o edital nos números 34, 35 e 36 do referido ano de 90.
É na cidade de Tiradentes que, em junho de 1890, o Clube Republicano local, apresenta proposta aos membros dos Conselho da Intendência para a mudança dos nomes das ruas centrais para os nomes dos inconfidentes como: Rua de Cima para Rua Padre Toledo; Rua das Forras para Resende Costa; Largo das Forras para Inconfidência; Largo do Passo (Largo do Ó) para Vitoriano Veloso.
Em 1892, organiza-se com entusiasmo na cidade a Sociedade Comemorativa do Centenário do Tiradentes, capitaneada pelo comendador Assis, seguido do promotor público da recém criada comarca, o Sr. Presalindo Lery dos Santos.
Em 1932 a prefeitura local resolveu reformar o monumento e encomendou ao artista popular Antônio Gomes um busto de Tiradentes, que substituiu a urna funerária existente na coluna, e ainda foram, acrescentadas 16 rosetas nas faces das bases. Em 1942 colocou-se uma efígie do mártir em uma das faces do monumento, por ocasião da primeira jornada do Fogo Cívico da Pátria.
A festa que se realizou no dia do centenário da morte de Tiradentes foi muito concorrida e divulgada na imprensa sanjoanense e no “Minas Gerais”.
Carta ao Excelntíssimo Dr. Juiz de Direito da Vara Civil da Comarca de São João Del Rei
Meritíssimo Dr. Juiz de Direito da Vara Civil da Comarca de São João Del Rei.
O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, entidade fundada em 1977, com a finalidade de estudo da história local e defesa do patrimônio cultural, histórico e artístico vem manifestar-se quanto a ação de processo de registro tardio de Joaquim José da Silva Xavier, o processo n.º 625/05/48873-3, a que Vossa Excelência solicita nossa manifestação.
O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes considera que a história é uma ciência social e portanto evolui a luz de documentos e principalmente a partir de novas releituras e interpretações dos referidos documentos, do contexto e do pensamento de cada época. Portanto a história pode a qualquer momento ser reinterpretada, ser revisada, ser rescrita, reavaliada por professores, historiadores, intelectuais ou qualquer cidadão cujo pensamento é livre, e a expressão assegurada pelo direito democrático.
Pensa os membros de nossa instituição não ser assunto para ser dirimido em tribunais o registro de um personagem histórico, nascido há 260 anos. Não só porque a documentação eclesiástica não seja determinante para dirimir uma duvida histórica, como porque Joaquim José da Silva Xavier, O Tiradentes, patrono Cívico da nação brasileira esteja acima de uma polêmica de tão pouca importância diante da grandeza, do esplendor, do quilate de um bravo pregador e propagandista das idéias libertárias, contra a opressão do governo colonial português.
Acreditamos que nenhum registro tardio (260 anos) poderá mudar o curso da história ou apagar a dúvida que paira sobre a interpretação documental, ou mesmo atenuar o fogo das vaidades intelectuais numa polêmica esteril.
Mas cumpri-nos discordar da argumentação apresentada pelos ilustres colegas do Instituto Histórico e Geográfico de São João Del Rei no que tange ao território onde se localizava a fazenda ou sítio do Pombal, pertencentes ao casal Domingos da Silva dos Santos e Antônia da Encarnação Xavier, pais de José da Silva Xavier; na paragem chamada São Sebastião do Rio Abaixo, onde havia uma Capela dedicada a este santo, demolida por volta de 1832, onde Joaquim José fora batizado. Todo o território da vasta Comarca do Rio das Mortes certamente pertenceu ao Termo, como se denominava o município no período colonial, a Vila de São João del Rei quando ela foi criada a 8 de dezembro de 1713 até o dia 19 de Janeiro de 1718, quando foi criada a Vila de São José, no Arraial Velho pelo Governador de São Paulo e Minas o Conde de Assumar D. Pedro de
Almeida. Quando se criou a Vila de São José foi desmembrado de São João del Rei todo o território localizado a margem direita do Rio das Mortes, estendendo depois o termo até Congonhas do campo, Borda do Campo (atual Barbacena), Oliveira Pium-i, São Bento do Tamanduá (hoje Itapecerica) até atingir a divisa da Capitania de Goiás. Ainda no dia 28 de janeiro do referido ano de 1718 foi definido o limite entre as vilas de São João e São José, conforme atesta o Auto de Repartição abaixo transcrito do livro primeiro de Acórdãos e Criação da Vila de São José:
“TERMO DA REPARTIÇAM DESTA DESTRITO DA VILLA.”
“Aos tres dias do mes de Fevereiro deste prezente anno de mil setesentos e dezoito annos nesta villa de Sam Joseph nas casas da camara della estando prezente o ouvidor geral desta Comarqua com os officiais da camara della o juiz ordinario o Capitam Manoel Dias Araujo, o capitam Mor Manoel Carvalho Botelho também juiz, os veriadores o capitam Domingos Ramalho de Brito,Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo e por empedimento do procurador asestiu o Sargento Mor Silvestre Marques da Cunha que para isso pellos ditos officiais da camara foi chamado, e sendo ahy pellos ditos officiais da camara foi dito e Requerido ao dito ouvidor geral que em virtode do despacho da petiçam ao Senhor General lhe nomeace o termo que devia ter esta [villa ] a que visto pello dito ouvidor lhe nomeia por [ termo ] de diviza o Rio das mortes da Banda de ca entrando pello Ribeiram chamado Alves por ser a verdadeira madre do dito Rio das mortes e que os mais eram braços [ do tal ] Rio e que outro sim eram os moradores desta freguezia e estarem em posse...[ desde a primeira criaçam sogeitos a freguezia de Santo Antonio a ] chamavam Arrayal Velho e que asim os moradores da banda do dito rio para ca sejam sogeitos a esta villa, e nesta forma ouve o termo della por divizado e de como os ditos officiais asim o aseitaram e o dito ouvidor assim lho repartio fiz este termo a que asignaram, eu Luiz de Vasconvellos Pessoa Escrivam da Ouvidoria Geral e correicam que o escrevi."
Antº Olivª Leitão
Manoel Dias de Araújo
Mel Carvª Botelho
Manoel da Costa Souza
Constantino Alz de Azvº
Silvestre Marques da Cunha
Domingos Ramalho de Brito
( Livro primeiro de Acórdãos e Criação da Vila de São José,1718 – 1722 – fls 1, 1vo ,, 2, 2vo. – Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes.)
O Rio das Mortes passa portanto a ser o único limite entre as duas vilas, o que irá colocar definitivamente a paragem de São Sebastião do Rio Abaixo e a fazenda do Pombal no termo da Vila de São José.
È verdade que o Senado do câmara de São João del Rei tentou de todas as maneiras não só reduzir o termo de São José, mas representou a coroa contra a criação da própria vila, mas o rei D. João V manteve o ato do Capitão General Conde de Assumar.
Na tentativa de diminuir o termo da Vila de São José o ouvidor da comarca Valério da Costa Gouveia quis delimitar o território da vila a Sesmaria de meia légua em circunferência, fazendo peão no centro da vila, em 28 de março de 1718. O curioso é que ficava-lhe pertencendo os arraiais de Itaverava e Catas Altas da Noruega, hoje cidades do mesmo nome localizadas no vale do Rio Piranga. Como haveria distritos tão longes, sem continuidade de território?
Há ai uma confusão, pois a medição de 28 de março de 1718, refere-se apenas a Sesmaria concedida ao senado da câmara da Vila de São José para nela ter seus rendimentos, construir casas, aforando os terrenos como até a atualidade se faz e não definindo o território do município. Eis o teor da carta de Sesmaria
“ Dom Pº de Almeida etc. faço saber aos q esta minha carta de Sesmra virem q havendo Rerpdo ao q me representou a Camra da Vª de S. Joseph do Rio das Mortes sobre necessitar de terras pª seos logradouros e utilide da camra , e haver ordenado S. Mag. der a cada Va destas Minas meya Legoa de terras em quadra pª nellas ter Rendm.to , com q suprirão as despezas publicas, e desejando mostrar, a dª camara a boa vontade com q atendo aos seos requerimentos , hey por bem fazer lhe m.ce em nome do dº Sr. de lhe conceder Sesmaria meya Legoa de terras sem prejuizo de tercros nehm haja moradores q prezte estejão cultivando as dª terras, a os quais Rezevarão os seos sitios com todas as vertentes q direitamto lhes pertecerem fora as quais se não poderão alargar sem licência da Camara . e todas as pessoas q na dª meya Legoa de terras fizerem casas serão obrigadas a pagar-lhe o foro e asim mesmo todas as q fizerem Rossas depois desta concessão pª que sejão suaves aos povos, os quais poderão tirar Lenhas das dªs terras pª o gasto de suas cazas, e no cazo q esta concessão possa servir de algum prejuízo a camara da Vª de S. João del Rey, podera a de S. Joseph inteirar q de cima como pª a de baixo. Pella q mando a todas (sic) as justiças desta capnia a q o conhecimento desta pertencer dem pose das terras referidas a dª camra na forma do estillo e fação cumprir, e guardar esta minha carta de sesmaria tão inteiramente como nella se conthem q por firmeza de tudo lhe mandei passar por mim assignada e sellada com o signete de minhas armas,a qual se registra nos livros da Sectrª deste governo e nos mais a q tocar. Dada em a Real Vª de Nossa Sra do Carmo aos sete dias do mez de marco de 1718 // Dom Pº de Almeida”
(códice S.C. Nº 12 1717-1721, p. 6v – APM)
Duas citadas feitas por Herculano Veloso (1) confirmaram a divisa o Rio das mortes. Uma assinada por Constantino Alves de Azevedo, em 15 de fevereiro de 1753, vereador que foi da primeira vereança:
“... dividindo huma Villa da outra pello Rio a que hoje Chamão do Elvas dizendo os vereadores e juizes que aquele era o verdadeiro Rio das mortes....”
A seguinte atestação diz:
“... que vindo, em setembro ou outubro de 1719, o Exmo Dom Pedro de Almeida Conde de Assumar hoje Marquez de Alorna governador e capitam general destas Minas e Sam Paulo a esta villa e querendo decidir das divisas .... sobre a demarcação do termo ....determinou o dito Exmo Senhor a demarcaçam do termo de esta villa fosse por onde chamão o Rio das mortes..... e que dalhy para bayxo ficando sendo diviza do termo o mesmo rio...”(2)
A Câmara da Vila de São José continuou a manter a posse de seu território a margem direita do Rio das mortes, sempre obedecendo este limite natural, como atesta os seguintes documentos:
· Nomeação de Domingos Xavier Fernandes, avô materno de Joaquim José da Silva Xavier para o cargo de provedor dos quintos do ouro do Arraial do Bichinho, em 1 de fevereiro de 1723.
· Nomeação para o posto de Capitão do distrito de Itaverava a João Teixeira de Carvalho, em 16 de junho de 1723.
· Nomeação de Caetano Pinto do Rego para capitão do distrito da caza Branca até a Borda do campo ( Barbacena), termo da Vila de São José.
· Nomeação de Manoel Gonçalves Viana para capitão-mor do distrito de carijós, etc. Termo da Vila de São José, em 19 de setembro de 1725.
· Nomeação de João Alves Preto para Sargento-mor de Lagoa Dourada, em 18 de outubro de 1726.2
Quanto a região chamada Rio Abaixo ( São Sebastião e Santa Rita) onde se localizava a fazenda do Pombal há documentos da Câmara de São José que confirmam fazer parte do termo da Vila de São José, como o que se segue datado de 8 de Janeiro de 1747, portanto cerca de 3 meses após o nascimento de Joaquim José:
“Fazemos saber aos moradores desta villa e seo termo que tem obrigação de tirar licença o fação os desta villa, corrego bichinho, Sam sebastião, Lagoa Dourada e Lage no mez de janeiro...” (3)
No ano de 1746, quando nasceu o Tiradentes, foram nomeados para o cargo de Almotacel, para os meses de julho e Agosto os cidadãos Bernardo Alves de Meya e Domingos da Silva dos Santos “ moradores no termo da Villa O último como se sabe era o dono da fazenda do Pombal e pai do Tiradentes:
“Ao primeyro dia do mês de julho de 1746 annos nesta villa de S. José Minas comarca do Rio das mortes em cazas de morada do Juiz ordinário que de prezente serve nesta mesma villa o Capitam Antonio Marques de Moraes aonde eu Escrivam adiante nomeado Juiz vindo e sendo ahi aparecerão prezentes Bernardo Alves de Meyva e Domingos da Silva dos santos pessoas eleitas pello senado da camara desta villa para servirem de Almotacés.....” (4)
No mesmo ano ainda foi eleito Almotacél Pedro Rois Arvelhos “morador no Ryo Abayxo, termo da villa" (5)
Em 1754 Domingos da Silva dos Santos foi eleito vereador para o biênio de 1755/1756, na abertura do pelouro a 2 de dezembro de 1754. (6)
É de se notar também que Domingos da Silva dos Santos casou-se em 1738, na matriz de Santo Antônio da Vila de São José, com Antônia da Encarnação Xavier, nascida e batizada na Vila de São José, filha de um dos primeiros moradores do Arraial velho Domingos Xavier Fernandes. Conforme certidão abaixo:
“Joseph Barboza Pereira coadjuntor da freguezia de santo Antonio da Villa de São Joseph da comarca do Rio das mortes – certifico que revendo o Livro de assentos de cazamentos da freguezia da dita villa nelle a folhas oitenta e hum V. e oitenta e duas se acha hu to teor seguinte – Aos trinta dias do mez de junho de mil setecentos e trinta e oito annos na minha igreja matriz desta villa feitas as denunciações canonicas na forma do sagrado Concilio Tridentino não havendo impedimento com procizão do Reverendo vigário da vara desta comarca o Doutor manoel da Rosa Coutinho se cazarão m minha prezença com as palavras do prezente na forma do mesmo sagrado concilio Tridentino os contrahentes Domingos da Silva dos santos , natural da freguezia de Basto, arcebispado de Braga, filho legítimo de Andre da Silva e de Marianna da Motta, e Antônia Encarnaçam xavier, natural desta freguezia, filha legítima de Domingos Xavier Fernades e de maria de Oliveira Colaça – forão testemunhas Joseph Velozo do carmo, bernardo Rodrigues dantas, maria da Conceição Xavier e Ritta de Jesus Xavier, todos desta freguezia, de que fiz este assento. O vigário Doutor Joseph Nogueira Terraz – E não se contina no dito assento tirado do proprio livro a que me reposto e assim juro in verbo Sacerdotes Villa de S. Joseph aos 22 de junho de 1763 – Joseph barbosa Pereira.” (7)
Tanto o avô materno de Joaquim José, Domingos Xavier Fernandes, como o pai Domingos da Silva dos Santos eram irmãos da irmandade do Senhor dos Passos, da Villa de São José e sempre estiveram ligados a vida política e religiosa de São José.
A Capela de São Sebastião
A capela de São Sebastião do Rio Abaixo, localizada próxima a fazenda do Pombal, em local hoje não identificado servia aos moradores da região do Rio Abaixo que estavam longe das suas matrizes (Santo Antônio e Nossa Senhora do Pilar) deveria existir desde os primeiros decênios do setecentos, antes da capela de Santa Rita. Engana-se o escritor Eduardo Canabrava Barreiros ao localizá-lo a margem esquerda do Rio das Mortes, pois ela localizava-se em terrenos do Termo da Villa de São José, portanto na margem direita e recebia pasto espiritual do vigário da freguezia de Nossa Senhora do Pilar da Villa de São João del Rei. Ai começa a confusão pois a divisão administrativa não era a mesma da divisão religiosa, como até hoje ocorre. Vejamos o registro deixado no livro de atas da Câmara de São José, na sessão de 11 de abril de 1832:
“...havendo de tempos antigos huma capella neste termo cita em as margens do Rio das Mortes com a vocação (SIC) de São Sebastião esta se demolio por falta de reditos para a sua sustentação, e os poucos desta pequenina aplicação sempre se tem entregado ao pasto espiritual da Freguezia da Villa de São João e por que o Rio das Mortes he diviza do termo e por se evitarem dúvidas em eleições inda comodo dos povos no melhoramento passando-se para a freguezia desta villa por ficarem izentos das passagens digo, ficando a pequena distância de duas legoas...”
( atas da Câmara de São José. 1829-1832, fls.124 V.125. Arquivo da Câmara de Tiradentes)
Ocorre ser lógico e aceitável ter o menino Joaquim José sido batizado na referida capela de São Sebastião, no termo da villa de São José e freguezia da matriz do Pilar de São João del Rei.
Razões não faltaram para ser lá o batismo: era próximo da fazenda Pombal, onde deu-se o nascimento; estava na mesma margem direita do Rio das Mortes, não tendo que atravessar o recém nascido em canoa, ou ir até a ponte do Porto real a quase duas léguas e ainda pagar o pedágio cobrado lá. Lá na capela, naquela época havia um capelão- João Gonzalvez, e certamente era mais próxima que a de Santa Rita. Lógico também que o assento fosse lançado no livro da paróquia do Pilar de São João del Rei que cuidava do livro pasto espiritual da Capela de São Sebastião
No próprio assento de batismo, lançado no livro de assentos de batizados da paróquia do Pilar, 1742-1749, fls. 151 V.º, livro este pertencente ao acervo da Biblioteca Nacional do Rio de janeiro, vendido que foi àquela instituição por Samuel Soares de Almeida, na primeira metade do século XX, não consta que a capela de São sebastião pertença ao termo da vila de São João del Rei.
Portanto julgamos que o Tiradentes nasceu e foi batizado na paragem do Rio Abaixo, termo da villa de São José e freguezia de São João del Rei.
A capela como se viu do documento acima foi demolida antes de 1832 por falta se rendimentos para mantê-la e é tradição oral que a imagem do padroeiro tenha sido levada para a capela de Santa Rita do Rio Abaixo. Há poucos anos lá foi furtada uma imagem de São Sebastião que poderá ter sido testemunha do batizado do nosso herói Tiradentes.
No livro de registro de inventários da paroquia de Tiradentes consta no ano de 1852 o seguinte:
“Assim mais uma Imagem de São sebastião com quatro palmos de altura, com resplendor de prata com o peso de quarenta e três oitavas" (8)
Inventário referente a Capela de Santa Rita do Rio Abaixo, então filial da matriz de Santo Antônio de Tiradentes.
Dois documentos posteriores ao nascimento do Tiradentes denunciam pertencer a fazenda do Pombal ao Termo de São José. Um deles é o testamento do Sargento-mor João Gonçalvez Chaves, falecido solteiro, em 02 de dezembro de 1759 e sepultado na capela de Nossa Senhora da Penha de França do Arraial da Laje ( hoje Resende Costa). No testamento o Sargento-mor declara que era morador:
“ ...nesta paragem do Rio Abaixo Capella de São Sebastião fillial da matriz de Nossa Senhora do Pillar de Sam Joam del Rei comarca do Rio das Mortes e Termo da Villa de Sam Joseph, onde eu João Gonçalcez Chaves sou morador....”
(livro de óbitos da freguezia de Santo Antônio da Villa de S. José. 1746-1768. Fls. 356-362- Arquivo Paroquial de Tiradentes, hoje confiscado pelo bispo de São João del Rei.)
O outro documento de importância é os autos de inventário procedido por morte de Antônia da Encarnação Xavier, sendo inventariante o seu viuvo Domingos da Silva dos Santos. O processo data de 1756, procedido no cartório da Villa de São José, onde esteve até o final do século XIX, quando foi extraviado e depois doado, em 1904 ao Instituto Histórico e Geográfico de Brasileiro, onde se acha. Nele consta claramente:
“...nesta paragem chamada o Sitio do Pombal no Rio Abaixo, termo da Villa de São José, nas casas de moradia do inventariante cabeça do casal Domingos da Silva dos santos.....”
( Revista trimestral do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo LXVI, parte I – 1º e 2º trimestre, Rio de Janeiro, Imprensa nacional 1904. P. 286)
Ainda no mesmo documento é citado entre os bens de raiz duas casas sitas na Villa de São José, em rua não mencionada, dividindo com o citado sargento –mor João Gonçalvez Chaves e com o Padre Miguel Rebelo Barbosa. Isto vem provar que o casal Domingos/Antônia, não só viviam na fazenda do Pombal, termo de São José del Rei como também tinham casa na Villa para aos domingos e dias santos passarem o dia, como era costume da época, como também para o vereador Domingos da Silva santos ter estadia, em época de sessões do Senado da Câmara.
Há que citar ainda um outro documento datado de 03 de março de 1832, registrado no livro da Câmara de São José em que é citado os curatos para efeito de nomeação da Guarda nacional, que se refere ao Rio abaixo:
“... e a que antigamente pertencia a capella de São Sebastião que agora não existe e pertence a Villa de São João pelo Eclesiástico.”
(Livro de atas da Câmara de São José. 1829-1833, fls. 117/118. Arquivo da Câmara de Tiradentes)
Trinta anos antes há nomeação de Joaquim Pinto Góes e Lara, aparentado do com o Tiradentes, para Capitão da Companhia de Ordenanças da Capela de São sebastião do Rio Abaixo e suas vizinhanças; em 14 de novembro de 1801.
(livro de atas da Câmara, 1799-1803)- Arquivo Municipal de Tiradentes
Em 12 de dezembro de 1757 faleceu Domingos da Silva dos Santos, procedendo o inventário de seus bens no cartório da Vila de São José, ficando o menino Joaquim José órfão de pai e mãe, com pouco mais de dez anos de idade, tendo certamente ficado sob os cuidados do irmão mais velho e das tias.
Uma das tias, Rita de Jesus Xavier, moradora na Vila de São José, vem a ser a mãe do importante botânico e editor Frei José Mariano da Conceição Veloso,, portanto primo de Joaquim José. Mas só quando completa 20 anos é que Joaquim José, provavelmente já tendo aprendido o oficio de tira dentes, com o seu padrinho Sebastião Ferreira Leitão, solicita as autoridades de colônia a sua emancipação para cuidar de sua herança e seus negócios, com consta do requerimento datado de 1767:
“Diz Joaquim José da Silva Xavier, filho legítimo de Domingos da Silva santos, já defunto, e de sua mulher, Antônia da Encarnação Xavier, natural da Villa de São José, comarca do Rio das Mortes, distrito das Minas Gerais, que ele suplicante, se acha com vinte anos completos, como consta da certidão de idade inserta no instrumento junto; e porque estár vivendo tratando de negócios da fazenda e tem capacidade para governar e administrar os seus béns, como justificou perante o juiz dos órfãos daquele distrito, do que se lhe passou o dito instrumento junto, e como quer se digne Vossa Majestade conceder-lhe promissão de suplemento de idade, dispensando –lhe na lei, para com ela poder requerer a entrega a sua legitima, pede a Vossa majestade seja servido conceder-lhe a dita promissão. ERM. Joaquim Alves Muniz"
Pagou na chancelana 880rs, Rio de janeiro 20/07/1761, Castelo Branco.
(Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, vol. 9- Câmara dos Deputados, Brasília, 1977 p. 14 e15)
O referido requerimento foi despachado no dia 15 de julho de 1767, em nome do Rei D. José I, concedendo carta de emancipação e “idade legitima”. Mas o que importa para o presente neste documento que o próprio Tiradentes ter-se declarado “natural da Vila de São José”, e este documento foi omitido na inicial apresentada pelo IHG de São João del Rei ao senhor juiz.
É ainda preciso justificar que a maioridade no século XVIII só se dava aos 25 anos, por isso o Tiradentes pediu emancipação aos 20 anos. Agora vejamos o comentário do Souto historiador dos Tarquinio José Barbosa de Oliveira ao pé da página onde se publicou tal documento:
“Tiradentes foi batizado na freguezia de São Sebastião do Rio Abaixo a 12/11/1746; nasceu na Fazenda do Pombal, próxima ao Arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, pertencente ao termo da Vila de São josé, por sua vez compreendida na comarca do Rio das Mortes com sede em São João del Rei”.
(Auto de Devassa, cit., p. 15)
Reconhece pois Tarquinio que a fazenda do Pombal pertencia ao termo de São José. Daí para frente não aparece mais declarações de Joaquim José a respeito de seu local de origem ,a não ser no interrogatório datado de 22 de maio de 1789 quando é perguntado sobre sua identidade que respondeu:
“se chamava Joaquim José da Silva Xavier, filho de Domingos da Silva dos Santos, e de sua mulher Antônia da Encarnação Xavier, natural do Pombal termo da Vila de São João del Rey, capitania de Minas Gerais, e que tinha quarenta e hum anos de idade.....”
(Autos de Devassa, Arquivo Nacional, códice n.º 5, volume 5, folha 2)
Poderá o escrivão ter anotado São João del Rei em lugar de São José del Rei ou o próprio Tiradentes ter declarado Pombal, termo da Comarca de São João del rei, pois ele se equivoca sobre sua própria idade, pois pelo assento de batizado teria neste ano de 1789 a idade de 43 anos. Se considerarmos a declaração acima ele teria nascido em 1748, como se acreditou durante muitos anos.
Durante todo o século XIX e inicio do XX, acreditou-se que o Tiradentes havia nascido na Vila de São José, é a cidade de São José que vinham os intelectuais e propagandistas da republica promover sessões cívicas em honra ao herói, na casa do inconfidente Padre Toledo. Mas é o inflamado escritor Antônio da Silva Jardim, que em 1889, em discurso que sugere mudar o nome do rei português (D. José I) para o herói Tiradentes, o que se dará por decreto de José Cezário Alvim, governador provisório de Minas em 6 de dezembro de 1889, com o nº 3. Como disse Ângelo Oswaldo de Araújo Santos ,atual prefeito de Ouro Preto. *

O mestre Silva Jardim, no dia 21 de abril de 1890 profere um memorável discurso em homenagem ao Tiradentes, como programação do “ Clube Tiradentes” fundado por um antigo morador da cidade de São José del Rei, no Salão do Cassino fluminense, em que diz a respeito do herói:
“Não podia dizer, como César, que provinha dos reis, que eram senhores do mundo, nem dos deuses, que eram os senhores dos reis. Nascera de uma modesta família de São José del Rei, em Minas Gerais família parca em glórias e fazendas.”
(Tiradentes, discurso lido por Silva Jardim na Sessão Solene do Club Tiradentes, em homenagem ao patriota Matyr, na noite de 21 de abril de 189, Rio de Janeiro, Ty. De G. Leuznger e Filhos, 1890. P. 21)
A cidade de Tiradentes sempre teve estreita relação com a figura do protomártir da independência brasileira, deste o século XIX.
Em 1892, quando se comemorou o primeiro centenário de morte do herói, foi criada na cidade a Sociedade Comemorativa do Centenário do Tiradentes presidida pelo Comendador Carlos José de Assis, que promoveu grandes solenidade em torno do 21 de abril, com uma sessão magna nos salões da casa do Pe. Toledo, procissão cívica e uma solene missa de requiem pela morte do herói. Foi ainda essa sociedade que promoveu a construção de um monumento ao herói, colocado no centro do Largo das Forras, que passou a se chamar praça da Liberdade. (9)
Em 1894 as ruas da cidade recebeu os nomes do Tiradentes, do Pe. Toledo, do Resende Costa entre outros. Foi o primeiro monumento erigido ao Tiradentes na região do Rio das Mortes e o segundo erigido no estado de Minas gerais, somente posterior a Coluna Saldanha Marinho, em Ouro Preto, substituída em 1894 pelo monumento atual.
No ano de 1992 foi montada nova comissão Comemorativa do Bicentenário da Morte de Tiradentes, tendo promovido missa solene, na matriz de santo Antônio, celebrada pelo presidente da CNBB D. Luciano Mendes de Almeida e concelabrada por D. Serafim Fernandes de Araújo, cardeal de Belo Horizonte e outros seis bispos e quarenta padres da diocese e da província eclesiástica de Juiz de Fora. Assistiu a cerimônia o Vice- presidente da República Itamar Franco e o Vice governador de Minas Arlindo Porto. Houve ainda uma apresentação da esquadrilha da fumaça, chuva de rosas sobre a cidade, salva de 12 tiros pelo exercito brasileiro e sessão Solene da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Por fim temos a dizer a respeito do livro do Sr. Eduardo Canabrava Barreiros – As Vilas del Rei e cidadania do Alferes, José Olimpo do Rio de Janeiro , 1977 que o próprio autor revela na introdução Ter sido o livro encomendado pela Câmara municipal de São João del Rei, especialmente pela vereadora Alba Lombardi, com o intuito claro de dar razão aos que defendem ter Joaquim José da Silva Xavier, nascido em São João del rei. É curioso o autor ter citado tantos documentos e não Ter se que referido a petição de Joaquim José datada de 1767, quando se declara natural da Villa de São José. Parece omissão proposital.
Finalizando, citamos o artigo do professor de história e publicitário Yves Gomes Ferreira Alves, sócio do IHG de Tiradentes, falecido em 1996:
“que isso ocorra no âmbito do estudo da historia local é perfeitamente compreensível. Ir além expor-se a um jornalismo sensacionalista que pode levar ao ridículo o esforço edificante daqueles que, nas duas cidades, se empenham, atualmente, em construir um programa comemorativo à altura do evento de 21 de abril.
Afinal Tiradentes é tão mineiro nascido em São João quanto em São José. Há muito ele não pertence só a Minas Gerais. Pertence a todos que, neste momento, querem reverenciá-lo realmente.”
(Yves Alves – Pelo Amor de Deus não Esquartejem, O Tiradentes outra vez, jornal do Bicentenário do Martírio de Tiradentes, Tiradentes, MG-21 de abril de 1992)
Pelo exposto fica claro que o Instituto Histórico e geográfico de Tiradentes não concorda com a argumentação apresentada pelo seu congênere de São João Del Rei e continuará a afirmar, baseado no acima escrito que Joaquim José das Silva Xavier, herói maior da nação brasileira, o cavaleiro liberdade, nasceu em solo sagrado da VILLA DE SÃO JOSÉ DEL REI, no estado de Minas Gerais.
É o pensamento geral de seus conterrâneos tiradentinos de nascimento e de coração.
Pelo Tombamento Federal da Serra de São José
Os paulistas foram os pioneiros a adentrarem pelos sertões dos cataguás. Por longos anos a atividade deles foi capturar índios para mão-de-obra em suas produções agrícolas; depois, com as descobertas dos ribeiros auríferos, iniciaram a ocupação dos sertões e a instalação de arraiais. Na região do Rio das Mortes, o primeiro arraial instalado foi por volta de 1702, o Arraial de Santo Antônio do Rio das Mortes, que veio a ser a Vila de São José del Rei e posteriormente Tiradentes. Os paulistas chegaram aqui, provavelmente, atraídos pela serra, pois eles utilizavam os pontos mais altos para apreciação e avaliação da área, para a busca do ouro. A Serra de São José recebeu esta denominação por ser a serra da Vila de São José.
Muitos viajantes estrangeiros passaram por Tiradentes e registraram suas impressões sobre a cidade e sua serra. Hoje, esses registros tornaram-se relevantes, pois são os primeiros que temos sobre a Serra de São José. Richard Burton quando passou pela Cachoeira do Bom Despacho, relatou que, passando pela “Serra do Córrego, prolongamento da Serra de São José: a massa irregular de calcário e arenito ainda conserva, segundo dizem, ouro e cristal de rocha”. Relata ainda sobre a Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, “que quando o ouro abundava no Córrego, ela era bem tratada, mas que nos últimos quinze anos caiu em ruínas”. Integrando a expedição do barão alemão Grigori I. Langsdorff, estava o desenhista Rugendas, que registrou uma bela imagem de Tiradentes com a Matriz de Santo Antônio e a serra em sua imponência. A história de Tiradentes está intrinsecamente interligada à Serra de São José, em todos os momentos de sua longa história, até mesmo na Inconfidência Mineira. O inconfidente Padre Toledo foi preso atrás da Serra de São José, quando tentava fugir.
Em 1979, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes solicitou o tombamento federal da Serra de São José. Desde então, há um processo que se arrasta por anos e se faz necessária sua conclusão, para o reconhecimento da Serra de São José como Patrimônio Cultural de Tiradentes e região. Além de integrar a beleza cênica de Tiradentes, que é protegida desde 1938, a serra foi uma área de extração de ouro das mais expressivas de Minas Gerais. Em diversos pontos da serra é possível apreciação das técnicas empregadas no garimpo, até os vestígios de um mundéu, represa para lavagem de cascalho aurífero. Trechos de trilhas compunham o Caminho Velho, que ligava a localidade à Vila Rica e ao porto em Paraty/RJ, foram calçados por grandes blocos de pedras. As cavas antigas possibilitam caminhadas sombreadas e muito agradáveis, por elas circulavam as tropas que iam levando o ouro e voltavam com as mercadorias para o abastecimento local. Bem no meio da Trilha do Carteiro há um ponto curioso, um monte de pedras com uma cruz, lembrando que ali fora assassinado um carteiro. Do topo da serra, temos uma paisagem deslumbrante: um mar de montanhas e o conjunto arquitetônico de Tiradentes, ainda um dos mais preservados do Brasil. Podemos, também, apreciar outros belos conjuntos como o de São João del Rei e o do povoado do Bichinho.
Ao longo de tantos anos, a luta pela preservação da Serra de São José e sua biodiversidade resultou na criação de algumas unidades de conservação ambiental, pelo Governo de Minas, como uma APE – Área de Proteção Especial, uma APA – Área de Proteção Ambiental e um REVS – Refúgio de Vida Silvestre. A Serra de São José integra a Reserva da Biosfera, declara pela UNESCO, como Patrimônio da Humanidade.
Se a questão ambiental conquistou seu reconhecimento, a importância histórica ainda está para ser reconhecida, apesar dos apelos da comunidade de Tiradentes. Aqui, o equilíbrio entre Patrimônio Histórico e Patrimônio Ambiental torna-se vital. Um complementa o outro. Ambos tornam Tiradentes e região uma referência que agrega valor e interesse, tanto para a população quanto para turistas e especialmente pesquisadores.
No dia quatro de dezembro, sexta-feira, às 20:30 h, no Centro Cultural Yves Alves (Tel. 32 3355-1503), o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes estará lançando a campanha: Pelo Tombamento Federal da Serra de São José, com a presença do presidente do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Dr. Luiz Fernando de Almeida, do Procurador da República, Dr. Antônio Arthur Barros Mendes, do titular da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico/MG, Dr. Marcos Paulo de Souza Miranda e convidados. Na ocasião, serão apresentados uma palestra do técnico do IPHAN, Carlos Fernando de Moura Delphin e um pequeno recital de poemas, com a Oficina de Teatro Entre & Vista.
UM BREVE RESUMO SOBRE A RIQUEZA NATURAL DA SERRA DE SÃO JOSÉ, REFÚGIO DAS LIBELULAS
Numa pesquisa realizada pelo Instituto Terra Brasilis em parceria com a UFMG e outros biólogos independentes, foi publicada uma lista de espécies de libélulas da reserva situada na Serra de São José. Você já ouviu falar em libélulas? Você conhece a Serra de São José?
AS LIBÉLULAS, conhecidas popularmente como lavadeiras ou helicópteros, são insetos que voam muito rápido e caçam perto da água parada (poças e lagos temporários) ou áreas alagadas, na maioria das vezes em pleno voo. Alimentam-se vorazmente de outros insetos, especialmente mosquitos e moscas, inclusive o Aedes aegypti, causador da dengue. Prestam um importante serviço para nós. Comem também girinos e peixes pequenos. Felizmente, as libélulas não têm a capacidade de picar, visto que as suas mandíbulas estão adaptadas à mastigação. Algumas curiosidades: as espécies mais rápidas podem voar por até 80 km/h, o que as fazem as mais velozes entre os insetos; não habitam águas com alteração química ou sinal de poluição, por isso, são consideradas ótimas bioindicadores; seus olhos têm até 30 mil facetas, que permitem uma visão de 360º do ambiente ao redor; fora da água, as libélulas têm somente dois meses de vida.
Da cidade de Resende Costa, ou em outros pontos altos do município, uma elevação geográfica se destaca no horizonte em sentido sudeste: a Serra de São José. Com seus 12 km de extensão, está localizada entre os municípios de São João del-Rei, Tiradentes, Santa Cruz de Minas, Prados e Coronel Xavier Chaves. CARACTERIZA-SE POR SER UMA FORMAÇÃO DE QUARTZITO (ROCHA ORNAMENTAL CONHECIDA COMO PEDRA MINEIRA) E META-PELITO (ROCHA SEDIMENTAR DE ARGILA). EM SANTA CRUZ DE MINAS, HÁ MINERAÇÃO DE AREIA QUARTZÍTICA PARA PRODUÇÃO DE VIDRO. Na serra, alguns pontões e vários blocos de rocha espalhados são atrativos turísticos do lugar, além de belas cachoeiras e várias trilhas. As altitudes variam entre 900 e 1.350 metros (a matriz de Resende Costa possui 1.140 metros). A serra possui ainda água termal e mineral, magnesiana e radioativa, na vertente leste, o chamado balneário das Águas Santas. A fonte possui a mais alta temperatura conhecida em Minas Gerais, em torno de 27,5ºC.
Em relação à parte biótica, possui espécies de vegetação típicas de Mata Atlântica na vertente sul (no lado da cidade de Tiradentes),
Cerrado, Campo Rupestre nas áreas mais altas,
além de campos úmidos e brejos de altitude.
Nos diversos ecossistemas presentes na serra, já foram catalogadas 633 espécies de plantas, com destaque para as mais de 80 espécies de orquídeas.
Quanto às famosas libélulas, são pelo menos 128 espécies.
E mais, 32 espécies de anfíbios anuros (rãs, sapos e pererecas),
242 de aves e pelo menos 9 de mamíferos ameaçados de extinção, como o macaco-barbado, o lobo-guará, a onça-parda, a jaguatirica e o jacu.
Devido a essa singularidade natural e biológica, na Serra de São José existem três Unidades de Conservação estaduais praticamente coincidentes. Duas de uso sustentável: a Área de Proteção Especial – APE Serra de São José, criada em 1981, e a Área de Proteção Ambiental – APA São José, em 1990, ambas com 4.758 ha. A terceira é de proteção integral, o Refúgio Estadual de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José, criado em 2004, abrangendo 3.717 ha. Ratificando a importância científica e biológica do local, foi criado pelo Decreto Estadual 44.518/2007 o primeiro mosaico de unidades de conservação de Minas Gerais.
No Atlas para Conservação da Biodiversidade em Minas Gerais, de 2005, a serra e seu entorno foram indicados como área prioritária para conservação em 5 grupos temáticos biológicos: aves, herpetofauna (répteis e anfíbios), invertebrados, peixes e flora; um grupo temático não biológico (fator unidade de conservação); outro grupo temático não biológico para fatores abióticos.
NO MAPA-SÍNTESE HÁ INDICAÇÃO DA SERRA COMO UMA ÁREA PRIORITÁRIA COM IMPORTÂNCIA BIOLÓGICA EXTREMA.
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Órgão da Matriz de Santo Antônio de Tiradentes, instrumento feito na cidade do Porto, em Portugal pelo organeiro Simão Fernandes Coutinho entre 1785 e 1788. A caixa foi feita no local pelos artífices Salvador de Oliveira (entalhador), Antônio Teixeira Viana (entalhador), Antônio da Costa Santeiro (escultor), Antônio Rodrigues Penteado (marceneiro) e João Damaceno (marceneiro). A pintura e douramento foram feitas por Manuel Victor de Jesus, em1798. O órgão foi montado e afinado pelo Pe. Antônio Neto da Costa, e inaugurado em setembro de 1788 pelo organista Francisco de Paula Dias.
Com o patrocínio da Petrobras, Itaú Cultural e Usiminas, o órgão foi restaurado entre 2005 e 2008. O mecanismo foi restaurado por Gerhard Grenzing na cidade de Barcelona, Espanha. A caixa foi restaurada no local (Tiradentes) pela empresa Anima. Nos dias 7 e 8 de fevereiro de 2009 foi feita a entrega da restauração com missa solene, quando foi usado o órgão executado pelo organista espanhol Andrés Cea, com a participação do coro "VivAvoz". Em seguida houve um concerto de gala pelo mesmo organista. No domingo a programação musical foi repetida. Na missa e concerto foi executada a "Missa Breve" de Manuel Dias de Oliveira (1735-1813), compositor de Tiradentes.
A restauração foi feita através das Leis de Incentivo Cultural Estadual e Federal, sendo proponente a Sociedade Amigos de Tiradentes e gerenciado pelo Bureau Cultural Santa Rosa, com apoio da Paróquia de Santo Antônio de Tiradentes e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
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Pe. José Bernardino de Siqueira, vigário da Paróquia de Santo Antônio de Tiradentes, entre 1923 e 1956. Era natural de Itapecerica, e de Tiradentes foi para a Paróquia de José de Melo, próximo a Caeté. Quando vigário foi responsável pela reforma das igrejas da Santíssima Trindade, São Francisco de Paula, Bom Jesus da Pobreza, Santo Antônio do Canjica e da Capela rural de Nossa Senhora do Pilar do Padre Gaspar.
Postado por IHGT às 2/15/2009 09:40:00 PM Um comentário:
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2.2.09
Seminário A Guerra dos Emboabas e o início da povoação na região do Rio das Mortes
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Calçamento com pés de moleque: a origem do nome.
Conheça Minas16:04 5 comentários
(Por Arnaldo Silva) As ruas de nossas cidades antigamente eram calçadas com pedras brutas. Esse calçamento recebeu o nome de "Pé de Moleque". Costumamos falar em ruas de pés de moleque sem ao menos saber o porquê desse nome. Agora vocês vão saber.
Esse tipo de calçamento era comum na Europa nos tempos antigos e foi introduzido pelos Portugueses no tempo do Brasil Colônia. (fotografia acima de Cesar Reis em Tiradentes MG) As pedras vinham de Portugal, em navios e as ruas das cidades litorâneas como Rio de Janeiro, Paraty, Salvador, Porto Seguro, Santos, etc., receberam esse tipo de pavimentação. Chegavam em navios e eram levadas paras os seus destinos em carros de bois.
O ouro de Minas Gerais seguia para o porto de Paraty/RJ em carruagens, mulas, burros e em sua maioria, em carros de bois. Deixavam o ouro e traziam pedras para calçamento, na volta. As ruas de Paraty/RJ foram quase todas calçadas com essas pedras vindas de Portugal.
Como as cidades e vilas mineiras eram muito distantes para transportar tantas pedras, optaram por calçar as suas ruas com as pedras existentes nas regiões próximas às mesmas, que existiam em abundância, em beiras de rios, por exemplo. Na região de Ouro Preto, a pedra sabão era a mais comum e foi a mais usada nos calçamentos das ruas da cidade. O corte das pedras era totalmente rústico, feito a base da picareta, pelos escravos e em boa parte, nem eram cortadas, eram colocadas nas ruas da forma que eram retiradas.
Com o aumento da exploração do ouro nas Minas Gerais, o fluxo de cavalos, carroças e carruagens aumentava a cada dia. As pequenas vilas que existiam não tinham ruas e sim caminhos abertos pela caminhada das pessoas e pelas rodas das carroças e carros de bois. (fotografia acima de Peterson Bruschi em Ouro Preto MG)
Com o crescimento das vilas, bem como as transformações destas em cidades, surgiu a necessidade da abertura de ruas mais largas que os caminhos existentes. E os escravos foram largamente usados para abrir ruas e calçar as mesmas. Era no braço, na picareta, enxada e pás. As pedras vinham de pedreiras e rios, trazidas em carros de bois.
A partir de 1760, a melhora das vias públicas se fez necessário, porque com o fluxo de pessoas e animais constantes, o transporte de mercadorias era prejudicado por atoleiros, buracos e poeira, prejudicando a todos. E para solucionar esse problema, as cidades começaram a receber calçamento nas suas ruas lamacentas e poeirentas, que com o tempo, passou a ser chamado de pés de moleque, nas suas ruas lamacentas e poeirentas.
O calçamento era necessário para evitar que as tropas com suas carroças, mulas e cavalos abarrotadas de ouro, diamantes, café e gêneros alimentícios, atolassem em dias de chuva ou levantassem poeira, em dias de estiagem, o que incomodava os moradores dos casarões e pedestres.




Os trabalhos de calçamentos eram orientados por mestres pedreiros e executados pelos escravos e também por presos das cadeias próximas, que eram obrigados a trabalhar de graça, sob forte vigilância e acorrentados pelos pés. Eles preparavam a rua na enxada e iam postando pedra por pedra, uma ao lado da outra. (fotografia acima de Matheus Freitas/@m.ffotografia)
Os filhos desses escravos, que eram costumeiramente chamados de "moleques" iam em seguida esparramando terra arenosa e acertando as pedras com os pés. Não eram pedras uniformes e nem certinhas, porém o calçamento ficava bom, evitava o barro nos tempos de chuva e poeira na estiagem.
É por isso que esse tipo de calçamento se chama "Pé de moleque" embora muita gente diga que o nome é porque essas pedras lembram muito a cor do famoso doce de amendoim que conhecemos, o pé de moleque.
O surgimento desse doce é bem posterior ao surgimento do nome desse tipo de calçamento, portanto, não faz sentido associar a pedra ao doce, até porque moleque, sempre era usado para chamar os filhos dos escravos. O doce de amendoim, surgiu no século XIX e esse tipo de calçamento existe há séculos, na Europa, inclusive na Roma antiga, há mais de dois mil anos, ruas romanas tinha esse tipo de calçamento.
O doce em questão passou a ser chamado de "Pé de Moleque" justamente porque esse tipo de calçamento lembra o doce no tabuleiro e não o contrário. Veja a foto acima do Cesar Reis, de uma rua em Tiradentes. Não lembra o doce no tabuleiro?
No final do século XIX, já no fim do Brasil Imperial, as cidades começaram uma era de modernização e urbanização que acompanhava o desenvolvimento das cidades Europeias, buscando melhorar a vida de seus habitantes. (fotografia acima de Peterson Bruschi em Ouro Preto MG)
Com essa visão de modernizar as cidades, os calçamentos em pés de moleques começaram a ser retirados e colocados no lugar paralelepípedos, que são pedras bem trabalhadas, lisas, colocadas lado a lado. Por isso são chamadas de "pedra casada" ou "rua de pedras casadas". Esse tipo de calçamento evitava os constantes tropeços que o calçamento em pés de moleques causavam e por dar um visual mais bonito às ruas, já que eram lisas e uniformes.
E assim foi na maioria das cidades históricas mineiras e do Brasil também. Poucas ruas de nossas cidades históricas mantiveram o calçamento original, sendo substituídos pelos paralelepípedos do final do século XIX. (na foto acima de Matheus Fotografia - @m.ffotografia, rua em São João Del Rei MG) Nas fotos acima você percebe bem a diferença nos tipos de calçamentos.
Os paralelepípedos são elementos de pavimentação feitos de pedra ou concreto, geralmente na forma de um paralelepípedo retangular. Eles são amplamente utilizados como material de pavimentação em vias urbanas, calçadas e estradas. Os paralelepípedos têm uma superfície regular e plana, e são dispostos de maneira ordenada, formando um padrão uniforme quando são colocados lado a lado.
O calçamento pé de moleque, por outro lado, é um tipo de pavimentação feito de pedras irregulares ou seixos. Essas pedras são geralmente de tamanhos e formatos diferentes, criando um padrão mais rústico e desigual quando dispostas no solo. O calçamento pé de moleque recebe esse nome devido à semelhança visual que tem com a textura e o formato dos tradicionais doces brasileiros chamados de pé de moleque.
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A principal diferença entre os paralelepípedos e o calçamento pé de moleque está na sua aparência e no processo de instalação. Enquanto os paralelepípedos são retangulares, uniformes e dispostos de maneira ordenada, o calçamento pé de moleque é composto por pedras irregulares e dispostas de forma mais aleatória. O calçamento pé de moleque tem uma aparência mais rústica e casual, enquanto os paralelepípedos proporcionam uma aparência mais formal e simétrica.
O impacto que representou o iluminismo influenciando a inconfidência mineira.
O Iluminismo foi um movimento intelectual que aconteceu durante os séculos XVII e XVIII, na Europa. Foi um período em que as pessoas começaram a questionar a autoridade absoluta dos governantes, da igreja e de outras instituições. Os pensadores iluministas defendiam a ideia de que a razão, o conhecimento e a ciência deveriam ser usados para melhorar a sociedade e a vida das pessoas.
Os filósofos iluministas acreditavam na importância da liberdade de pensamento, da igualdade de direitos e da separação entre religião e governo. Eles criticavam o poder absoluto dos reis e defendiam a ideia de que o poder político deveria ser dividido e limitado para evitar abusos.
Os iluministas também valorizavam o conhecimento científico e a educação. Eles acreditavam que o avanço da ciência e da educação poderia trazer progresso e melhorias para a sociedade. Eles tinham uma visão otimista de que a humanidade poderia ser aperfeiçoada por meio do conhecimento e da razão.
Os ideais do Iluminismo tiveram um impacto significativo em muitos aspectos da sociedade, incluindo a política, a filosofia, a ciência e a educação. Muitas das ideias defendidas pelos iluministas, como os direitos humanos e a liberdade de expressão, continuam sendo valores importantes até os dias de hoje. O Iluminismo foi um movimento importante que influenciou profundamente a forma como pensamos e organizamos a sociedade hoje em dia.
O movimento do Iluminismo não influenciou diretamente nenhuma revolta específica no Brasil. O Iluminismo foi um movimento intelectual que teve maior impacto na Europa, principalmente nos séculos XVII e XVIII. No entanto, as ideias iluministas tiveram repercussões em todo o mundo, incluindo nas colônias americanas, como o Brasil.
No contexto brasileiro, as ideias iluministas desempenharam um papel indireto ao inspirar as pessoas a questionarem o sistema colonial e a buscar maior liberdade e igualdade. Durante o período em que o Brasil era uma colônia de Portugal, houve diversas revoltas e movimentos que buscavam a independência e melhores condições de vida.
Um exemplo significativo foi a Inconfidência Mineira, ocorrida em 1789 na região de Minas Gerais. Embora não possa ser considerada uma revolta diretamente influenciada pelo Iluminismo, algumas das ideias iluministas, como liberdade, igualdade e questionamento da autoridade, podem ter tido alguma influência nos ideais dos participantes da Inconfidência.
É importante destacar que os movimentos e revoltas no Brasil colonial foram influenciados por diversos fatores, incluindo questões econômicas, sociais e políticas, além de aspectos culturais e históricos específicos do país. Embora as ideias iluministas possam ter exercido uma influência indireta, é preciso considerar outros elementos para compreender o contexto das revoltas brasileiras.
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Inconfidência e heroísmo: Tiradentes em ação
Em setembro de 1788, quando no Rio de Janeiro Joaquim José da Silva Xavier encontrou-se com José Álvares Maciel, teve início a Inconfidência Mineira. Álvares Maciel, recém chegado da Europa, onde se formara em Ciências Naturais, contava ao alferes suas experiências. A Europa era agitada pelos conceitos do Iluminismo. As teorias filosóficas se punham em prática. Voltaire defendera o pensamento livre enquanto Rousseau divulgara a idéia do Estado democrático. A razão deveria prevalecer sobre o teocentrismo e iluminar as trevas medievais que ainda encobriam aquela sociedade. As idéias liberais propunham uma modificação radical na estrutura política do Velho Mundo. Monarquias seriam contestadas e, na França, um rei perderia em breve o trono e a cabeça. Os revolucionários e o povo já estavam nas ruas, o momento era propício para o grito de liberdade, igualdade, fraternidade, o lema da Revolução francesa.
Álvares Maciel ressaltou também o exemplo dos norte americanos, que romperam os laços com sua metrópole e instituíram a República ainda em 1776. Na França, em 1786, Thomas Jefferson, então ministro americano e futuro presidente dos Estados Unidos, autor da Declaração da Independência Americana, fora procurado pelo estudante brasileiro José Joaquim da Maia, que buscava apoio dos americanos a um projeto de revolução no Brasil, com o objetivo de obter a independência. Aos europeus, parecia inacreditável que o Brasil ainda se mantivesse submisso a Portugal.
Tudo isto Álvares Maciel contou ao Alferes Tiradentes, que, por sua vez, como profundo conhecedor da realidade degradante imposta aos brasileiros pela Coroa portuguesa, relatou a Maciel toda a situação vivida principalmente em Minas, a galinha dos ovos de ouro que estava sendo asfixiada pela ambição sem limites da Fazenda Real.
Durante o século XVIII, Minas Gerais proporcionou a Portugal cerca de trinta e seis mil arrobas de ouro e mais de trezentas e trinta mil oitavas de diamantes, quase tudo esbanjado na corte luxuosa de D. João V, o novo Rei sol, ou desviado para Inglaterra para o financiamento da Revolução Industrial. Todavia, o solo começara a dar sinais de exaustão, e já não era possível aos mineiros suportarem a exorbitante carga de impostos praticados pela metrópole. Apenas o quinto do ouro, há muito atrasado, acumulava-se em torno de seiscentas arrobas de ouro, e esta dívida estava prestes a ser cobrada, os mineiros pagariam à força, de uma só vez, e de forma indiscriminada, fossem mineradores ou não. Por outro lado, os brasileiros eram preteridos pelos reinóis e por eles humilhados. Ao país era proibido possuir fábricas, indústrias, estradas e escolas, constituindo-se verdadeiro estado de atraso cultural e econômico, em solo tão rico e belo. Relatava emocionado o Alferes.
Daquela conversa saiu a decisão de fazer a revolução. Ambos puseram-se a caminho de Minas. Pelos pousos e fazendas iam semeando a revolta. Falaram a José Ayres Gomes, a Manoel Rodrigues da Costa e, chegando a Vila Rica seduziram ninguém menos que o Tenente Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, cunhado de Maciel e comandante da força militar de Minas. O segundo homem mais poderoso da capitania tornara-se inconfidente. Em seguida outros militares, os poetas, os religiosos, os fazendeiros e todos os outros idealistas se agruparam.
A propaganda indiscriminada do Tiradentes atingiu pessoas das mais diversas classes e posições sociais. A coragem do Tiradentes chegava a assustar e causava a admiração de seus próprios companheiros: Seria um herói ou um louco? Muitos aderiram logo, outros, temerosos ou oportunistas, ficaram esperando os resultados, outros ainda, os traidores, trataram de guardar a informação, para usá-la na hora certa. E assim, no curto espaço de seis meses já estava tudo decidido: as leis da nova república, homens, armas e pólvora a serem empregados e quem os forneceria, as providências para a defesa da república novata, as primeiras medidas administrativas, as leis e até a bandeira.
A data da rebelião ficaria condicionada à execução da dívida dos quintos, denominada Derrama, que estava prevista para o início de 1789. No momento certo os combatentes seriam avisados através da senha: Tal dia é o batizado. Tiradentes prenderia o Governador Visconde de Barbacena, Freire de Andrade garantiria a submissão dos Dragões. Seria espetacular o dia da libertação da pátria. O Brasil já não precisava de Portugal e seus déspotas.
Em fevereiro de 1789 todo o projeto dos inconfidentes começou a desmoronar. Tiveram a infeliz idéia de convidar o coronel Joaquim Silvério dos Reis para a causa. Português, e devedor de uma grande quantia aos cofres reais, Silvério viu na traição da conjuração um bom negócio e a 15 de março de 1789 formalizou sua denúncia ao governador de Minas, e logo depois o fez também ao Vice Rei, Luiz de Vasconcelos. Tiradentes foi preso e encarcerado no dia 10 de maio. Em Minas outras prisões e sequestro de bens se sucederam. Delatores, num total de nove, se apresentaram. Dois processos foram abertos, um em Minas e outro no Rio de Janeiro. Cerca de trinta réus foram indiciados. Chefes de família foram arrancados de casa, famílias inteiras foram condenadas à miséria absoluta antes mesmo da condenação. A simples acusação do crime de Crime de Lesa Majestade era grave o suficiente para condenar antes de julgar. Todo o rigor das Ordenações Filipinas seria aplicado nas punições. A excessiva demonstração de força denunciava, na verdade, o medo da monarquia portuguesa diante dos heróis que ousavam enfrenta-la.
No patíbulo, no dia 21 de abril de 1792, Tiradentes pagou com a vida por sua coragem e heroísmo, foi esquartejado e distribuído pelo Caminho Novo, tal qual semente de liberdade lançada no solo de Minas. Outros heróis pagaram no exílio sua ousadia, atormentados pela sorte de suas famílias e de seu país. Cumprida estava a sentença. Saciados estavam os juizes. Vingada estava a rainha. Triunfante saíra Portugal, mas não por muito tempo.
Pouco depois, em Vila Rica, um jovem de apenas 15 anos assistiria estarrecido o espetáculo da exposição da cabeça do Tiradentes em via pública. Era José Joaquim da Rocha, que seria trinta anos depois um dos principais articuladores da independência. Germinou a semente, ainda que tardia. O exemplo que os portugueses queriam dar teve efeito contrário aos seus propósitos. Tiradentes não seria lembrado pelos brasileiros como um criminoso, o abominável réu de Lesa Majestade, que consta nas Devassas, mas como o mártir da liberdade, o herói que deu a vida pela pátria e que influenciou de forma incontestável a vocação democrática do Brasil.
(sessão solene do Dia de Tiradentes – 21/04/2010)
Rogério Geraldo de Paiva (IHGT)
O batizado do Tiradentes e a questão de limites entre as vilas de São João e São José
Rogério Paiva – Sócio do IHGT
(Comunicação em reunião do IHGT do dia 20 de novembro de 2011)
“Aos doze dias do mês de novembro de mil setecentos e quarenta e seis anos, na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, o Reverendo Padre João Gonçalves Chaves, capelão da dita Capela, batizou e pôs os Santos Óleos a Joaquim, filho legítimo de Domingos da Silva dos Santos e de Antônia da Encarnação Xavier; foi padrinho Sebastião Ferreira Leytão e não teve madrinha; do que fiz este assento. O Coadjutor Jeronymo da Fonseca Alvarez”.
Nascido na Fazenda do Pombal, termo da vila de São Joseph del-Rey, em 1746 foi batizado a doze de novembro do mesmo ano em capela da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rey. Estava feita a confusão que atravessaria os séculos. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, era sanjosephense ou sanjoanense? Polêmica estéril e inútil que, certamente, não mudará a história ou a importância do Herói nela, mas que vem propiciando um pitoresco debate, cheio de nuances bairristas, sobre as obscuras fronteiras de São José e São João no século XVIII.
Acusado do crime de lesa-majestade, o Alferes Tiradentes foi preso em 1789 e condenado em 1792. Enforcado, esquartejado e distribuído pelo caminho entre o Rio de Janeiro e Vila Rica, foi declarado infame, infame também a sua descendência até a segunda geração e teve seus bens confiscados. A casa em que morava, em Vila Rica, foi demolida, o terreno esterilizado pelo sal e lá foi levantado o padrão da ignomínia. Proclamada a independência, em 1822, o herói permaneceu esquecido e menosprezado para ser, enfim, resgatado pela propaganda republicana do final do século XIX, como símbolo maior do novo regime, tão sonhado pelos Conjurados de 1789.
Foi na cidade de São José del-Rei, que os propagandistas republicanos encontraram a melhor acolhida e onde buscaram inspiração para a causa, e visitaram-na por diversas vezes em verdadeiras peregrinações cívicas. Em uma dessas ocasiões, em discurso na estação ferroviária, o republicano Antônio da Silva Jardim sugeriu a mudança do nome de São José para Tiradentes. Seria, segundo ele, uma homenagem ao herói e, ao mesmo tempo, a correção de uma injustiça, pois não soava bem o nome de um rei português para a terra natal do Mártir.
A mudança ocorreria a seis de dezembro de 1889, quando a Lei nº 3 do governo republicano provisório de Minas, chefiado por Cesário Alvim, oficializou a proposta de Silva Jardim. São José del-Rei, tornava-se Tiradentes. Curiosamente, até início do século XX, alguns documentos da Câmara referiam-se à cidade como São José de Tiradentes. Um indício, fundamentado em tradição do século XIX, de que o povo nunca teve dúvida quanto à origem do Alferes.
A Vila de São José del-Rei foi criada a dezenove de janeiro de 1718, quando D. Pedro de Almeida Portugal, Conde de Assumar, Governador das Capitanias de Minas e São Paulo, elevou à categoria de Vila o Arraial de Santo Antônio. Com o ato, o Conde atendia aos vários requerimentos dos moradores do lado direito do rio, que alegavam dificuldade em atravessá-lo para resolverem suas questões em São João del-Rei. O rio, volumoso na época das chuvas, devia ser um empecilho respeitável, causador de incontáveis mortes que lhe valeram o nome.
São José del-Rei nasceu sob intensa disputa. A criação de uma nova vila, tão próxima, incomodou profundamente a Câmara de São João, que reagiria imediatamente. Transformada em vila em 1713 e em sede da Comarca do Rio das Mortes em 1714, São João del-Rei dominava vasto território, que se confundia com o próprio território da Comarca, uma vez que era a única vila ali existente, até então. Assim sendo, o surgimento de uma nova vila significou também o aparecimento de uma rival, pelo menos no entendimento das autoridades sanjoanenses daquela época.
De imediato, a Câmara sanjoanense representou a D. João V contra o ato do Conde de Assumar, mas o Rei confirmaria a nova vila a de doze de janeiro de 1719. A três de fevereiro de 1718 foi nomeado o termo da Vila de São José, ficando estabelecido o leito do Rio das Mortes como limite entre as duas vilas, conforme o desejo dos moradores da região, atendido pelo governador e pelo Rei. A sete de março a Câmara de São José solicitou ao governador a concessão de meia légua de terras em quadra para obter seus rendimentos, como era de praxe, para a manutenção da Câmara e dos serviços públicos. Nova reação da Vila de São João del-Rei veio a 28 do mesmo mês, com ato do ouvidor geral da Comarca, Valério da Costa Gouveia, que estipulou meia légua em circunferência, fazendo peão na vila. Esse ato diminuiu a sesmaria patrimonial da Câmara de São José, que protestou imediatamente. Na sequência, a controvérsia instalou-se quanto à verdadeira madre do Rio das Mortes. Havia a dúvida se o Rio Elvas desaguava no Rio das Mortes ou se era seu curso principal. Para resolver a questão o Conde de Assumar veio à região em meados de 1719. Daí em diante não aparece nova delimitação territorial até a correição de 1755, que apenas confirma limite do rio, entre as duas vilas. No entanto, a discussão nunca encontrou ponto pacífico e, nos bastidores, a disputa continuou acirrada. A fibra do povo de São José, que seria mais tarde personificada na figura animosa do Tiradentes, fez com que a vila ocupasse de fato o que lhe cabia por direito, ou seja, a margem direita do Rio das Mortes, conforme o desejo do povo, atendido em janeiro 1718.
A partir da década de 1920, a mera questão de limites entre as duas vilas tornou-se verdadeira cruzada cívica, motivada por reações ao livro Ligeiras Memórias Sobre a Vila de São José nos Tempos Coloniais, de Herculano Veloso. O ex agente executivo de Tiradentes, profundo conhecedor dos arquivos históricos da cidade, tratou da questão dos limites entre as duas vilas e demonstrou a posse sanjosefense dos terrenos que se situavam à direita do rio, o que incluía, circunstancialmente, a Fazenda do Pombal, berço de Joaquim José da Silva Xavier. Ocorre que, nessa época, a imagem do Tiradentes, já restabelecida pela República, tornara-se atrativa, e a antiga questão de limites passou a concentrar-se na reivindicação de seu local de nascimento. A reação sanjoanense veio através de Basílio de Magalhães, com artigos publicados na imprensa local. Em 1976 surge o livro As Vilas Del-Rei e a Cidadania de Tiradentes, de Eduardo Canabrava Barreiros. Livro que, segundo o próprio autor, foi escrito sob encomenda de vereadores de São João del-Rei, no afã de resolver a questão em torno da naturalidade do Alferes. Nesse ínterim, outros escritores trataram do assunto, com pouca variação em relação aos escritores supracitados.
Basílio de Magalhães pretendeu questionar Herculano Veloso com argumentação baseada em três pontos: 1- o próprio Tiradentes se identificou como sanjoanense no interrogatório de 22 de maio de 1789, publicado nos Autos de Devassa; 2- a carta de sesmaria da Câmara da vila de São José era de meia légua em circunferência, o que não atingia a Fazenda do Pombal; 3- apenas com a correição de 1755 o território onde se encontrava a Fazenda do Pombal teria passado à jurisdição da Vila de São José, mesmo assim, por pouco tempo. Além disso, Basílio questiona a legitimidade da participação política do pai do Tiradentes, Domingos da Silva dos Santos, na vila de São José. Para refutar o fato embaraçoso de Domingos ter sido eleito almotacé e vereador por São José em 1746 e 1754, respectivamente, o que comprova sua residência no local, o escritor cita o caso de um sujeito que teria ilegalmente ocupado cargos de vereador nas duas vilas del-Rei, pelo que fora repreendido pelo Rei. E o escritor levanta a hipótese de que o mesmo pudesse ter ocorrido ao pai do Tiradentes...
O outro estudioso do assunto, Eduardo Canabrava Barreiros, partindo de Basílio e Herculano, também pretendeu resolver a intrincada questão. Traçou um triângulo com a finalidade de encerrar a polêmica em torno dos limites das vilas e decretou: Tiradentes é sanjoanense porque: A) Foi batizado em capela pertencente à freguesia de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rei; B) Nasceu na Fazenda do Pombal, termo da vila de São João; C) O próprio Tiradentes declarou-se sanjoanense, no interrogatório de 1789, também citado por Basílio.
Louvável esforço, sem resultados práticos. Nem os três argumentos de Basílio, nem o triângulo de Barreiros encerraram a polêmica, e por um fato muito simples: deixaram margem ao questionamento e à contraprova. Contaram apenas a uma versão da história. Diante disso, passemos a analisar os argumentos desses autores e a apontar alternativas, não com o intuito desnecessário de provar a naturalidade sanjosefense do Tiradentes, o que é irrelevante para a grandeza do Alferes, ou para a sobrevivência de nossa cidade, cujo sucesso de marketing turístico se deve mais à preservação arquitetônica, ambiental e cultural do que propriamente ao nome do filho ilustre, que, no entanto, ostentamos com orgulho.
Vejamos, então, a opinião dos dois escritores e as alternativas não consideradas por eles:
1º - Joaquim José da Silva Xavier é sanjoanense porque batizou-se na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, freguesia de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rei: Quanto ao assento de batizado do Tiradentes, reproduzido no início deste texto, ocorre confusão, deliberada ou não. De fato, a Capela de São Sebastião do Rio Abaixo pertencia à Paróquia de Nossa Senhora do Pilar. Se a hipótese de Barreiros estivesse certa, e essa capela estivesse do lado esquerdo do rio, também sua localização pertenceria ao Termo da Vila de São João del-Rei. Por outro lado, se a tal capela ficasse do lado direito, continuaria pertencendo, eclesiasticamente, à Paróquia sediada em São João, mas em território de São José. Naquela época, e ainda hoje, os limites administrativos das vilas não precisavam coincidir, necessariamente, com a jurisdição eclesiástica. A localização da Capela e sua jurisdição eclesiástica, no entanto, não faz a menor diferença quanto à definição da naturalidade do Tiradentes. Ele não nasceu dentro da capela, apenas foi ali batizado. O Herói nasceu na Fazenda do Pombal, à margem direita do rio, termo da Vila de São José desde 1718. Se na época existisse o registro civil, certamente esse documento seria registrado em São José. Mas esse documento não existe e nem precisa existir, pois seria anacrônico. Há, no entanto, outros e inúmeros documentos que comprovam a posse sanjosefense do território à direita do rio, àquela época, como o emblemático testamento do Sargento-mor João Gonçalvez Chaves, no qual fica claro que jurisdição eclesiástica não coincidia, necessariamente, com jurisdição territorial. Diz o documento: “...nesta paragem do Rio Abaixo Capella de São Sebastião fillial da matriz de Nossa Senhora do Pillar de Sam Joam del Rei comarca do Rio das Mortes e Termo da Villa de Sam Joseph, onde eu João Gonçalcez Chaves sou morador....” (livro de óbitos da freguezia de Santo Antônio da Villa de S. José. 1746-1768. Fls. 356-362- Arquivo Paroquial de Tiradentes). Dirão alguns que esse documento é de 1759, e que nessa época imperava a correição de 1755. Note-se, entretanto, que a capela continuava a pertencer eclesiasticamente a São João, apesar de estar em terras de São José, ou seja, mesmo que o território tenha passado para São José, através da tal correição, a capela continuou pertencendo à paróquia sediada em São João. Isso prova que as duas coisas não se misturavam, necessariamente. Por semelhança, pode-se concluir que o registro de batismo do Tiradentes não é suficiente para indicar sua naturalidade, pois não indica o local do seu nascimento. Por outro lado, o testamento do Sargento-mor vai contra a opinião de Barreiros de que essa capela ficava do lado esquerdo do rio. Se assim fosse, mesmo a partir de 1755, não poderia pertencer a São José, como consta no documento citado.
2º - Joaquim José nasceu na Fazenda do Pombal, cujo território a sesmaria de São José del-Rei não alcançava: Ora, todos sabem que essa sesmaria de meia légua de terras, em quadra ou em circunferência, referia-se apenas à área destinada aos rendimentos da Câmara, como ocorria em todas as demais vilas, inclusive São João, sem significar a totalidade do seu território. Não seria absurda a criação de uma vila com área tão diminuta? No caso de São José, isto ainda deixaria de contemplar o principal motivo da criação da Vila, que foi o requerimento dos moradores do lado direito do rio, que não queriam mais correr o risco de atravessá-lo para irem a São João. E como explicar a vinda do Conde de Assumar em 1719 para dirimir dúvidas sobre o verdadeiro leito do Rio das Mortes? E como explicar a existência dos inúmeros distritos da Vila de São José fora dessa limitada sesmaria? Seria apenas a avareza e desobediência dos vereadores de São José, que promoveram uma expansão avassaladora? Seria isto possível nas barbas da poderosa São João? Sabe-se que o termo da Vila de São José chegou, no século XVIII, a fazer divisa com a capitania de Goiás. Por outro lado, confundir a área da sesmaria da Câmara de São José com a totalidade de seu território, autorizaria a aplicar o mesmo raciocínio com relação a São João, cujo termo seria, então, de duas léguas em quadra, conforme sua carta de sesmaria de 1714. Por que os limites de São João podiam extrapolar sua sesmaria patrimonial e o mesmo não poderia ocorrer a São José? Comarca do Rio das Mortes era uma coisa, Vila de São João del-Rei era outra. As coisas mudaram com a criação da Vila de São José e São João já não impera soberanamente na região. Aplicando, ainda, o mesmo raciocínio: se a Fazenda do Pombal não pertencia a São José, por estar fora da sesmaria da Câmara dessa vila, conforme dissera Basílio, por que pertenceria a São João, cuja sesmaria também não a alcançava? E por que a alegada perda do território referente às catas de São Francisco Xavier pela sesmaria de São João, que poderia ser compensada em qualquer direção, o seria exatamente na direção das terras da Fazenda do Pombal? Por ter sido o berço do herói? São muitas as questões possíveis, mas a resposta é invariável: Se a área onde se localizava a Fazenda do Pombal, pertencia ao Termo da Vila de São José, não é por ter sido berço do Mártir, mas por localizar-se do lado direito do Rio das Mortes. Essa era a divisa natural e oficial entre as duas vilas desde 1718. A correição de 1755, citada por Basílio e Barreiros, não provocou qualquer mudança nesse panorama, pois manteve o leito do Rio das Mortes como divisa. O argumento de que a paragem São Sebastião do Rio Abaixo, onde estava a Fazenda do Pombal ficava fora da vila de São José por estar fora de sua sesmaria patrimonial é fraco e insuficiente como prova, já que, aplicada a recíproca, o mesmo ocorreria a São João del-Rei. Sesmaria patrimonial de uma câmara não significava a totalidade territorial dessa mesma vila.
3º- Tiradentes declarou-se natural de São João del-Rei em depoimento de 22 de maio de 1789, publicado nos Autos de Devassa. De fato, lá está escrito que o Alferes se disse natural de São João del Rei, mas também, no mesmo documento, o Alferes disse ter 41 anos de idade. Ora, se o Tiradentes nasceu em 1746, como poderia ter 41anos em 1789? E se o Alferes errou sua idade, porque não poderia errar o local de seu nascimento? E se esse erro foi do escrivão, por que o mesmo não poderia errar a naturalidade de Joaquim José? Por outro lado, nos mesmos Autos de Devassa, volume 9, há petição através da qual Joaquim José solicita a antecipação de sua maioridade, por ser órfão e ter que cuidar do seu patrimônio. Nesse documento, ignorado pelos escritores citados, consta sua naturalidade sanjosefense. Além disso, a carta que concede a maioridade a Joaquim José, a quinze de julho de 1767, ordena que seja feita uma justificação perante o Juiz de Órfão da Vila de São José del-Rei. Isso não faria sentido se o Alferes fosse sanjoanense. Portanto a informação extraída do depoimento de 1789 entra em contradição no mesmo depoimento e com outros documentos citados no mesmo Processo, o que a invalida como prova.
A questão de limites entre as vilas de São João del-Rei e São José del-Rei no século XVIII é assunto polêmico e a disputa em torno da naturalidade do Tiradentes está intrinsecamente ligada a ele. Haverá sempre o ardor cívico que, de cada lado, lutará pela honra de proclamá-lo conterrâneo. Ressalto, porém, que o intuito desta comunicação não é fazer apologia cega a uma posição bairrista. Quem questiona os escritores Basílio e Barreiros não sou eu, é a lógica... O que a faz a História são os documentos e, enquanto não surgirem documentos novos ou inéditos, que possam justificar uma revisão dessa História, limitemo-nos aos existentes:
“AUTO DE CREAÇAM DA VILLA DE SAM JOSEPH COM O SEU TERMO”
“Anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil setecentos e dezoito annos. Aos vinte e oito dias do mês de janeiro do dito anno em o arrayal velho freguezia de Santo Antônio onde eu escrivam da ouvidoria geral vim com o coronel Antonio de Oliveira Leitam que de prezente serve de ouvidor geral por empedimento do Doutor Valério da Costa Gouvêa e sendo ahy prezente a nobreza clero e povo mandou o dito ouvidor em virtude de um despacho de Dom Pedro de Almeida Portugal governador e Cappitam general de Sam Paullo e Minas posto em huma petiçam que lhe fizeram os moradores do mesmo Arraial cuja copia lê a que se segue: Dizem os moradores da freguezia de Santo Antonio do Arraial velho que lhes se acham com grande prejuízo e empedimento para tratarem os seos negócios na Villa de Sam Joam del Rey por estarem da outra parte do Rio das Mortes cujas pasagens sam muito arriscadas e perigosas principalmente no tempo das augoas em que as suas enchentes o impossilibitam a recorrer a Villa de Sam Joan Del rey e fica todo este povo sem aquelle recurço para as partes alem de ter esprementado que muitas pessoas que neste tempo se arriscarm a passae se afogaram por nam haver canoas em que com segurança pasasem e perdem nam so seus negócios particulares senam do bem publico: E como esta freguezia he huma das mayores das minas e esta mais distantes da villa com muita largueza de matos para rossas como te lavras e faisqueiras permanentes Ai tem os moradores a suas cazas coaze todas cobertas de telhas por estarem as olarias perto da freguezia e para que melhor se possa o serviço de sua Majestade assim na arrecadaçam dos seos quintos pois he sem duvida que coantas mais pessoas nesta diligencia se empregarem tanto mais fácil será dita cobrança e se nam experimentara o que sosedeo este anno em algumas (villas) que por terem os seos districtos excecivamente dillatados crecidos por cobrar com grande detrimento (e despeza da fazenda) real na dilaçam da frota do (Rio de Janeiro como também serão) mais bem obedecidas as ordens (que vossa Excellencia por servido dis) trebuyr cuja exzecuçam (ficara mais prompta e facilitada) por haver muitos moradores e poderozos com os quaes se poderá conservar uma boa villa das maioresdestas minas sem prejuízos da Villa de Sam Joam del Rey por lhe ficar inda hum grande distrito e por que já em outra ocaziam pelas justificadas razoes que aprontam fizeram o mesmo requerimento ao antesecor de Vossa Excelência no que nam foram deferidos por se mandar enformar de algumas pessoas que nam tinhao conveniência em que se erigiçe em Vila o dito Arraial de Santo Antonio posto que de nenhum modo esta materia prejudica a terceyros antes redunda em mais utilidade do serviço de sua majestade e bom regime dos povos: Esperamos da reta instiça de Vossa excelência que informado de pessoas desapaixonadas seja servido dar-nos o despacho que esperamos. Portanto pedem humildemente a Vossa Excelência que atendendo ao referido e por evitar algumas desuniões entre estes moradores e pella utilidade do serviço de El Rey lhe faça mercê erigir a dita freguezia em Villa e receberam mercê. Joam Ferreira dos Santos/ Joam André de Matos/ Silvestre Marques da Cunha. Domingos Ferreira dos Santos. Joam de Oliveira. Miguel Rodrigues. Manoel Pinheiro. Domingos da Silva. Domingos Rocha Moreira. Domingos Ramalho de Brito/ Manoel da Silva de Moraes/ Diogo Alves Cardozo/ Jonio Frenandes Preto/ Gonçalo Mendes Cruz/ Manoel Martins Machado Gonsalo Lima Rego – A cuja pitiçam esta o despacho seguinte: vistas as razões alegadas pello suplicantes e as imformaçoens que dellas tirei concedo (o que me pedem) e par o dito Arrayal de Santo Antonio seja erijido em Villa co o nome de Sam Joseph e o Doutor ouvidor da Comarca do rio das Mortes ou que em seu lugar servir lhe lenvatara Pelourinho e dara posse forma de estylo começando o distrito da nova Villa da banda de ca do rio das Mortes. Villa do Carmo dezenove de janeiro de mil setecentos e dezoito annos e na forma do dito despacho mandou o dito ouvidor sentar Pelourinho em o largo e praça que faz no dito Arrayal abaixo da freguezia erigindo com elle Villa da qual deo logo parte aos moradores como também do seu termo e distrito começando este da banda deca do Rio das Mortes com cuja posse acertaram reconhecendo todos ser esta Villa de Sam Josph novamente ereta do Senhor Rey Dom Joam o quinto e seus sucesores a quem obedeceram como seu legitimo senhor e suas justiças e de como assim aseitaram a dita posse mandou o dito ouvidor fazer este auto de creaçam e posse que asignou com as pessoas que se acharam prezentes, e eu Luiz de Vasconcellos Pessoa Escrivam da Ouvidoria Geral e Correiçam que o escrevi”.
Antº Olivª Leitão/ Luiz vasconcellos Pessoa/ Antº Frz Preto/ Silvestre Marques da Cunha/ Manoel da Costa Souza/ Constantino Alz de Azevedo/ Manoel P da Costa/ Manoel GLZ Moinhos/ Francisco A Roza/ Pedro Stone de Souza/ Diogo Alvarez Cardozo/ Domingos Ramaho de Brito
“TERMO DA REPARTIÇAM DESTA DESTRITO DA VILLA”
“Aos tres dias do mes de Fevereiro deste prezente anno de mil setesentos e dezoito annos nesta villa de Sam Joseph nas casas da camara della estando prezente o ouvidor geral desta Comarqua com os officiais da camara della o juiz ordinario o Capitam Manoel Dias Araujo, o capitam Mor Manoel Carvalho Botelho também juiz, os veriadores o capitam Domingos Ramalho de Brito,Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo e por empedimento do procurador asestiu o Sargento Mor Silvestre Marques da Cunha que para isso pellos ditos officiais da camara foi chamado, e sendo ahy pellos ditos officiais da camara foi dito e Requerido ao dito ouvidor geral que em virtode do despacho da petiçam ao Senhor General lhe nomeace o termo que devia ter esta [villa ] a que visto pello dito ouvidor lhe nomeia por [ termo ] de diviza o Rio das mortes da Banda de ca entrando pello Ribeiram chamado Alves por ser a verdadeira madre do dito Rio das mortes e que os mais eram braços [ do tal ] Rio e que outro sim eram os moradores desta freguezia e estarem em posse...[ desde a primeira criaçam sogeitos a freguezia de Santo Antonio a ] chamavam Arrayal Velho e que asim os moradores da banda do dito rio para ca sejam sogeitos a esta villa, e nesta forma ouve o termo della por divizado e de como os ditos officiais asim o aseitaram e o dito ouvidor assim lho repartio fiz este termo a que asignaram, eu Luiz de Vasconvellos Pessoa Escrivam da Ouvidoria Geral e correicam que o escrevi."
Texto: Olinto Rodrigues dos Santos Filho*
José Veloso Xavier nasceu em outubro de 1741 na antiga vila de São José, atual cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. Era filho de José Veloso do Carmo, português de Braga, e Catarina de Jesus Xavier, natural da vila de São José. Era primo do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e do padre Antônio Rodrigues Dantas, autor da famosa Explicação da Sintaxe, publicada em Lisboa no ano de 1775 e várias vezes reeditada. Entrou para a ordem franciscana em 1761, onde adotou o nome de José Mariano da Conceição, e estudou no Convento de São Boaventura de Macacu, hoje em ruínas, no município de Itaboaraí (RJ).
Em sua vida religiosa, ordenado em 1766, logo em 68 foi nomeado pregador. Transferido depois para a aldeia indígena de São Paulo (São Miguel), desenvolveu trabalho de pregação e conversão dos gentios, tendo ainda regido as cadeiras de Geometria (1771) e Retórica (1779) do Convento da cidade de São Paulo.
Durante sua estada em São Paulo iniciou estudos da flora local com tanto interesse e competência que chegou aos ouvidos do Vice-Rei Luiz de Vasconcellos e Souza, que mandou vir Frei Veloso para o Rio. Sediado no Convento do Largo da Carioca, o Frei teve licença para fazer excursões científicas pelo Estado do Rio, coletando e classificando as plantas daquela região, sob os auspícios do Vice-Rei.
Ao fim de cerca de nove anos de trabalho Frei Veloso apresentou ao seu protetor a obra concluída, a Flora Fluminensis, com cerca de 1600 plantas classificadas e desenhadas por Frei Solano, no ano de 1790. por esta importante obra é hoje conhecido como “Pai da Botânica no Brasil”. Regressando D. Luiz para a Corte, leva Frei Veloso com sua obra e seus desenhos, que seriam enviados à Itália para abrir as chapas. Em Portugal, o sábio mineiro dedica-se de corpo e alma a uma importante empreitada de editar obras úteis à agricultura e indústria agrícola no Brasil, as quais denominou O Fazendeiro do Brasil.
Publicou dez volumes em editoras diversas de Lisboa, tendo posteriormente, ainda sob a égide de D. Luiz de Vasconcellos, fundado e dirigido a tipografia do Arco do Cego, localizada em uma quinta naquele bairro, onde juntou um grupo de jovens brasileiros ilustrados para traduzir e editar obras de interesse para sua pátria. Deste grupo contavam Nogueira da Gama, padre Viegas de Menezes, Antônio Carlos e Martim Francisco de Andrada e Silva, Hipólito José da Costa, José Feliciano Fernandes Pinheiro, Vicente Seabra Silva Teles, José Ferreira da Silva, João Manso Pereira, Manoel Arruda Câmara e Manoel Rodrigues da Costa.
O Arco do Cego foi responsável pela introdução da moderna tipografia em Portugal, tendo inclusive oficina de gravura com aprendizes e fundição de tipos em anexo. Um dos ilustres trabalhadores da editora foi o poeta Manoel Maria Barbosa Du Bocage. Extinta a tipografia do Arco do Cego, Veloso passa para a Imprensa Régia, até que as invasões napoleônicas o fazem retornar ao Brasil e desviam para a França as pranchas já prontas da Flora Fluminensis. Sua maior obra fica, então sem editar.
Após sua morte, ocorrida no Convento de Santo Antônio, no largo da Carioca, Rio de Janeiro, o Imperador D. Pedro I mandou editar em 1825 a Flora Fluminensis, impressa na Imprensa Régia e com litografias encomendadas em Paris. Os exemplares editados ficaram depositados na Academia de Belas Artes, onde foram quase totalmente destruídos pelos alunos daquela instituição. A coleção completa da Flora Fluminensis é hoje considerada uma raridade bibliográfica.
Quando se completam 200 anos do falecimento deste homem de excepcional espírito científico, a cidade de Tiradentes, que foi seu berço natal, através do Instituto Histórico Geográfico, o homenageia.
Exposição alusiva ao bicentenário de morte do Frei Veloso
... ... ...
Chancelaria da Comenda da Liberdade e Cidadania
Belo Horizonte - MG
Tiradentes, 14 de novembro de 2011.*
Prezado Senhor,
Venho por meio deste manifestar minha insatisfação e descaso com a Oficina de Teatro Entre & Vista, que há 20 anos representa a cidade de Tiradentes, em todos os eventos aqui promovidos.
Infelizmente, conforme convite que nos foi feito, comprovando-se com a Programação Oficial que consta no site oficial do evento, e, caso o convite não estivesse sido feito, ali não estaríamos, sentimo-nos humilhados perante ao público.
Eram cerca de cinqüenta Tiradentinos, dentre eles: todas as autoridades máximas deste município Prefeito, Vice-Prefeito, Presidente da Câmara, Vereadores, Pároco, agraciados e convidados que aguardavam ansiosos pela apresentação dos representantes de sua terra.
Em um primeiro momento, após a recepção hostil de uma senhora, que se dizia uma das responsáveis pela pauta, nos disse “....num é assim que funciona, num é chegar e apresentar, não... tem uma pauta... e não está na pauta”. Eu, Sr. Eros e o Sr Rafael (som) ficamos estarrecidos e tentamos contornar a desagradável situação.
Errar é humano. Persistir no erro é......extremamente desagradável. Fomos esquecidos durante todo o evento sob os olhares curiosos dos convidados e agraciados. Ficamos à mercê do sol escaldante e dos olhares ressabiados dos convidados que, no ano passado, por não ter havido as honras e pompas do corrente ano, foi um evento magnífico e bem focado: O Batizado do Herói.
Oficina de Teatro Entre & Vista, um bem cultural imaterial da cidade de Tiradentes abandonado próxima à cantina do evento e, onde, nem ao menos um salgadinho foi servido aos atores. É lamentável!
Indescritível também é o sentimento de frustração do Senhor Eros Miguel Conceição. Senhor de 72 anos. Sócio Fundador do IHGT (Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes), SAT (Sociedade Amigos de Tiradentes), CBVT (Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes), Coordenador da Oficina de teatro Entre & Vista, hoje, Ponto de Cultura Entre & Vista, responsável pelos projetos de restauração das Igrejas das Mercês, São Francisco e N. Sra. do Padre Gaspar, investimento de R$ 3,5 milhões oriundos do BNDES, passar por humilhante situação.
Este é o nosso sentimento. Sentimento de 15 pessoas que saíram de suas casas, no domingo, pela manhã, viajaram cerca de 25 km e foram esquecidas perante a um grupo seleto de autoridades, chancelers, intelectuais, artistas, dentre outros, e, até o presente momento, sem retratação alguma.
Sem mais para o momento, reitero meus protestos de estima e distinta consideração.
Cordialmente,
DIRETORIA
Oficina de Teatro Entre & Vista
*Carta publicada neste bl0g a pedido da diretoria da Oficina de Teatro Entre & Vista e também como afirmativa de repúdio dos sócios do IHGT com este acontecimento.
TIRADENTES NASCEU, OU NÃO NASCEU EM TIRADENTES?
PARA acabar de vez com essa conversa fiada que os guias ficam falando em Tiradentes, fiz aqui esse pequeno apanhado que ilustra bem essa relação de NASCIMENTO E PERTENCIMENTO.
Com a ascenção do Arraial velho de Santo Antonio do Rio das Mortes ( Chamado por alguns inclusive de Arraial velho da ponta do morro), a condição em 1718 a Vila de São José Del Rey, foi-se estabelecido os Termos, ou seja, o território debaixo da administração e pertencimento da então vila de são josé. Todas as Terras da banda de cá do Rio das mortes, ou seja, o lado direito,
Mas com a decadência do ouro e o aumento da população, muitos dos arraiais que pertenceram ao termo da Villa de São José foram se desmembrando ou passado para outros municípios. Assim, as primeiras vilas criadas no fim do século XVIII desmembradas de São José foram a Vila de São Bento do Tamanduá, em 20 de novembro de 1789; a Vila de Queluz, em 19 de setembro de 1790; e a Vila de Barbacena, em 14 de agosto de 1791, reduzindo o enorme termo da Vila de São José a menos de um quarto do que foi. Foi neste momento que a Câmara reclamou à Coroa em longa carta reiterada em 23 de outubro de 1802, onde diz que “nenhuma delas é calçada nem tem uma fonte, na de Queluz servem-se de uma água má que está daí há meia légua, nem há meios de outras. As igrejas umas estão por acabar, as outras não são das mais decentes. As casa de Câmara de todas ellas foram casas de homens particulares, que ainda estão por pagar, por isso o dono da de Barbacena alcançou licença de sua Majestade para citar a Câmara, e não há nelas quem queira exercitar os cargos públicos; pelo contrário a Vila de São José está bem situada, tem um belo chafariz de excelente água, muitas lavras e uma casa de Câmara bem decente, e além de sete igrejas, é considerada por um belo templo que todos conhecem pelo melhor, mais decente e rico de Minas que é a Matriz...”
E ao longo do século XIX vão se efetivando novos desmembramentos, como Oliveira em 1839 e Prados em 1890. Já no século XX, são desmembradas Resende Costa e Lagoa Dourada, em 1911, Barroso, em 1938 e, finalmente, o distrito de Santa Cruz de Minas em 21 de dezembro de 1995, reduzindo o território do município de Tiradentes a 80km quadrados. A Vila recebeu o título de cidade em 1860 pela Lei Provincial 1.092. Em 1881 o imperador Pedro II visitou a cidade e inaugurou a Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, cujo trem até hoje circula entre São João del Rei e Tiradentes. Em 6 de dezembro de 1889 teve a cidade o nome mudado de São José para Tiradentes, em homenagem ao seu filho mais ilustre, Joaquim José da Silva Xavier, por sugestão do jornalista Silva Jardim durante a campanha republicana.



Mapa do Município de Tiradentes de 1924, tudo que estava do lado direito do rio das mortes,
Inclusive a fazenda do pombal.
EM 1826, A CÂMARA INFORMA AO GOVERNO PROVINCIAL QUE A POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO ERA DE 23.933 HABITANTES, ENTRE BRANCOS, PARDOS E PRETOS DISTRIBUÍDOS ENTRE A SEDE DA VILA, O ARRAIAL DO CÓRREGO, O DISTRITO DE SÃO SEBASTIÃO (ONDE FICAVA A FAZENDA DO POMBAL), SANTA RITA, SÃO TIAGO, BOM SUCESSO, SANTO ANTÔNIO DO AMPARO, SANTANA DO JACARÉ, Bom Jesus da Cana Verde, Bom Jesus dos Perdões, Senhora da Oliveira, São Batista, Padre Gaspar, Bichinho, Arraial de Prados, Capela Nova do Livramento, Capela da Ressaca, Lagoa Dourada, Capela dos Olhos D’Água, Ressaca da Lagoa Dourada, Capela Nova do Desterro, Arraial de Passatempo, Arraial do Japão, Arraial da Lage e Arraial do Cláudio. Os distritos mais populosos eram Oliveira, atual cidade do mesmo nome, com 2.079 habitantes; e Cláudio, atual cidade do mesmo nome, com 2.055 habitantes; enquanto a cidade da Vila contava com apenas 1.193 almas.
FREI VELOSO, HOMENAGEADO NA PORTA DO BOSQUE MÃO D’AGUA, PRIMO DE TIRADENTES
Uma das personalidades de destaque foi o Padre Mestre Frei José Mariano da Conceição Veloso, nascido em 1741. Era filho de José Veloso do Carmo e Rita de Jesus Xavier, primo de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, por parte de mãe e que, naqueles tempos, ensinou muito de botânica para o Joaquim José, o que foi de extensa valia para o mesmo quando esse atuou como dentista prático e médico devido aos conhecimentos de plantas medicinais e úteis para cuidados com a saúde. Talvez o JJ não tivesse se tornado um dentista prático e recebido mais tarde o nome TIRADENTES, se não fosse pela influência do seu primo, o padre Veloso, o qual ingressou na ordem franciscana onde fez carreira como professor, orador e botânico, tendo escrito a obra “Flora Fluminense”, pioneira no Brasil no ramo da botânica. Em Portugal, Frei Veloso montou e dirigiu a Tipografia do Arco do Cego, onde editou a coleção “Fazendeiro do Brasil”, com obras dedicadas a contribuir com a agricultura na colônia, além de muitas obras de grande importância para a época. Morreu em 1811, no Rio de Janeiro
O AVÔ DO TIRADENTES FOI O TESOUREIRO DA ENTÃO CRIADA VILA DE SÃO JOSÉ, EM 1718, O QUE PROVA A RELAÇÃO DA SUA FAMÍLIA DIRETAMENTE COM A CIDADE DE TIRADENTES
Após a ordem de Conde se Assumar, quem veio instalar a Vila foi juiz ordinário, Antônio de Oliveira Leitão, por estar adoentado o ouvidor da Comarca, Dr. Valério da Costa Gouveia. No ato de instalação da vila assentou-se o pelourinho “num largo e praça que faz no dito arraial abaixo da freguesia, erigindo nele Vila, da qual deu logo parte os moradores como também seu termo e distrito começando este da banda de cá do Rio das Mortes...” Fica portanto claro que o pelourinho foi instalado no Largo abaixo da Matriz, onde posteriormente se construiu a Câmara, passando a ser conhecido como Largo do Pelourinho ou Largo da Câmara. A Câmara tratou logo de se instalar em uma casa alugada para os concelhos e faz sua primeira eleição da mesa em 30 de janeiro de 1718.

Largo onde se instalou o Pelourinho em 19 de janeiro de 1718. David Nascimento
Na ata de instalação da Vila assina além do Juiz Ordinário Antônio de Oliveira Leitão e do escrivão Luiz de Vasconcellos Pessoa os seguintes cidadãos: Manoel Marques da Cunha, Manoel da Costa Souza, Antônio Fernandes Pretto, Constantino Alves de Azevedo, Silvestre Marques da Cunha, Manoel Gonçalves Montes, Francisco da Rosa, Pedro Stone de Souza, Domingos Ramalho de Brito, Diogo Alves Cardoso e Manoel Pereira da Costa.
Abrindo o pelouro da primeira eleição, realizada no dia 30, constante na ata de abertura do Pelouro “deste anno de mil setecentos e dezoito” foram eleitos Juízes o Capitão-Mor Manoel Carvalho Botelho e o Capitão Manoel Dias de Araújo; vereadores o Capitão Domingos Ramalho de Brito, Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo, Procurador Gonçalo Mendes da Cruz, Tesoureiro Domingos Xavier Fernandes.


Auto de abertura do Pelouro (eleição da Primeira Câmara de Tiradentes), 30 de janeiro de 1718

Detalhe da Assinatura de Domingos Xavier Fernandes,
avó materno de Tiradentes, como primeiro tesoureiro da Câmara de São José.
É curioso notar que dos eleitos apenas Gonçalo Mendes da Cruz e Domingos Ramalho de Brito assinaram a petição de criação da Vila. Também é mister lembrar que o primeiro tesoureiro da Câmara foi Domingos Xavier Fernandes, pai de Antônia da Encarnação Xavier E AVÔ DE JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER, O TIRADENTES.
QUAL A IMPORTANCIA DO CONDE DE ASSUMAR PARA A CIDADE DE TIRADENTES?
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QUEM FOI O CONDE?
Quem foi o Conde de Assumar
Retrato do Conde Assumar, acervo da família Almeida e Portugal
Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcellos nasceu em 17 de outubro de 1688 e faleceu em 10 de novembro de 1756, aos 68 anos de idade Foi o terceiro Conde de Assumar, o primeiro Marquês e Castelo Novo e primeiro Marquês de Alorna, título que herdou após a morte do pai em 1733. Era de família antiga e nobre no reino de Portugal. Desde novo, teve rígida formação militar e serviu nas guerras peninsulares, tendo sido casado com Maria José de Lancaster (1715). O conde era originário da freguesia de Monforte, comarca e distrito de Portalegre. Veio para o Brasil governar a Capitania de São Paulo e Minas por nomeação de Dom João V em 1717. Tomou posse em São Paulo e seguiu viagem até a Vila do Carmo, atual Mariana, onde instalou o governo, pondo ordem no território conturbado das Minas.
DETALHE CURIOSO SOBRE O CONDE DE ASSUMAR E O SANTUÁRIO DE APARECIDA
Durante a sua viagem, o Conde de Assumar parou em Guaratinguetá, onde foi recepcionado pela Câmara, quando houve o episódio do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida no Rio Paraíba, tornando-se, depois, a padroeira do Brasil.
Criou as casas de fundição do ouro e a Companhia de Dragões.
Enfrentou revoltas e desmandos dos mineradores e sufocou a revolta de 1720, de Pascoal da Silva, condenando Felipe dos Santos à morte e mandando incendiar as casas de quem não saísse do Morro de Pascoal da Silva, hoje Morro da Queimada, em Vila Rica. Em 1721, deixou o governo de Minas e voltou para Portugal. Em 1744, foi nomeado governador das Índias, cargo que exerceu até 1754, voltando depois à Lisboa, onde O ENTÃO CONDE DE ASSUMAR veio falecer.
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A IMPORTANCIA DO CONDE DE ASSUMAR PARA TIRADENTES:
APÓS A ORDEM DE CONDE SE ASSUMAR(O conde era originário da freguesia de Monforte, comarca e distrito de Portalegre. Veio para o Brasil governar a Capitania de São Paulo e Minas por nomeação de Dom João V em 1717), QUEM VEIO INSTALAR A VILA FOI JUIZ ORDINÁRIO, ANTÔNIO DE OLIVEIRA LEITÃO, por estar adoentado o ouvidor da Comarca, Dr. Valério da Costa Gouveia. No ato de instalação da vila assentou-se o pelourinho “num largo e praça que faz no dito arraial abaixo da freguesia, erigindo nele Vila, da qual deu logo parte os moradores como também seu termo e distrito começando este da banda de cá do Rio das Mortes...” Fica portanto claro que o pelourinho foi instalado no Largo abaixo da Matriz, onde posteriormente se construiu a Câmara, passando a ser conhecido como Largo do Pelourinho ou Largo da Câmara. A Câmara tratou logo de se instalar em uma casa alugada para os concelhos e faz sua primeira eleição da mesa em 30 de janeiro de 1718.
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O CONDE DE ASSUMAR VEIO MESMO A TIRADENTES, OU QUERO DIZER, VILA DE SÃO JOSÉ?
SIM!!!! O GOVERNADOR VEIO PARA DIRIMIR DUVIDAS SOBRE A INSTALAÇÃO DA VILA E RESOLVER SEU MAIOR INTERESSE: COBRANÇA DESCOMPLICADA DE IMPOSTOS.
Houve várias reclamações dos oficiais da Câmara da Vila de São João não só quanto a criação da Vila, mas quanto aos limites e termo da Vila de São Jose que quiseram reduzir a meia légua em quadra, o que evidentemente não foi obedecido. Em 1719 O CONDE DE ASSUMAR VEM PESSOALMENTE À VILA DE S. JOSÉ, QUANDO REAFIRMA SER O LIMITE ENTRE AS VILAS O RIO DAS MORTES, FICANDO A PARTE NORTE TERMO DE S. JOSÉ E A PARTE SUL O TERMO DE S. JOÃO DEL REI.
Herculano Veloso transcreve em sua obra uma atestação do vereador mais novo Constantino Alves de Azevedo, datada de 19 de fevereiro de 1753, em que diz que a divisa era o Rio das Mortes.
Matriz de Santo Antônio - Uma Visão Atual
Um antigo dito popular da cidade de Tiradentes, no século XIX, referia-se às três coisas mais importantes da cidade: A Matriz, O Chafariz e o Comendador Assis.
Daí vê-se a importância conferida pela população a esta velha igreja, reconhecida como uma das mais belas e ricas de Minas Gerais.
Construída em taipa, em substituição á antiga capela de madeira, teve início em 1710, quando também se oficializou a Paróquia e se criou a Irmandade do Santíssimo Sacramento responsável pela empreitada da construção.
Entre a construção propriamente dita e a decoração transcorreram-se cerca de 40 anos. A igreja na sua imponência arquitetônica guarda um conjunto de talha do período barroco D. João representado pelos sete retábulos, coro, púlpitos, molduras dos óculos, sobreportas e as paredes da capela-mor com duas grandes telas representando a Santa Ceia e as Bodas de Caná. Grande parte desta decoração deve-se às oficinas dos entalhadores João Ferreira Sampaio e Pedro Monteiro de Souza, este natural da cidade de Braga. Completa os equipamentos religiosos um belo órgão fabricado em Portugal, instalado em caixa entalhada por Salvador de Oliveira e pintado por Manoel Victor de Jesus.
A riqueza da Matriz de Santo Antônio não se restringe a nave e capela mor mas estende-se aos cômodos laterais onde funcionavam as duas sacristias e consistórios das Irmandade sediadas no templo, decoradas com talhas e pinturas de gosto rococó. Ainda deve-se citar o mobiliário de época, a rica prataria e imaginária do templo.
Cem anos após o começo da obra foi refeito o frontispício, numa tentativa de “modernizar” o seu aspecto externo arcaico, tendo sido para isso encomendado um projeto ao Aleijadinho. É nesta época que é feita a portada de pedra sabão e as escadarias do adro em patamares com gradis de pedra. Foi nesta igreja que se casaram os pais do Tiradentes em 1738, onde também foram batizados Frei Veloso (1741) e José Basílio da Gama (1742).
A presente exposição comemora o terceiro centenário de inicio da obra e é constituída pela visão atual dos artistas que nasceram ou vivem em Tiradentes, sendo portanto diversas leituras sobre o mesmo tema. O Instituto Histórico e Geográfico agradece a todos os participantes do evento.
Olinto Rodrigues dos Santos Filho
ARTISTAS PARTICIPANTES:
Airton Ribeiro; Alderico Nascimento; Angela Nunes; Antônio Henrique Rohrmann; Beth Calvalcanti; Celestino; David Smyth; Deborah Engelender; Demóstenes Vargas Filho; Elvis Dias; Expedito Divino; Fátima Moura; Humberto Malaquias; João Batista Canto; Laura Perrella; Lyria Palombino; Luigi Frumenti; Luiz Cruz; Maria José Boaventura; Oliver; Riback; Robert Ballantyne; Ruth PerrellaTony de Castro; Vinícius Rosa Rios; Victor Reynaga.
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Exposição: Matriz de Santo Antônio
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O que passou talvez não se deixe passar pelos sentimentos de seus pares. Muitos dos que aqui estão foram seus acadêmicos, outros tantos, seus colegas na construção do saber coletivo e para outros tantos amigos, família.
De nossa parte. Aprendemos a ver em seu silêncio em sua serenidade a concordância ou o seu contrário quando de reuniões polêmicas que nossos pares aqui nesta sala votaram as posições enquanto grupo.
Como uma flecha, objetiva e coerente, expunha seu ponto de vista. Sempre em tom conciliador se permitia ao debate construtivo.
Das mais novas destes tempos como confreira do IHGT, mas nem por isso menos atuante. Assumiu para si diversas responsabilidades e caminhava para ver concretizado com o cimento de suas mãos grandes obras em nossa Tiradentes. Nossa secretária, integrante do grupo de trabalho dos projetos do BNDES que num porvir transformará nossa cidade.
É certo que seus familiares perderam uma esposa, uma mãe, uma avó. Mas sem egoísmo, também entendem que todos perderam a amiga, a colega, a professora.
Todos perdem com sua morte prematura. Todos. Mas como dizia já Séneca, “Os progressos obtidos por meio do ensino são lentos; já os obtidos por meio de exemplos são mais imediatos e eficazes”. Por certo sua vida é um exemplo a ser seguido, quer seja em família, quer seja como professora, que seja como cidadã e cabe a nós te-la como referência, não por que partiu, mas por que viveu uma vida exemplar e isso é o certo.
Tiradentes, 19 de janeiro de 11. Reunião solene do IHGT. (Carlos A Caprioglio, lido por Rogério Almeida)
Breve História do Maestro Fernand Jouteux
Senhor e senhora Jouteaux e a pequena Stelle, Pernambuco, década de 30.
Muitos foram os europeus que, durante o século XIX, deixaram sua civilização multissecular para se embrenhar pelas terras exóticas da América do Sul, principalmente do Brasil tropical. Parece que com esse espírito aventureiro, à procura dos grandes rios e das incultas florestas, povoadas ainda por culturas rudimentares, o compositor francês Fernand Jouteux aportou nas terras brasileiras, deixando a Paris da “belle époque” por uma vida de riscos e surpresas.
Eugène-Maurice Férnand Jouteux, nascido na cidade de Chinon, Indre-et-Loire, em 11 de janeiro de 1866, filho de um advogado de Chinon, faz seus primeiros estudos no liceu local e, em 1884, ingressa no curso de composição do famoso Conservatório de Paris, onde toma aula com o consagrado Jules Massenet.
Jouteux nasceu numa cidade privilegiada pela história. Ali Joana D’Arc, a virgem de Orleans, foi convencer o rei Carlos VII de sua missão divina na Guerra dos Cem anos.Também nasceu ali o cavaleiro Charles des Vaux, um dos fundadores da cidade de São Luís do Maranhão, em 1612.
Após abrir mão do sucesso na velha França – Massenet havia escrito que não tinha nada mais a ensinar-lhe quando saiu do Conservatório –, Jouteux embarca para o Brasil no ano de 1894, renunciando também a um prêmio em Roma.
No Brasil,percorre todo o Nordeste. Do sertão olonialse vai até o Amazonas em busca da floresta e dos índios. Fascinado pelo país, adquire em Garanhuns, Pernambuco, um sítio avarandado a que dá o nome de “Belle Alliance”,onde compõe grande parte de suas obras.Em 1899, encontramo-lo novamente na França, para o casamento com Madalena Ana.
Adolfina Maria Aubry, filha de Florentin Aubry, cavaleiro da Legião de Honra, então com 20 anos, sua ex-aluna de piano. O casamento é realizado em 10 de abril na cidade de Tours. Consta no contrato de matrimônio a propriedade “Belle Aliance”, no Brasil.
Antes de vir para o Brasil, o maestro Jouteux fez várias apresentações de suas peças no França, principalmente na cidade de Tours. A mais importante parece ter sido a estreia do oratório de São Martinho de Tours, “Bellator Domini”, na catedral de Tours, em 1897, e em Bourdeaux, em 1902, segundo o autor, com orquestra e coro de 400 músicos. Em 27 de maio de 1924, este oratório é novamente executado em Paris, na “Salle Gaveau”, com 250 executantes, sob o patrocínio da “União das Mulheres Artistas da Música” (Union dês Femmes Artistes Musiciènnes).
Em 1910, vamos encontrar o maestro dirigindo a escola municipal de música de Oran, na Argélia, onde parece ter ficado pouco tempo, tendo retornado ao Brasil logo a seguir. Em Oran, fez executar várias de suas obras na escola de música.
Entre as muitas peças que compôs no Brasil, Fernand Jouteux deixou uma coleção de doze “Cantos Brasileiros”, premiada com uma medalha no salão dos Músicos de Paris, em 1922. Alguns destes cantos têm nomes curiosos como “Meu amor não sabe ler”, “Amor Sertanejo”, “Invocação a Rudá”, “A Mulata”. Outros têm letra em português, tupi-guarani e francês.
Em 1929, Jouteux está em São Luís do Maranhão, onde a imprensa noticia concertos com música de sua autoria. Logo no ano seguinte, já vamos localizá-lo em Itabuna, na Bahia, conforme registra a imprensa local. Anteriormente, em 1927, Jouteux tinha feito parte do Júri do concurso de composição do Instituto Nacional de Música e parece que, nesta ocasião, teria angariado inimizade entre os músicos cariocas por motivos por nós não identificados. É curioso notar que, em quase todas as notas que ele plantava na imprensa, citava-se sempre um escrito de France Darget, publicado na imprensa parisiense, no começo da década de 20.
Jouteaux e Frederico Wyss, Maranhão, 192
É ainda em 1929 que o compositor percorre um dos trechos mais curiosos de sua vida:Uma turnê Maranhão/São Paulo e que se estende até Porto alegre, em companhia do barítono suíço Rudolf Wyss. Essa viagem tem como objetivo levantar fundos para a montagem de sua ópera “O Sertão” e, para isto, ele leva um “livro de Ouro”, ou de subscrições,que apresenta a todos os prefeitos e autoridades que encontra pelo caminho. Entre as muitas cidades em que fez executar sua música citamos São Luis (MA), Garanhuns, Pesqueira, Recife, Camaru, Caruaru, Goiana (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN), Teresina (PI), Fortaleza, Viçosa, Granja, Sobral (CE), Maceió, Penedo (AL), Salvador (BA), Cachoeiro do Itapemirim (ES), Rio de Janeiro, Niterói (RJ), Belo Horizonte, Mariana, Ponte Nova, Passagem de Mariana, Viçosa, Ouro Preto, Itabirito, Conselheiro Lafaiete, Barbacena, São João del Rei, Juiz de Fora, Tiradentes (MG).
Em Tiradentes o concerto foi realizado no dia 7 de outubro de1934, no salão nobre do Fórum, com a concorrência de elementos da Orquestra e Banda Ramalho. Do programa consta a marcha nupcial, o “Canto da Cotia”, a Marcha Heroica, Sarabanda dos Punhais e um arranjo de “Le Soir”, de Gounod. Em 1938, vamos olonial-lo de novo em Tiradentes,como consta de um “salvo conduto” expedido pela delegacia de polícia da cidade para o maestro viajar a Belo Horizonte.
No ano de 1940, parece que Jouteux morou em Sabará, como informa uma reportagem da “Revista Ilustrada”, mas ele logo vai estar de volta a Tiradentes, indo viver primeiro em uma casa na Rua Direita, onde hoje foi implantado o Centro Cultural Yves Alves. Depois, transfere-se para a pequena oficina de ourives construída em 1921, por Galdino Rocha, e, àquela altura, propriedade do maestro Joaquim Ramalho, também na Rua Direita.
Primeira casa onde morou o maestro Jouteux, década de 40.
Casa em que morou o maestro Jouteux e onde faleceu sua esposa, década de 50.
De sua família poucas notícias temos. Por uma carta France Darget, datada de 1945, sabe-se que o casal Jouteux havia adotado uma menina. Deve ser a criança que aparece na foto junto com Madeleine.Temos vagas notícias de que esta criança morreu prematuramente. Em carta de Pierre Aubry, irmão de Madeleine, também do ano de 45, ele comunica a morte da mãe, ocorrida dois anos antes, e diz que ela havia deixado uma mobília de quarto com roupas de cama, uma pêndua e broche de ouro e apólices no valor de 21.186 francos, em poder do tabelião de Alençon. Comenta ainda a morte de outros parentes e amigos. Possivelmente, a sra. Jouteux nunca recebeu essa herança, pois veio a morrer em 1952, na mais profunda miséria, sendo enterrada no cemitério da matriz de Tiradentes. Quando de sua morte é que se soube que eles não tinham sequer cama, dormiam sobre papelões forrados com jornais.
Parece que a ópera de Jouteux foi composta entre 1912 e 1925, ainda na fazenda “Belle Alliance”, em Garanhuns (PE), e teve o título inicial de “Antônio, o filho do homem”, depois mudado para “Canudos” e, finamente, para “O Sertão”, bem próximo do nome do livro de Euclides da Cunha, “Os Sertões”. Trata-se de uma peça em quatro atos, com libreto escrito pelo próprio compositor, em francês e, posteriormente, traduzido para português por Celso Brant, que veio a ser o presidente da comissão de montagem da ópera, em 1954. A história de Antônio Conselheiro é transformada em um drama amoroso e romântico. Incluem-se na peça danças de cunho folclórico, como a “Dança dos Cairus”, o “Cateretê” e “Baiano”.
Original do libreto da Ópera e versão em português editada em 1955.
Depois de anos de tentativas infrutíferas no Rio e em Minas, foi formada uma comissão para a montagem em Belo Horizonte, contando como apoio do governador Juscelino Kubitschek. A estreia deu-se no dia 29 de novembro de 1954, no teatro Francisco Nunes, sendo regida pelo maestro Hostílio Soares, executado pela orquestra da Polícia Militar de Minas Gerais. A pianista Corina Tompa atuou como maestrina auxiliar. Nos papéis principais estavam a soprano Lia Salgado, que se tornou, então, primeira dama do Estado,com a ascensão do vice, Clóvis Salgado, seu marido, e o barítono Edson Macedo. O coro era composto por 50 vozes preparadas por Walter Ribeiro Cardoso. À época da estreia, o autor contava com quase 89 anos. Mais duas récitas foram feitas, sendo a de 22 de março de 1955, no Cine Teatro Brasil, em homenagem a Juscelino Kubitschek. É curioso notar que a atriz Lady Francisco fez parte do corpo de baile.
Após a montagem ópera, Fernand Jouteux permaneceu em Belo Horizonte, vivendo em casa de Corina Tompa. Vindo a falecer em 1956, foi enterrado no cemitério do Bonfim,em túmulo adquirido por Edson Macedo,segundo informações que me prestou Corina Tompa. Seus poucos pertences foram colocados em uma mala e dois caixotes e guardados pelo maestro Joaquim Ramalho, proprietário da casa em que vivia em Tiradentes,ficando à espera de quem os reclamasse. Não apareceu nenhum herdeiro, permanecendo o material depositado no porão do sobrado,sob enorme monte de madeira.
partitura de fragmento da Ópera O Sertão, década de 1930.
Quando, em 1986, retiramos a madeira para restaurar o porão e lá instalar atividades culturais, encontramos a mala pregada e dois caixotes contendo partituras, documentos pessoais, cartas, objetos diversos, recortes de jornais e o original do libreto da ópera. Não estavam no acervo as partituras da ópera que, ao que consta,teriam ficado com Edson Macedo, em Belo Horizonte, segundo esclarecimento da pianista Corina Tompa.
Olinto Rodrigues dos Santos Filho.
Ofício encaminhado pelo IHGT ao governador Antônio Anastasia
Exmo Sr,
DR. ANTÔNIO AUGUSTO JUNHO ANASTASIA
D.D. Governador do Estado de Minas Gerais
OFÍCIO: 013/2012
ASSUNTO: COMODATO IEPHA/MG E PREFEITURA MUNICIPAL DE TIRADENTES – SOBRADO QUATRO CANTOS
Tiradentes, 07 de dezembro de 2012.
Excelentíssimo Senhor Governador,
O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes CNPJ: 20.421.228/0001-62, instituição que tem como preocupação a preservação da memória histórico-cultural da cidade de Tiradentes e região do Rio das Mortes, vem por meio deste, solicitar à V. Exª a intervenção do Governo do Estado no que se refere ao comodato entre o IEPHA e a Prefeitura Municipal de Tiradentes, que tem como objeto o Sobrado dos Quatro Cantos, sito à Rua Direita, nº 5, nesta cidade, onde, atualmente, estão acomodados o Arquivo Público Municipal e a Biblioteca Pública Municipal Tomás Antônio Gonzaga.
O Sobrado Quatro Cantos, como é de conhecimento de V. Exª, foi desapropriado pelo IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico). Somando-se a esta louvável iniciativa, o IEPHA promoveu e realizou todo o processo de restauração do prédio.
A qualidade técnica e seriedade que permearam esta iniciativa podem ser traduzidas na revitalização do prédio que compõe “Os Quatro Cantos”, acomodando um vasto acervo de cultura, memória e cidadania em suas riquezas, formas e conteúdos, pouco conhecidos e até mesmo desconhecidos pela população. Acrescente-se a isto que a utilização cultural e comunitária do prédio o qual, também, propiciou o surgimento de debates que trazem à tona desafios e complexidades que vem sendo enfrentados pela comunidade durante esses anos.
O Comodato foi firmado para cinco anos e, atualmente, se encontra vencido pois, inexplicavelmente, não foi renovado. Sabemos de uma possível solicitação desse imóvel por parte do IEPHA, para transferi-lo à UFMG. Esta ação implicaria no desalojamento da biblioteca e arquivo municipais, que não têm outro local para serem acomodados.
Indignados com tal atitude, informamos que a Biblioteca foi criada no fim do século XIX, em 1898, por Herculano Veloso, então Presidente da Câmara e Agente Executivo. Ela foi transferida ao longo dos anos para inúmeros espaços, a maioria totalmente inadequados até chegar ao Sobrado Quatro Cantos, atual Centro de Cultura, Memória e Cidadania. Com as constantes mudanças muitos livros se perderam, foram roubados ou, simplesmente, foram destruídos pela chuva.
Já o Arquivo Público Municipal, criado por Lei há cerca de oito anos, é composto por documentos do arquivo histórico do Senado da Câmara da antiga Vila de São José, pela documentação da época da Intendência e os documentos produzidos pela prefeitura desde 1930, incluindo o arquivo permanente e o arquivo intermediário. Este último é composto por papeis que ainda conservam parte de seu uso administrativo, sendo bastante consultado por funcionários da prefeitura, no desempenho de suas funções. Portanto, seria desnecessário destacar sua importância não só para a história local mas para todo o contexto de Minas e do Brasil.
O Sobrado também abriga, em caráter temporário, Escritório Técnico do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Projeto Tiradentes Case, com o qual, conforme é de vossa ciência, o Governo do Estado de Minas Gerais tem trabalhado para tornar possível uma série de investimentos em nossa cidade (obras de restauração do calçamento do Centro Histórico, iluminação de monumentos e becos e projeto para aquisição de um caminhão para o corpo de bombeiros que atenda a cidade de Tiradentes e região. O Sobrado também abriga, em caráter temporário, Escritório Técnico do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Projeto Tiradentes Case, com o qual, conforme é de vossa ciência, o Governo do Estado de Minas Gerais tem trabalhado para tornar possível uma série de investimentos em nossa cidade (obras de restauração do calçamento do Centro Histórico, iluminação de monumentos e becos e projeto para aquisição de um caminhão para o corpo de bombeiros que atenda a cidade de Tiradentes e região).
No local também estão expostos em caráter permanente os seguintes acervos: “Galeria dos ex-prefeitos”; “Moradores e seus ofícios” e “Série de poemas”. Além, bem como, funcionam os diversos Conselhos Municipais, hoje temporariamente suspensos.
Acreditamos que a renovação do Comodato com a Prefeitura ou outra Entidade afim, como o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, é de suma importância tanto para a manutenção da atual acomodação da Biblioteca e Arquivo Municipais como para a manutenção das outras finalidades do Centro de Cultura Memória e Cidadania, lá instalado. Por outro lado, salientamos que a possível pretendente ao espaço, UFMG, possui na cidade, através da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, outros quatro prédios, dentre os quais o Antigo Fórum, que está parcialmente sem uso e que, em nossa opinião poderia servir perfeitamente aos propósitos daquela instituição. Não haveria, portanto a necessidade de desalojar uma biblioteca e arquivos históricos, colocando-os à mercê da destruição iminente, para atender à solicitação da referida Universidade.
Finalizando, salientamos que diante do trabalho preservacionista que permanentemente procuramos realizar e diante da costumeira atenção que V. Exª dedica às questões que permeiam o resgate de nossa identidade e memória, não esperamos outra atitude de V. Exª. Que não seja a defesa de nossos interesses culturais, aqui formalizados como pedido e apelo ao bom senso de todas as partes interessadas. Nossa confiança em buscar sua intervenção fundamenta-se na certeza de que as parcerias entre o poder público e a sociedade são indispensáveis à condução dos interesses públicos, que devem sempre sobrepujar os particulares. Nesta parceria, o diálogo é peça fundamental, razão pela qual confiamos no Estado de Minas Gerais como bom interlocutor.
Temos convicção de que V. Exa não permitirá o despejo de nosso Arquivo e Biblioteca Municipais e, na certeza da aquiescência de V. Exª, aguardamos resposta oficial e reiteramos nossos protestos de estima e distinta consideração.
Atenciosamente,
Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes
A difícil relação de uma cidade com sua memória histórico-cultural
Tiradentes é mesmo um lugar engraçado, para não dizer esquisito. Dizem que tem praga de padre, e que por isso nada vai adiante. Lendas a parte, o fato e que por aqui os projetos se desvirtuam no meio do caminho e os interesses pessoais acabam prevalecendo sobre os coletivos. Por outro lado, a população, de modo geral, não se importa muito com as coisas do lugar. Espera viver das benesses de candidatos que de quatro em quatro anos estampam suas figuras sorridentes em santinhos, com a tradicional promessa de “saúde e educação”. Nessas ocasiões, a cultura raramente é lembrada, a não ser se estiver atrelada ao turismo, que é o carro chefe da economia local e a bandeira predileta de todos. Com a história do município, então, a coisa é muito pior. Não há e nunca houve uma política de preservação dos arquivos da cidade que são invariavelmente destruídos pela ignorância ou pelo descaso, ou são transferidos para outros locais, como é o caso do arquivo histórico paroquial, hoje localizado em São João Del-Rei.
Atualmente está para ocorrer algo que, provavelmente, não será do interesse da maioria da população tiradentina, mas que certamente terá reflexos importantes no futuro, porque a história não tolera a desfeita e um povo sem memória perderá irremediavelmente sua identidade.
A história e cultura do nosso município, não entendida, obviamente, apenas como manifestações culturais programadas para turista ver em magníficos eventos de massa, estão sintetizadas, dentre outros, em dois núcleos de suma importância, que são a biblioteca e o arquivo público municipais.
É incrível que uma cidade de trezentos anos ainda não tenha encontrado um espaço exclusivo para guardar e preservar sua memória, para estimular sua cultura. O resultado disso é que os acervos tanto da biblioteca como do arquivo, vivem mudando de casa em casa e agora, já que ainda não foi renovado o comodato do sobrado dos Quatro Cantos com o IEPHA, corre o risco de ter que mudar mais uma vez. Comenta-se pela esquinas que o prédio poderá ser cedido à UFMG... E agora? Para onde irão biblioteca e arquivo? Será esta uma preocupação de nossas autoridades e do nosso povo?
A história vem se repetindo com sérios prejuízos para a preservação dos livros e documentos. Muda-se o acervo daqui para lá, como um estorvo a ser enxotado. Encontra-se um lugarzinho qualquer. Reúnem-se pessoas de boa vontade para organizá-los pela enésima vez, até que o ciclo se reinicie. Tal como Sísifos, condenados a empurrar uma pedra morro acima eternamente, essas pessoas ainda resistem heroicamente. Até quando?
Para entender melhor essa difícil relação de uma cidade com sua memória cultural, essa fuga da realidade, essa negação do passado, é necessário fazermos uma regressão, quem sabe a psicanálise não possa nos ajudar a lidar com essa nossa esquizofrenia coletiva. Com esse intuito, segue-se breve histórico das andanças do nosso acervo histórico-cultural:
Biblioteca Pública Municipal
No fim do século XIX, em 1898, Herculano Veloso, então presidente da Câmara e agente executivo, cria uma biblioteca pública, numa das salas da Câmara. Com base nesse acervo, em 1955, o Prefeito, Dr. Augusto Baena Cruz e Paiva, cria por lei a Biblioteca Thomás Antônio Gonzaga, para a qual doou parte de sua biblioteca particular. A biblioteca funcionava numa das salas da Casa do Pe. Toledo, então utilizada como Prefeitura e Câmara Municipal. Em 1961 ocorre o primeiro golpe contra a biblioteca, com a mudança da Prefeitura para a Rua Resende Costa, nº 7. Na mudança da biblioteca não se sabe o que foi feito com a maioria dos livros.
Por volta de 1971, o prefeito Francisco Barbosa Júnior cria, novamente, a biblioteca pública municipal, no prédio da Prefeitura. Para aumentar o acervo estabeleceu um sistema de sócios que doavam dinheiro para a compra de livros. Três anos depois, em 1974, com a obra de restauração do prédio da Prefeitura pelo IPHAN, a biblioteca foi depositada no térreo do sobrado da Nadir, Rua Direita, toda desorganizada.
Terminada a restauração, a biblioteca voltou para a Prefeitura novamente organizada e com a compra anual de livros entre 1976 e 1982.
Entre os anos de 1985 e 1986 a biblioteca foi desalojada de sua sala para dar lugar ao Departamento Municipal de Turismo. Desde então a peregrinação prossegue, com sérios danos para o acervo. Já passou pelos seguintes locais: salão do Grêmio, no Largo das Forras; casa do Conselho Particular de Santo Antônio, no Pacu; antigo posto de saúde de São Vicente de Paula, Rua Resende Costa; casa da Ernestina, por empréstimo de John Parsons; Escola Marília de Dirceu; garagem do Museu Pe. Toledo; quadra poliesportiva e Sobrado dos Quatro Cantos, onde está atualmente.
Com as andanças, muitos livros se perderam, foram roubados ou, simplesmente, foram destruídos pela chuva. Para ilustrar, citemos o livro “Minas Gerais em 1925” obra rara e valiosa, atualmente desaparecida, e remanescente da doação do Dr. Augusto Baena.
Arquivo Municipal
O atual arquivo municipal inclui o que restou do arquivo histórico do Senado da Câmara da antiga Vila de São José. No fim do século XIX ou começo do XX, Herculano Veloso organizou o arquivo em 146 maços contendo códices e documentos avulsos dos quais nos restou apenas a listagem com sua letra. Um documento importante do arquivo da antiga Câmara que resistiu foi o “primeiro livro de acórdãos da Câmara”, que se salvou por mero acaso, por não estar no arquivo. Foi localizado em Belo Horizonte e depois transferido para o IHGT e nele reincorporadas as duas primeiras páginas, que contem o auto de Criação da Viação da Vila, que estava na prefeitura de Cataguases.
Uma teoria, não comprovada, para explicar a destruição do arquivo antigo é que o primeiro prefeito municipal Jose de Freitas, nomeado em 1930 com a criação da Prefeitura, teria mandado incinerar grande parte dos códices antigos, quase todos do século XVIII. Mas há referência a esses documentos em um discurso do prefeito Evandro Mendes Viana, em 1933, o que deixa dúvidas quanto à destruição de 1931.
Originalmente, a documentação ficava no prédio da Câmara, que funcionou também como Fórum, no final do século XIX. Em 1848, quando foi extinto o município, o arquivo foi levado para São João del Rei e devolvido com a recuperação da autonomia, em 1849. Ressalvada esta interrupção, o arquivo permaneceu no prédio da Câmara ate 1918, quando foi para a Casa do Pe. Toledo, então sede da Prefeitura e Câmara, e lá permaneceu até 1960.
Com a mudança da Prefeitura para a sede atual, na Rua Resende Costa, em 1960/1961, os documentos foram colocados no sótão ou espalhados por armários e almoxarifado. Em meados dos anos de 1970, o prédio da Prefeitura entrou em obras e os documentos foram levados para a Sede do Aimorés Futebol Clube, onde, provisoriamente, funcionou a sede do Executivo. Os documentos foram indiscriminadamente atirados pelo chão, depois de haverem sido parcialmente organizados... Terminada a obra na Prefeitura, os documentos voltaram em carroceria de caminhão, novamente desorganizados.
Entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, mais uma vez o acervo foi retirado do almoxarifado e acondicionado em caixas-arquivo e estantes no sótão da Prefeitura, onde funcionava a sede do Legislativo. Nesse momento, o acervo já tinha passado por uma organização pela Profª. Lucy Fontes Hargreaves, com ajuda de alunos do Colégio Local.
Em 1983/1984, juntamente com a Câmara Municipal, o arquivo foi transferido para o prédio do antigo Fórum e colocado em lugar impróprio, em prateleiras de madeira encostadas na parede, à mercê da umidade.
Há cerca de oito anos, o acervo foi transferido, juntamente com o arquivo mais recente da Prefeitura, para o Sobrado dos Quatro Cantos, desapropriado pelo IEPHA/MG e pomposamente nomeado “Centro de Cultura e Cidadania”. Criou-se em lei o Arquivo Municipal, mas nunca teve funcionário habilitado...
Em todo esse histórico de mudanças, descaso e destruição de livros e documentos antigos, a única vez em que se cogitou a construção de um espaço específico para acomodá-los foi por ocasião da construção do Centro Cultural Yves Alves, por volta de 1996/1998.
Sob projeto do arquiteto Glauco Campelo, foi construído em imóvel desapropriado pela prefeitura, na Rua Direita, um grande espaço chamado “Centro Comunitário”. Com verba pública, através do Programa Nacional de Cultura-Pronac, com aporte de verba da Rede Globo, mediante desconto no imposto de renda, construiu-se o prédio. Do projeto, que teve a Sociedade Amigos de Tiradentes – SAT como proponente, constava que as duas salas da direta seriam para colocar os documentos, onde teriam conservação e tratamento. A sala do meio seria da biblioteca, com salinha de leitura, e a da esquerda uma pequena livraria. Na aprovação do projeto no MINC, constava a finalidade do prédio: BIBLIOTECA PÚBLICA E ARQUIVO MUNICIPAL, mas os livros e os documentos jamais chegaram lá. Nada do objetivo foi cumprido. O projeto evoluiu para ter um auditório, para receber a biblioteca e hoje nem pode ser usado livremente pelas entidades de Tiradentes e Prefeitura, sua verdadeira proprietária.
Diante da atual ameaça de despejo do Arquivo e da Biblioteca, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, no cumprimento de sua missão, tomou a iniciativa de solicitar ao Governador do Estado de Minas Gerais em carta do dia 7 de dezembro, a manutenção do comodato entre o IEPHA e a Prefeitura Municipal, ou com outra instituição que possa garantir a manutenção do Sobrado dos Quatro Cantos para a biblioteca, o arquivo, o acervo artístico, espaço de reuniões a ser utilizado pelos Conselhos Municipais e outras finalidades de cunho comunitário lá desenvolvidas. A expectativa é que o bom senso prevaleça, que o comodato seja renovado e que o acervo lá permaneça. Caso contrário, solicitamos com veemência às autoridades do executivo e legislativo municipal para a construção de um local adequado e exclusivo para a biblioteca e para o arquivo, que coloque fim a essa andança extremamente prejudicial à sua preservação. Já é hora de desmentirmos essa lenda da praga de padre e de assumirmos perante nós mesmos e perante a posteridade a nossa responsabilidade pela preservação de nossa memória histórico-cultural. Caso contrário, seremos todos responsabilizados tal como os (ir)responsáveis pela destruição ocorrida até agora.
Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes
Por onde anda o Caboclo D’água?
Em Tiradentes, assim como em toda cidadezinha interiorana, a infância da maioria das pessoas que viveram a era pré internet era povoada de histórias, mitos e lendas. Recentemente, o Instituto Histórico e Geográfico publicou uma coletânea de lendas reunidas em 1978 e que tem feito muito sucesso principalmente entre a criançada da era digital. Interessam-lhes os “causos” contados por nossos avós e que se referem a uma cidade que não existe mais, a um tempo em que a crendice e a ingenuidade permitia o diálogo do real com o fantástico. Sonhar era permitido.
Não há muito tempo (entenda-se década de oitenta para trás) era comum uma roda de conversa à noite, na porta da casa, em que os mais velhos contavam histórias para uma plateia de meninos invariavelmente curiosos e amedrontados. Eram histórias dos tempos em que a cidade ainda era uma ruína colonial, sem energia elétrica e sem movimento. Meia noite era, citando Edgar Allan Poe, “a hora que apavora” e todos se recolhiam cedo; dormiam com as galinhas para acordar com elas. Caída a penumbra da noite eram os seres fantásticos que perambulavam pelas ruas, além de um ou outro aventureiro desavisado. Conviviam pacificamente, a lenda e a realidade. Daí surgiram inúmeros “causos apavorantes”, alguns deles registrados na coletânea do IHGT.
Um história do conhecimento dos antigos e que está quase caindo no esquecimento é a do caboclo d’água da viturina. Segundo a versão que conheço, tratava-se de uma figura extravagante, meio humana meio bicho, tal como um homem das cavernas, que vivia nas margens do Rio das Mortes, no local conhecido por viturina. Era visto por pescadores e banhistas que frequentavam o local. As vezes estava sentado em cima de uma pedra, no meio do rio, outras vezes caminhava displicentemente pela várzea, na região da lagoa do cacheu. Parecia não se importar muito com a presença das pessoas, e não há registros de que tenha atacado alguém. Deixava-se contemplar e depois mergulhava nas águas do rio...
Nesses novos tempos, meia noite já não apavora tanto e a criançada já não brinca mais nas ruas e nem visita a viturina, antigo local de banho. Pescadores também estão escassos, já que o peixe é facilmente comprado no mercado e o Caboclo d’água, certamente sentindo-se abandonado, num dos mergulhos no Rio das Mortes, desapareceu para sempre.
Outra hipótese é a de que o caboclo foi vítima da tecnologia. A cidade, em uma nova era das “vacas gordas”, está sentada diante da televisão ou do computador e os velhos já não têm mais meninos curiosos e amedrontados para ouvir-lhes as histórias. Os garotos estão em alguma lan-house, certamente.
Brincadeiras a parte, o que revolta mesmo é a destruição do habitat do caboclo d´’água. O crescimento desordenado da cidade em função de uma economia em ascensão espalhou o bicho-homem por todos os lados, expulsando os seres fantásticos. O local da lagoa do cacheu, em que nasceu o poeta Basílio da Gama, e em que “vivia” o nosso caboclo d’água, por exemplo, sofreu a ação de tratores que devastaram a região, inclusive entupindo a lagoa. O projeto é a construção de um loteamento. Quem sabe não arranjam um lote para o Caboclo d’água?
Dia da Liberdade: um novo esquartejamento do herói?
Nascido em 1746, na Fazenda do Pombal, então território da Vila de São José Del-Rei, Joaquim José da Silva Xavier, foi batizado a 12 de novembro do mesmo ano, em capela pertencente à Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, de São João Del-Rei, conforme registro eclesiástico:
“Aos doze dias do mês de novembro de mil setecentos e quarenta e seis anos, na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, o Reverendo Padre João Gonçalves Chaves, capelão da dita Capela, batizou e pôs os Santos Óleos a Joaquim, filho legítimo de Domingos da Silva dos Santos e de Antônia da Encarnação Xavier; foi padrinho Sebastião Ferreira Leytão e não teve madrinha; do que fiz este assento. O Coadjutor Jeronymo da Fonseca Alvarez”.
Em 1788, já Alferes da Tropa Paga da Capitania de Minas Gerais, Joaquim José envolveu-se na Conjuração Mineira, sendo preso em 1789. Ficou confinado e incomunicável por mais de três anos na fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Em 1792 a sentença do tribunal de alçada condenou à morte na forca os dez principais envolvidos na conspiração. A duvidosa clemência da Rainha de Portugal, D. Maria I, comutou a pena de todos a degredo perpétuo ou por dez anos. Dos condenados, o único que não mereceu o perdão real foi o Alferes Tiradentes. Foi enforcado, no dia 21 de abril, no Rio de Janeiro. Para maior terror da população e para servir de exemplo aos que ousassem sonhar com a liberdade, seu corpo foi esquartejado em cinco partes e distribuído pelo caminho do Rio de Janeiro a Ouro Preto, ficando uma parte exposta em cada localidade onde ele pregara ideais revolucionários. A cabeça do Mártir ficou exposta em alto poste na atual Praça Tiradentes, em Ouro Preto, “até que o tempo a consumisse”. O tempo a consumiu, e passaram-se cem anos de pesado silêncio em torno do nome do Alferes.
Na campanha republicana e em especial no ano de 1889 ressurge a figura do Tiradentes: cabelos longos e barba crescida, resgatado como protomártir da independência e como símbolo maior do regime que então se instalava. Monumentos foram erguidos por toda parte em sua homenagem. Sua famosa alcunha foi dada como denominação à sua terra natal. Em 1950, a Lei 1.266 declara feriado nacional o dia 21 de abril, data da execução do Patrono Cívico da Nação e Patrono das polícias militares estaduais.
Corre o tempo novamente até que, em 2011, a Lei 19.439, do Estado de Minas Gerais, cria o Dia da Liberdade, a ser comemorado no dia em que se deu o batizado do menino Joaquim José. Esta Lei diz no Art.2º Parágrafo único, que “os eventos terão como referência Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e serão realizados na região onde nasceu e viveu o Mártir da Inconfidência, em especial no Município de São João del-Rei”.
Ato contínuo, foi instituída a Comenda da Liberdade e Cidadania, pelo Decreto Conjunto nº 001/2011 dos municípios de Ritápolis, São João Del-Rei e Tiradentes, para condecorar cidadãos de destaque da sociedade.
Surge, então, a questão: onde comemorar o Dia da Liberdade? Na Fazenda do Pombal, certamente. Quem organizará a festa, já que a posse histórica do local é alvo de polêmica centenária e ainda não resolvida? A solução, apesar de bem intencionada, revelou-se pouco original: esquartejaram novamente o Tiradentes. Ou seja, a comemoração se dará a cada ano a cargo de uma das três localidades. Não podendo pertencer pacificamente a uma única cidade, o Alferes foi distribuído, generosamente, entre as três.
Se a data a comemorar será o batizado, o foco dos discursos, certamente, será o suplício do Herói. Estará montado mais uma vez o cadafalso? Como no passado, também ao som de bandas de música, na presença de autoridades civis, militares e eclesiásticas, a ocasião será para discursos inflamados. Personalidades a oferecerem suas lapelas para a honrosa condecoração. Faltará, todavia, a voz “atroada” do Mártir interrompida para sempre no final do século XVIII entre uma ou outra palavra de uma piedosa oração. Falarão por ele os condecorados... Todos eles saberão, de fato, quem foi o Alferes? Lamentável será para a memória do Herói máximo da nação brasileira se a homenagem vier a tornar-se instrumento de barganha política, de agrado aos “amigos” ou de exibicionismo narcisístico revestido de oratória vazia.
Depois da tentativa frustrada de entidades sanjoanenses em obterem, nos tribunais, um registro civil tardio (e sanjoanense) para o Tiradentes, a criação do Dia da Liberdade e a instituição da Comenda da Liberdade e Cidadania sugerem um interessante “acordo de cavalheiros” entre as três municipalidades. O aparente consenso resultou, porém, em associação curiosa, com ares de déjà vu. A história se repetiu? Cumpriu-se mais uma vez parte da sentença imposta por D. Maria I? Materializou-se o temor do historiador Yves Ferreira Alves, que escreveu, há exatos 20 anos o artigo “Pelo amor de Deus, não esquartejem o Tiradentes outra vez”?
O próprio Tiradentes disse que “armaria uma teia que nem em cem anos se desfaria”, e de fato conseguiu.
Maestro Joaquim Ramalho 1879 – 1963
Joaquim Ramalho com cerca de 20 anos.
Filho de Josefina Ferreira Barbosa Ramalho (1843-1925) e de José Luiz Ramalho (1840-1900), nasceu o maestro Joaquim Ramalho em 1879. Ainda jovem, assumiu o orquestra sacra deixada pelo pai, falecido em 3 de março de 1900. Foi durante o longo tempo em que passou a frente da orquestra (1900-1963), que ela passou a ser chamada Orquestra Ramalho, nos anos de 1930.
Joaquim Ramalho, além de músico, exerceu as funções de coletor federal e manteve uma exploração de areia quartiztica no sopé da Serra São José, que vinha no lombo de burro até os terrenos de secagem no “Barracão da Areia”, no sopé do Morro de São Francisco, onde hoje é a Praça Silva Jardim ou da Rodoviária. Outra atividade exercida por ele foi o corte e venda de lenha a metro, retirada nos seus terrenos, em uma época que ainda não havia distribuição de gás.
Joaquim Ramalho, de perfil, atrás, em 1922.
Homem muito respeitado na cidade, fazia parte de todas as promoções culturais e religiosas de Tiradentes. Como músico, tocava contrabaixo e cantava com sua forte voz de baixo, além de reger a orquestra. Alguns solos eram a ele reservado, como o “VeniCreatorSpiritus”, que era entoado na missa do domingo da Santíssima Trindade, antes do sermão, como solo ao pregador. Joaquim Ramalho era um entusiasta da história de Tiradentes e seu patrimônio. Guardava documentos, publicações e objetos diversos ligados a história local. Foi por sua intervenção que foi reeditado, em 1955, o livro de Herculano Veloso “Ligeiras Memórias sobre a Vila de São José e seu termo, nos tempos coloniais”.
Quando aqui aportou o maestro e compositor francês Fernand Jouteux, foi Joaquim Ramalho que o acolheu, cedendo uma de suas casas na Rua Direita, onde antes fora uma oficina de ourives de Galdino Rocha, para o maestro morar com a esposa, MagdaleineJouteux, aqui falecida em 1952. Guardou também o acervo de Jouteux que, após sua morte, foi doado ao IHGT de Tiradentes, por seu filho Joaquim Ramalho Filho.
Joaquim Ramalho, ao centro (primeiro homem sentado), com a Orquestra da Semana Santa, em Rio Branco-MG, 1921.
Em uma época de extrema decadência, o Ramalho foi adquirindo várias casas no centro antigo da Cidade e fazendo sua conservação, salvando assim um valioso patrimônio arquitetônico. A ele pertenceu, além do Sobrado Ramalho, o dos Quatro Cantos, o de Antônio de Pádua Falcão, na Rua da Câmara, onde funciona o antiquário “Nobre Decadência”, a casa de janela de Treliça da Rua Direita, nº 57,a casa nº 136, a antiga venda dos Quatro Cantos, a casa nº 108 na Rua da Câmara, a casa nº 96 da Rua Padre Toledo, uma casa na Rua Henrique Diniz, uma casa na esquina da Rua Jogo de Bola com largo do sol e a antiga casa de seu avô, Silvestre Barbosa, na mesma rua, número 67.
Além destas e outras casas, possuía o referido barracão de Areia, com um pequeno bangalô, hoje terminal rodoviário, um terreno no brechó e toda a área do mangue e cachoeira, adquirida posteriormente pela Sociedade de Amigos de Tiradentes (SAT) para a instalação de um parque ecológico, não implantado.
Em 1957, recebeu em sua casa o musicólogo Francisco Curt Lang, que entre as peças, levou alguns originais de obras do compositor Manoel Dias de Oliveira, hoje no arquivo do Museu da Inconfidência.
Apesar de muito amigo do Padre José Bernardino de Siqueira, contam que o maestro teve alguns atritos com ele. Um dos mais curiosos, que foi contado por Joaquimzinho. O padre mandou retirar em surdina, durante a noite, as pedras que os homens se sentavam a noite, nos quatro cantos, diante do sobrado, com a alegação de que os homens ficavam a falar mal dos outros. No dia seguinte, o maestro mandou buscar outras pedras e assentá-las com cimento, no mesmo local, e desafiou o vigário a tirá-las, o que ele, logicamente, não fez.
1949, aniversário de Emídio Moraes, na Colônia do Bengo.
A Orquestra Ramalho, durante mais de cem anos, participou de todas as solenidades religiosas, civis e festas de Tiradentes. Em 1922, houve um desentendimento entre o maestro Ramalho e o maestro Antônio de Pádua Falcão, ocasionado pela campanha presidencial em que cada um ficou de um lado. A desavença culminou com Falcão saindo da Orquestra com toda sua família, e montando outra, ficando a Orquestra Ramalho desfalcada, tendo que colocar todos os filhos para tocar.
Entre as curiosidades que se conta é que a Orquestra Ramalho ficou com a Festa de Nosso Senhor dos Passos e a de Falcão com a Festa de Nossa Senhora das Dores.
O velho maestro Joaquim Ramalho morreu em 1963, após longa doença, depois de anos dedicado à música e a cidade de Tiradentes.
Joaquim Ramalho foi casado em primeiras núpcias com Adelina Costa Ramalho, com quem teve os filhos João Batista Ramalho, Vicente Paula Ramalho, Waldomiro Ramalho, José Luiz Ramalho, Joaquim Ramalho Filho, Germana Ramalho Moura e Josefina Ramalho do Nascimento (sinhá).
Casou-se em segundas núpcias com Ana Ladeira Ramalho, com quem não teve filhos.
Sete de outubro de 1860 – São José de Tiradentes: Fênix de ouro
Tiradentes originou-se em 1702, a partir de um arraial de bandeirantes estabelecido na estreita faixa de terra localizada entre o curso médio do Rio das Mortes e o paredão sul da majestosa Serra de São José. O povoado recebeu o nome de Arraial de Santo Antônio, também conhecido, após 1705, como Arraial Velho do Rio das Mortes. A descoberta do ouro trouxe rápido desenvolvimento ao lugar, justificando sua elevação à condição de vila a 19 de janeiro de 1718. Governava a Capitania unificada de Minas Gerais e São Paulo D. Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar, que atendeu requerimento dos moradores do lado direito do Rio das Mortes e criou a segunda vila da Comarca do Rio das Mortes, nona de Minas Gerais. Chamou-a São José del-Rei, em homenagem ao príncipe português, futuro Rei D. José I. Era, contudo, também conhecida por São José do Rio das Mortes, ou, simplesmente, São José.
Com vasto território, que chegou a fazer divisa com a Capitania de Goiás, e riquíssima economia, a vila viveu o auge econômico durante a primeira metade do século XVIII, quando chegou, por vezes, a suplantar a próspera sede da Comarca do Rio das Mortes, São João del-Rei. O esgotamento de suas minas de ouro desencadeou um lento processo de decadência, com sucessivos desmembramentos territoriais e a migração de mineradores e escravos para o Vale do Paraíba, provocando o esvaziamento demográfico da vila. O ponto crítico da decadência ocorreu em 1848, com a perda da autonomia política e anexação do território a São João del-Rei. Um ano depois, em outubro de 1849, diante da mobilização de seus habitantes, a vila recobrou a independência e, a 7 de outubro de 1860, foi elevada à categoria de cidade, com a mesma denominação, pela Lei Provincial Nº 1092.
Em 1860 São José do Rio das Mortes encontrava-se em pleno ostracismo. Do esplendor vivido no século XVIII restavam apenas a riqueza barroca da Matriz de Santo Antônio, a imponência do Chafariz de São José e os belos casarões e templos, alguns em ruínas. Possuía sete ruas calçadas, quatro praças e cerca de treze mil habitantes em todo o termo, estando três mil na sede. Tinha um eleitorado de trinta e seis pessoas e mantinha aula pública de latim e francês, além da instrução primária. A atividade econômica consistia na produção de tecidos de algodão, calçados, vinhos, queijos e cal, além da criação de gado em pequena escala e da prática da agricultura de subsistência. O município compunha-se com os distritos de Lagoa Dourada, Laje, Santa Rita do Rio Abaixo e São Tiago, dentre outras localidades que logo se desmembrariam. Com a elevação à categoria de cidade, a principal mudança sentida foi o aumento do número de vereadores, que de sete passariam para nove. À época, compunham a Câmara Municipal o Barão de Itaverava, Padre Joaquim Gonçalves Lara, Comendador Mathias Furtado de Mendonça, Major Francisco d’Assis Resende, Capitão João Antônio de Campos, Vicente Teixeira de Carvalho e Manoel Gonçalves d’Assis. Na nova cidade o velho mato continuava crescendo nas ruas. A pátina do tempo estampada nos paredões centenários diziam de sua idade e abandono e as ruas desertas causavam uma melancolia que iria impressionar o poeta Olavo Bilac, no final do século XIX.
Em hibernação, a cidade de São José del-Rei atravessou o século XIX e boa parte do XX. Digno de nota nesse período apenas a inauguração da linha férrea, em 1881, e a agitação republicana, que culminaria com a mudança do nome da cidade para Tiradentes, em 1889, como uma justa homenagem ao filho ilustre. Era o terceiro nome oficial dado ao lugar, mas, por algum tempo, povo e autoridades se referiam à cidade como São José de Tiradentes, numa bela conjugação entre o Santo e o Herói. Solução perfeita, reveladora de sentimento de pertencimento que, no entanto, não vingaria. Em 1890 foi criada a Comarca de Tiradentes, transferida no início do século XX para a cidade de Prados.
Em 1924 Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e outros vanguardistas da Semana de Arte Moderna, como novos bandeirantes, visitam Tiradentes e outras cidades de Minas, em busca “do nosso presente mais remoto”, como costumavam dizer. Da expedição modernista, além do sentimento de brasilidade, surgiria em 1936 o anteprojeto do SPHAN (atual IPHAN) e, consequentemente, o tombamento federal da cidade de Tiradentes em 1938, que garantiu, a partir de então, a preservação do conjunto arquitetônico setecentista.
A decadência econômica da cidade e a consequente diminuição populacional tiveram um efeito totalmente inesperado e bem vindo: a preservação. Impedida de se modernizar pela pobreza, São José manteve-se quase intacta, não tendo sofrido as descaracterizações de suas congêneres mais prósperas. Quase não sofreu influência renovadora em seu conjunto urbanístico e foi assim revelada, como joia do passado, para exercer sua verdadeira vocação cultural, empreendida pela indústria do turismo, a partir dos anos de 1970. Vivemos, desde então o ressurgimento econômico e cultural da velha e sempre vila de São José de Tiradentes, renascida das cinzas, tal como a lendária Fênix.
Rogério Paiva
Sócio efetivo do IHGT
Coro paroquial, festa da Santíssima Trindade, 1951.
Poucos foram os fotógrafos identificados e, destes, alguns eram profissionais outros amadores.
André Bello (1879-1941) De origem italiana, André Bello se estabeleceu em São João Del Rei, tornando-se o mais conhecido fotógrafo da região. Foi premiado com medalha de prata na Exposição Nacional de 1909 e com medalha de outro na Exposição de Turim em 1911. Atua na sua profissão nas primeiras décadas do século XX. Suas fotos são de excelente qualidade. Sabe-se também que ele deixou um arquivo de negativos em lâmina de vidro que não foi localizado.
Francisco Reis – Do qual só se sabe que tinha foto estabelecida na Rua Direita de São João Del Rei.
Francisco Araújo Lima Fotografo amador, nasceu em Antônio Carlos em 13 de junho de 1887 e veio para Tiradentes em 1907, onde se estabeleceu como coletor. Trabalhava nas horas vagas no laboratório instalado em sua própria casa. Faleceu em 5 de janeiro de 1973. Dele foi encontrado um importante arquivo de negativos em lâmina de vidro sendo que alguns estão expostos.
João Baptista Ramalho (1909-1983): Maestro da Orquestra Ramalho e também fotógrafo amador, vereador e prefeito por duas vezes.Dele são as fotos dos carnavais da década de 30, dentre outras.
Eros Conceição (1939-2012): Fotógrafo amador da cidade que documentou todos os acontecimentos nos últimos 40 anos na cidade de Tiradentes. Foi fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico, da Sociedade Corpo de Bombeiro Voluntário, da Sociedade Amigos de Tiradentes e da Oficina de Teatro Entre & Vista. Em seu vasto acervo fotográfico consta não só paisagens, casario e patrimônio histórico, como também fotos de pessoas, batizados, primeira comunhão, festas de aniversário, carnavais, etc.
Outros fotógrafos dos quais apenas se sabem os nomes:
Carlos V. Gomes; F. Santos; Xavier; Albert Cohen; Paul Stille; Expedito Almeida; Irmãos Guimarães; J.C. Craig.
Família não identificada, Vitoriano Veloso, 1881
Considerada uma das sete formas de expressão artística, a fotografia deve ser observada também fora do contexto estético: ela adentra o campo histórico e sócio-político dando indícios sobre como as pessoas se relacionavam e relacionavam com o meio no qual estavam inseridas. Se a sociedade está em constante transformação, a fotografia nos possibilita a observação de registros históricos e, ao mesm o tempo, permite a elaboração de análises do presente através desses registros. Em suma, a fotografia nos permite analisar o presente por aquilo que as ações passadas permitiram.
É importante dizer que a história não se faz apenas de “grandes” homens ou eventos. Talvez, por isso, eventos cotidianos, que tomamos como coisas simples, dão evidências da importância dessa “simplicidade“ para o tempo. A história rompe com o culto aos fatos ao buscar as condições que tornaram possíveil certos acontecimentos, início e fim das tradições.
A reedição da exposição “Um Século de Fotografias em Tiradentes” vem nos fazer reelaborar o passado de nossa cidade e de nossas famílias e faz lembrar algumas tradições deixadas de lado, como é o caso dos piqueniques na serra, transporte da cachaça, velório de crianças, etc. Por outro lado, as fotografias nos permitem analisar mais a fundo o desenvolvimento de nossa cidade, já não é necessário fotografar velórios para mostrar o corpo falecido para familiares distantes, já que deixou de ser comum o velório de crianças falecidas precocemente devida a carência de infraestruturas.
Portanto, fazemos o convite para que, mais que a contemplação da beleza e singularidades das fotografias expostas, possamos pensar a história e essa exposição pelas várias vertentes possíveis e, ao mesmo tempo, ter ciência que, neste momento, como em todo tempo, nós estamos construindo a história que será contada futuramente.
Exposição “Um Século de Fotografia em Tiradentes: 1881 – 1981”
A exposição é uma reedição de uma Mostra de Fotografias de diversos aspectos da cidade de Tiradentes recolhidas entre a população local, onde constam eventos culturais, religiosos musicais, grupos de família e lazer. Além de aspectos arquitetônicos, esta exposição retrata os hábitos da população no período de 100 anos. Será aberta dia 12 de outubro no Sobrado Ramalho, situado à Rua da Câmara, 124, às 20 horas. A exposição funcionará até o dia 12 de novembro de 2012.
Horário de visitação:
Segunda –sexta: 9 às 17h
Sábado e domingo:12h às 18h
Capitão Manoel Dias de Oliveira: Parca documentação para uma longa vida
Texto de Olinto Rodrigues dos Santos Filho
Publicado originalmente nos anais do I Encontro de Musicologia Histórica do V Festival
Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, JF – Centro Cultural Pró-Música, 1994.
Falar sobre a vida do Capitão Manoel Dias de Oliveira é tarefa um tanto árida, pois a documentação sobre este compositor é um tanto parca e ainda não pesquisada até a exaustão. No princípio, Manoel Dias de Oliveira era apenas um nome em velhas partituras das corporações musicais de São João del Rei, Tiradentes e Prados e ninguém sabia sequer quando tinha vivido.
Tribuna do coro da Matriz de Tiradentes, onde Manoel Dias
exerceu a função de mestre de música.
Parece-me que a primeira vez que o nome de Manoel Dias apareceu em letras de imprensa foi em 1915, em um discurso que o padre João Batista da Silva fez na inauguração do busto do insigne compositor sanjoanense Padre José Maria Xavier. Diz o referido padre que “José Maria conseguiu formar escola vencendo obras subscritas por Antônio dos Santos e Manoel Dias autor do Pange Lingua e Miserere... ”, opinião hoje muito contestável.
E só em 1976-1977, por mãos do maestro Ademar Campos Filho, o nosso compositor volta a público na conferência realizada durante as comemorações do Bicentenário da Lira Sanjoanense, no dia 28 de janeiro de 1977. É nesta ocasião que se divulga a certidão de óbito de Manoel Dias, localizada no Arquivo Paroquial de Tiradentes, por Aluízio Viegas e Irmã Marina Dornas. Logo a seguir, aparece o delicioso artigo do compositor Welly Corrêa de Oliveira “O Multifário Capitam Manoel Dias de Oliveira”, na Revista Barroco número 10, em que cria uma história para o nosso Capitão Manoel Dias, com muita graça.
Outras citações aparecem em diversas ocasiões, como em Música Mineira do Século XIX, do pesquisador e músico sanjoanense Aluízio José Viegas, no “III Seminário sobre a cultura Mineira, publicada em 1982”. Flávia Torni fez ampla pesquisa nos códices da Paróquia de Tiradentes, para sua dissertação de mestrado, trabalho que acompanhei de perto. Hoje, Manoel Dias está definitivamente registrado na história da música brasileira.
Partitura antiga de obra de Manoel Dias de Oliveira, cedida pelo maestro
Modesto Flávio.
A Vila de São José, hoje Tiradentes, na época em que viveu Manoel Dias era uma Vila com cerca de 3.000 habitantes (1795) e uma extensa paróquia muito disputada pelos sacerdotes. Só a Vila contava com 10 sacerdotes. A tradição musical já arraigada, podemos constatar desde 1722, quando aparece citado no acórdão da Irmandade do Senhor dos Passos, em 14 de janeiro “Assim mais a música na forma acostumada...”(1) ou em 1745 onde consta “Contratar músicos a dois coros”(2). Há também ajuste com Lourenço Dias para tocar o órgão nas funções da irmandade, pelo preço de 12 oitavas de ouro ao ano, evidenciando a existência de um órgão anterior ao atual, na Matriz de Santo Antônio (3).
Nos livros de receita e despesa dos Passos, aparecem parcelas de pagamentos diversos a música como em 1737: “Pela música 28” oitavas e 5 oitavas pelo “Canto Xão”(4).
Em 1756 paga–se “a música da Vila de São João 34” oitavas comprovando que os músicos atuavam em toda região de Tiradentes, São João e Prados (5).
Na documentação da Irmandade de São Miguel e Almas aparecem pagamentos em 1730 e 40 “ao mestre Capella Cantor” a “Frei Belchior Cantor” e ainda a “música com harpa e rebecão e duas rebecas”(6). Também a Irmandade do Bom Jesus do Descendimento contrata os serviços dos músicos para as festividades que promovia principalmente a festa do Santo Nome de Jesus e a Procissão do Enterro, na Sexta-Feira Santa. Desde 1739, apareceram parcelas de pagamentos que variam de 7 oitavas a 24 oitavas de ouro, aparecendo todos os músicos da Vila de São João e o Pe. Me. Da Capela”(7). Também a Irmandade do Santíssimo faz muitos pagamentos pela música, por anos seguidos.
Mas, vamos a Manoel Dias de Oliveira. Além da documentação sobre sua vida ser parca e em mal estado de conservação, há uma terrível confusão para o pesquisador, pois existia um homônimo de Manoel Dias de Oliveira, também capitão e casado com uma mulher de nome parecido, Ana Maria. A de Manoel Dias de Oliveira era Ana Hilária. Em certos documentos não se sabe a quem se refere, como um mandado de pagamento da Câmara onde um deles aparece como contínuo nas festas de nascimento da princesa da Beira, em 30 de dezembro de 1793. Quanto a data de nascimento do nosso compositor há várias hipóteses, pois não há registro de batizado. Trazemos talvez a única novidade desta comunicação, que é um documento que cita a idade de Manoel Dias. Trata-se do “Rol dos confessados da Freguesia de Santo Antônio da Vila de São José”, datado de 1795, onde aparece o cabeça da família, com 60 anos, a mulher Ana Hilária com 41 anos, os filhos Maria com 25, Marcelina com 23, Francisco com 20, Manoel com 14 e José com 10, além de dois escravos Francisca de 19 anos, Miguel Angelo de 35 e um agregado João Francisco, criolo forro de 52 anos. Portanto, a data de nascimento de nosso capitão seria 1735 (8) Parece que após 1795 Manoel Dias teve mais quatro filhos, conforme informa Flávia Toni.
Rol dos Confessados da Freguesia da Vila de São José, 1795,
onde consta Manoel Dias de Oliveira e família, arquivo IHGT.
Da vida profissional de Manoel Dias temos notícia a partir de 1769, quando aparece no livro de despesas dos Passos parcela de pagamento de 32 oitavas a ele pela música (9) e nos anos que se seguem de 1770, 1771, 1773, 1774, 1775 e 1777 continua recebendo sempre o mesmo valor com exceção de 71 que recebe 28 oitavas.
Da Irmandade do Descendimento, o nosso compositor recebeu 12 oitavas pela música da procissão do Enterro em 1774 e 1782. Estes pagamentos devem se referir aos “quartetos vocais” atribuídos a ele, e ainda hoje cantados em Tiradentes que são: “Heu Salvator Nostri”, “Pupili”, “Cecidit Corona”, “Sepulto Domino” e o canto da Verônica “O vos Omnes”(10).
Para a Irmandade do Santíssimo Sacramento, Manoel Dias dirigiu a música nas Semanas Santas de 1772, 1773, 1779, 1792 (11). Nos outros anos não aparece a especificação do nome de quem recebe pela música, ou aparecem outros executores.
Livro de recibos da Irmandade do Santíssimo 1779-1846, fls. 7.
Nas funções da Irmandade de São Miguel e Almas, Manoel Dias recebe 8 oitavas de ouro em 1775. Para as outras irmandades sediadas na matriz ele deve ter trabalhado também, embora não haja documentação sobre o assunto nas confrarias do Terço e Nossa Senhora da Conceição. Na Irmandade da Caridade há um termo de entrada de irmão de Manoel Dias, e ele sendo irmão, deveria pagar os anuais e jóias com música, como era usual. Na Irmandade das Mercês não encontramos nenhum pagamento a ele; na São João Evangelista onde era irmão, deve ter pago também com música.
Sabemos também, através do Maestro Ademar Campos Filho e de Aluízio Viegas, que ele atuou em Prados e São João del Rei. Aliás, consta na documentação da Irmandade dos Passos em São João, em um inventário de 1812; “o aparelho de Música para as vias sacras do Senhor dos Passos composto por Manoel Dias e dois coros, com oito solfas das vozes, duas ditas para as flautas, uma para as trompas, duas para violinos e duas para o rabecões “hum aparelha a dois coros para o Miserere.” Deve tratar-se, portanto, dos motetos de Passos e o Miserere que eram executados durante a procissão e após o sermão (12).
No livro primeiro de despesas do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos de Congonhas, consta alguns pagamentos ao nosso compositor, pela música no Jubileu do Senhor de Matozinhos. Infelizmente não tive tempo de copiar esta informação, pois o livro se encontra na Cúria de Mariana e não posso precisar a data exata, mas foi na década de 1780.
Gazeta do Rio de Janeiro, 1816. Relato das Exéquias de D.
Maria I, na Matriz de Santo Antônio, Tiradentes, quando
foi executada música de Manoel Dias.
Manoel Dias pertenceu a duas irmandades localizadas em São José. Em 1752 foi recebido na Irmandade de São João Evangelista dos homens pardos, em cuja igreja veio a ser enterrado (13). Em 1762 entra para a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade da Caridade, sediada na Matriz, que recebia a todos, sem distinção de cor ou classe social. Consta “Manoel Dias de Oliveira músico” e diz que “este irmão fica remido pela obrigação em que consta em assistir (com) música a todas as solenidades desta venerável Irmandade”; em 1769 também entra para a mesma irmandade “Anna Hilária, mulher de Manoel Dias mestre de música nesta Vila, “ ficando também remida certamente porque o marido assistia com música a irmandade (14) Para a mesma irmandade entra em 1791 Francisco de Paula “filho do Capitão Manoel Dias de Oliveira músico” e em 95 entra para a de S. João Evangelista e diz que pagou “a entrada com cantar ou tocar na festa da colocação”. Consta que morreu em 1829 e se em 1795 tinha 20 anos, nasceu, portanto, em 1775 (15). Este filho de Manoel Dias, que também foi músico, pode facilmente ser confundido com outro Francisco de Paula, filho do entalhador Salvador de Oliveira e também músico, que foi organista da Matriz. Este aparece em 1795 no Rol dos Confessados, com 28 anos, pardo e solteiro (16). Há ainda um registro de casamento de Francisco de Paula Dias de Oliveira filho de Manoel Dias e Anna Hilária, com Anna Balbina da Conceição, em 22 de julho de 1798 (17).
Está ainda por determinar quem foi este Lourenço Dias, que foi organista da Matriz, na década de 1750 e que parentesco tinha com Manoel Dias. Seria um irmão? Em 1802 ele ainda estava vivo, pois aparece como testemunha no casamento de Estêvão Dias de Oliveira, outro parente de Manoel Dias, com Ana Cardozo da Silva. Infelizmente, como eram segundas núpcias, no Assento não consta os nomes dos pais deste Estêvão Dias de Oliveira, que poderia ser um irmão mais novo ou um sobrinho.
A outra função de Manoel Dias era de calígrafo, o que parecia fazer nas horas vagas. O primeiro documento copiado por ele é o compromisso da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos pretos crioulos da Vila de São José, datado de 1768 e assinada “Mel Dias” na folha de rosto. É um belo trabalho de caligrafia com vinhetas a bico de pena, copiada dos manuais portugueses para este fim. Depois aparece em 1784, um recibo passado à Irmandade do Bom Jesus do Descendimento de 17 oitavas de ouro pela cópia do compromisso daquela irmandade, incluindo as letras principais, papel de olanda, veludo, fitas e encadernação. Este documento se perdeu (18). Em 1789/90 ele recebe da Irmandade da Boa Morte da Borda do Campo (hoje Barbacena) 14$400(quatorze mil e quatrocentos reis) por escrever o compromisso, em papel de olanda e mandar fazer as letras douradas. Este documento ainda se conserva no arquivo daquela irmandade e o localizamos recentemente. A letra aqui já não é tão firme como no das Mercês, mas continua muito regular e redonda (19).
Livro de Compromisso da Irmandade de N. Sra.
Das Mercês, 1768, copiado por Manoel Dias
Segundo informações do Maestro José Maria Neves, encontra-se no arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, o registro da patente de Manoel Dias como “Capitão da ordenança de pé dos homens pardos libertos do Distrito de Lage da Freguesia de São José do Rio das Mortes”, passada em 1772, em conformidade com a real ordem de 22 de março de 1766. Certamente a confirmação é muito posterior a nomeação pelo Capitão General Governador de Minas, pois em 1769 ele já usava o título de capitão. O documento ainda diz que não recebe soldo. Sua praça é hoje a cidade de Resende Costa (20). Finalmente Manoel Dias morre aos 78 anos, de doença do peito, certamente tuberculose, sem grandes posses, pois não deixou testamento e parece que não foi inventariado, pois nós não localizamos nada até hoje.
Livro de Compromisso da Irmandade de N.
Sra. Da Boa Morte de Barbacena, 1790.
Pelo assento de óbito confirma-se a sua cor parda e nos informa que foi enterrado na campa de número dois, da igreja dos Pardos de São João Evangelista; bem aos pés do nicho de Santa Cecília. É interessante notar que a Irmandade de São João Evangelista abrigou uma grande quantidade de músicos nos seus quadros e é a única igreja de Tiradentes em que existe a imagem de Santa Cecília. Seria uma irmandade informal dos músicos mulatos? Pelo mesmo assento, também sabemos que Manoel Dias teve ofício fúnebre a dois coros de música, talvez de sua autoria. Como se trata de documento importante, transcrevo-o aqui:
“Aos dezenove dias do mês de agosto de mil oitocentos e treze faleceu com todos os sacramentos, de moléstia do peito o Capitão Manoel Dias de Oliveira, pardo, casado com Anna Hilária, mestre compositor de música, amortalhado em hábito de São Francisco, aos vinte do dito mês e ano teve ofício digo aos vinte e hum do dito mês e ano se lhe fez ofício, com os sacramentos digo sacerdotes que se acharão a dois coros de música encomendado pelo segundo coadjuntor Revdo. Ronaldo Bonifácio Barbosa Martins, e sepultado dentro da capela de São João Evangelista em cova de número duas de que para constar fiz este assunto que por verdade assignei o coadjuntor João Miz Lopez” ( 21).
Livro de Assento de Óbitos da Matriz de Tiradentes, 1812 –
1828. fls. 10 vo.
Não vou falar aqui de suas composições musicais, porque não é de minha competência, mas segundo o Aluízio Viegas, já temos identificadas mais de 40 peças de sua autoria ou a ele atribuídas e me parece que a única peça autografada de Manoel Dias é “Tractus, Paixão e Bradados de quarta feira santa, datado de Vila de São José 12 de março de 1788,” hoje no Arquivo Curt Lange, depositado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, certamente originário do Arquivo da Orquestra de Joaquim Ramalho. Também são originários da mesma Orquestra os “Motetos de Passos a oito vozes” (cópia de 1889) e os “Tractus e Bradados de sexta feira da Paixão a 4 vozes” ‘copiados por Oswaldo Fonseca e João Evangelista Bernardes em 1923 (22).
Concerto Bicentenário Manoel Dias de Oliveira: Lira Ceciliana
No dia 3 de novembro deste ano, se apresentou na Matriz de Santo Antônio de Tiradentes a Orquestra “Lira Ceciliana”, da cidade de Prados, sob a presidência de Rejaine Almeida Rezende e a regência do maestro Ademar Campos Neto, em comemoração ao bicentenário da morte de Manoel Dias de Oliveira.
Músicos da Orquestra Lira Ceciliana em apresentação na
Matriz de Santo Antônio, Tiradentes.
O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes e a Sociedade Orquestra e Banda Ramalho agradecem sensibilizados aos músicos e ao maestro a brilhante apresentação, que contou com repertório de autoria do Capitão Manoel Dias, incluindo um Magnificat do museu da música de Mariana, ainda quase desconhecido, e do “Miserere” acompanhado de órgão. Na segunda parte do concerto, foi apresentada uma peça do maestro Ademar Campos Filho, à maneira de Manoel Dias. O maestro Ademarzinho foi autor da melodia do hino da cidade de Tiradentes e foi sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes.
O concerto também contou com uma peça de Geraldo Barbosa de Souza, contrabaixista da Lira Sanjoanense, falecido em 2011, e uma bela abertura do Pe. João de Deus de Castro Lobo (1794-1832), que foi organista da igreja de São Francisco de Mariana.
Olinto R. Santos, Sócio do IHGT.
30 de setembro de 1848 – a queda de uma vila
“Não se pode dizer de Ouro Preto que seja uma cidade morta.
Morta é São José Del-Rei” (Manuel Bandeira – 1938).
Dizer que a cidade de Tiradentes, antiga São José d’El-Rei é um dos núcleos urbanos setecentistas mais preservados do país é repetir o obvio, afinal, basta observá-la para constatar que se manteve praticamente inalterada ao longo desses três séculos de história. Permanece, em linhas gerais, o traçado original das ruas, becos e praças do núcleo histórico. Mantêm-se intactos os principais prédios da arquitetura civil e religiosa, com destaque para a Matriz de Santo Antônio e o Chafariz de São José. Manteve-se relativamente preservado – até recentemente (hoje nem tanto) – o entorno que compõe harmonicamente o conjunto dominado pela Serra de São José. Por outro lado, sabe-se que a cidade preservou-se graças ao empobrecimento. À depressão econômica resultante da exaustão da atividade mineradora, no final do século XVIII, seguiu-se longo período de estagnação econômica, que acabou por preservar a estrutura da primitiva vila. Foi assim durante todo o século XIX e parte do XX e, nesse ínterim, ocorreu o fato dramático da perda da autonomia política em 1848.
A Vila de São José, criada a 19 de janeiro de 1718, é originária do acampamento de garimpeiros resultante das descobertas de João de Siqueira Afonso em 1702. Formou-se imediatamente o Arraial de Santo Antônio do Rio das Mortes, com intensa imigração. Instalada, a vila experimentou rápido crescimento econômico e territorial, chegando a fazer divisa com a Capitania de Goiás. No auge, o ouro farto, facilmente colhido à flor da terra, propiciava ruas movimentadas e uma intensa atividade econômica, social e cultural. Templos magníficos, dominando o conjunto de vetustas casas senhoriais, manteriam para a posteridade uma amostra da riqueza fácil da terra.
Nos bons tempos, São José chegou a rivalizar, e com vantagem, a futura “Princesa do Oeste”. Em 1729, por exemplo, enquanto a Câmara de São João devia a Portugal, a título de donativo real, 5.452 oitavas de ouro, a Câmara São José estava obrigada a algo em torno de 8.609 oitavas, o que refletia, certamente, seu maior cabedal. Naquele mesmo ano, São José contabilizava, a mais que São João, 1971 escravos e 57 vendas, dentre outros indicadores. A rivalidade entre as duas vilas começara em 1718, quando a Câmara de São João protestou a El Rei D. João V contra a criação da Vila de São José, iniciando-se, então, uma polêmica questão de limites entre as duas vilas, que persiste ainda em nossos dias.
O esgotamento do ouro de aluvião e a dificuldade para a exploração do ouro em profundidade trouxeram a crise, agravada pela sequência de emancipações de distritos como São Bento do Tamanduá (Itapecerica) em 1789 e Igreja Nova (Barbacena) em 1791, dentre outros. Na sede da vila a decadência foi mais sentida. À estagnação econômica seguiu-se o esvaziamento populacional e a decrepitude do casario gradativamente abandonado e até demolido para a venda do material destinado a novas construções em São João Del-Rei. A extração do ouro, que na década de 1750 ultrapassara as 100 arrobas, caiu para 86 na década seguinte e para 68, na década de 70. Ocorreu, então, a migração de mineradores e escravos para as fazendas de café do vale do Paraíba. Os que ficaram dedicavam-se a atividades de subsistência, à agropecuária caseira, e a tímidas iniciativas empresariais, como tecelagem, cerâmica e ourivesaria. O primeiro censo oficial da Província de Minas, em 1831, encontraria em São José uma população de apenas 3055 pessoas. Era a decadência, num ritmo gradativo e constante.
O aspecto de abandono da Vila, em contraposição ao seu passado glorioso, foi destacado por todos os visitantes ilustres do século XIX. De maneira geral, todos apontaram para uma situação de crise. Já em 1818 Johann Emanuel Pohl fala de muitas minas abandonadas e conta, na vila, apenas 500 casas. Auguste de Saint Hilaire, no mesmo ano, viu muitas escavações, mas constatou que a mineração ali já era atividade encerrada. Na década seguinte, o Reverendo Walsh registra um momento de efêmera reação econômica, com a chegada dos ingleses da General Mining Association, que logo desistiram. O inglês Richard Burton, na década de 1860, contou, na vila, cerca de 300 casas e uma população de 2500 pessoas, na maioria desocupadas, que só faziam jogar peteca e comer jacuba. O mato crescia nas ruas desertas e o aspecto de abandono da cidade impressionaria, em 1893, a Olavo Bilac. O poeta, invadido por “uma melancolia súbita”, passou pela Praça do Chafariz, atravessou a velha cidade “amortalhada num silêncio de cemitério”, visitou a fantasmagórica Matriz de Santo Antônio e partiu de Maria Fumaça, meio incrédulo, refletindo a respeito da vila morta.
Um dia para não se esquecer foi 30 de setembro de 1848, quando a Lei provincial nº. 360 suprimiu a autonomia política da Vila de São José, integrando seu território à São João del-Rei. Humilhação extrema, que durou quase um ano, mas foi revogada por força de mobilização popular. A restauração da vila veio pela Lei 752 de 20 de outubro de 1849, fato, porém, que não alterou a realidade decadente de São José. Situação que ainda duraria mais de um século, até a cidade ser resgatada dos escombros para a exploração de sua nova riqueza: o turismo.
Fachada principal da Igreja de São João Evangelista.
O proponente da restauração é o nosso Instituto Histórico e Geográfico.
O Aleijadinho na Região do Rio das Mortes
Antônio Francisco Lisboa, dito o Aleijadinho (1738-1814), passou grande parte de sua vida em Vila Rica, onde nasceu e morreu, mas, em alguns períodos, viajou a outras vilas e arraiais mineiros para executar obras ou apenas fazer louvações. Assim sendo, trabalhou em Mariana, Sabará, Morro Grande, Congonhas, Fazenda da Jaguara e São João del Rei.
O primeiro biógrafo do artista, Rodrigo José Ferreira Bretas (1814-1866) cita em seu trabalho, publicado no “Correio Oficial” de Minas, em 1858, que “O Aleijadinho exerceu sua arte nas Capelas de São Francisco de Assis, de Nossa Senhora do Carmo e das Almas, desta cidade [Ouro Preto] e Capela de São Francisco de Assis de São João del Rei...” e ainda que “há quem afirme que é em Congonhas do Campo, e em São João del Rei que se devem procurar as obras primas fazendo especial menção da magnífica planta da Capela de São Francisco daquela cidade e do bem acabado da escultura e talha do respectivo frontispício”. Portanto, desde meados do século XIX já se tinha conhecimento de que Antônio Francisco Lisboa havia trabalhado pelo menos na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de São João del Rei.
Embora toda a documentação contábil da Ordem Terceira Franciscana tenha desaparecido, resta-nos o livro de termos, ou seja, de atas da ordem, onde a certa altura (1774) aparece o assunto do projeto para uma nova igreja, e diz que “foi visto o risco que se tinha mandando fazer a Vila Rica”. Em 1785, quando se pensa em “riscos” complementares aparece “o sobredito risco que serve de suplemento ao de Antônio Martins”, o que foi rasurado para Antônio Francisco Lisboa. Esta ata citada já deu muita discussão, porque originalmente o nome era Antônio Martins e foi rasurada para Francisco Lisboa, com letra de época e, certamente, feita por alguém presente a reunião. Posteriormente, se mandou encomendar ao mesmo artífice o “risco” para o retábulo do altar-mor. Ambos os projetos foram alterados na execução, o arquitetônico, por Francisco de Lima Cerqueira, mestre de obra português, que iniciou a construção da capela; e o artístico, por Luiz Pinheiro de Souza, entalhador responsável pela execução do retábulo.
Livro de receitas e despesas no qual consta o pagamento ao Mestre
Aleijadinho. Documento, hoje, sob a responsabilidade da diocese.
Mas o certo é que Antônio Francisco deixou sua marca inconfundível não só na traça da igreja, mas no projeto dos retábulos colatareais, em imagens de santos, principalmente, na magnífica portada de pedra sabão que rivaliza com a sua congênere de Vila Rica.
Do projeto original para São Francisco, localizado na década de 1940, no Rio de Janeiro, pouco se aproveitou, pois Lima Cerqueira arredondou as torres quadrangulares, eliminou os corpos laterais, arredondou a nave, além de outros detalhes. Mas lá no projeto está o esboço da bela portada e a escultura da empena. As torres do projeto foram, possivelmente, reutilizadas no projeto de 1809/10 para a Matriz de Santo Antônio da Antiga Vila de São José, hoje Tiradentes.
Na bela igreja rococó de São João del Rei, vamos encontrar os traços do Aleijadinho na portada executada lá pela década de 1780, onde os serafins sobre quartelões, as armas da ordem e imagem da Virgem Maria, assim como rocalhas, acantos e flores que saíram das mãos do Mestre, secundado por ajudantes que executaram trabalhos menores, como cabeças de anjos de pouco destaque.
Os dois retábulos colaterais que se não saíam de suas mãos, apresenta inconfundível afinidade com seu estilo, quando não seja pelas colunas entortadas no terço inferior, como em São Francisco de Ouro Preto. Antônio Francisco foi o único artista colonial a usar esse recurso. Os anjos e querubins, quando não seja de sua lavra, são ajudantes muito próximos, seja pelo modelado vigoroso dos corpos, seja pelos olhos amendoados e repuxados, seja pela mecha em rocalha sobre a fronte. No altar de São Pedro de Alcântara, a excelente talha da porta do falso sacrário pode-se-lhe ser atribuída, com pouca sombra de dúvida. Nos esquecemos de citar a emocionante aparição da face do Divino Salvador, no intradorso da chave da verga da portada, sereno e ao mesmo tempo trágico a olhar os fieis que adentram no templo. Esta é, sem dúvida, uma das mais emocionantes mais faces de Cristo criadas em pedra sabão, na segunda metade do setecentos.
Ainda se pode ver algum traço magistral do coroamento do retábulo-mor executado por Luiz Pinheiro, especificamente na figura majestática de Cristo em esplendor. Lê-se, ainda, a chama de seu gênio na escultura da empena, por ele projetada, na execução tardia de Aniceto de Souza Lopes. Ainda para o Terceiros Franciscanos executou a pequena e forte imagem do evangelista São João, pronta antes do seu nicho, pois ele foi criado para ela com seu símbolo iconográfico: a águia. Outras imagens, por nós identificadas ultimamente (O Aleijadinho e sua oficina, 2002), como o Santo Antônio e São Gonçalo do Amarante que só de perto só de perto revela a força criadora do Mestre.
No tempo em que trabalhava na Capela de São Francisco, o Aleijadinho faz pequenas esculturas inacabadas, protótipos de santos franciscanos, encontrados no mercado de São João del Rei, em 1957, por Jair Afonso Inácio. Duas delas fazem parte do acervo do Museu Regional do IBRAM e outras duas foram para coleção particular. Nas diminutas esculturas inacabadas vê-se a centelha criadora do mestre.
Para a Matriz de Nossa Senhora do Pilar executou apenas uma cabeça de Cristo da Prisão, antes relegada as velhas tribunas da igreja é hoje colocado no trono, durante os ofícios de trevas. Desta escultura, apenas a cabeça faz jus a obra do Mestre, pois o corpo canhestramente executado não tem destreza ou maestria. Atualmente, a peça se encontra exposta no Museu de Arte Sacra.
Resta-nos, agora, citar a graciosa portada rococó da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, parcialmente executada pelo Mestre. Parece que executada a parte central, com as armas da ordem, dois querubins, o medalhão da Virgem e comovente Pai Eterno, ficou muito tempo desmontado e só foi instalada no século XIX. Para isso, encomendou-se três cabeças de querubins sorridentes e outros detalhes a outro artista, ainda não identificado. Para se ver com olhar crítico esta escultural monumental, é preciso abstrair a parte inferior e centrar a vista na Virgem e, depois, divagar pelo Pai Eterno e pelos dois querubins com escapulários. O Pai Eterno lembra o profeta Naum de Congonhas.
Após sua passagem luminosa por São João del Rei, na década de 1780, ele ainda executa o grandioso retábulo da Capela de São Francisco de Ouro Preto e o conjunto de Passos e profetas de Congonhas.
Já no fim da vida, acerta a encomenda do projeto de uma nova fachada para a Matriz de São José del Rei. Isto se dá em 1809, quando a velha fachada já estava em parte desmontada. Cansado e alquebrado pela doença, volta ao antigo projeto de 1774, para a igreja franciscana de São João del Rei. O “risco” teve que se adaptar a largura e altura definida da velha igreja. Usou ele a mesma solução das torres quadradas, projetadas para São João del Rei e não executadas, com seus relógios e o frontão recortado, com fogaréus à moda italiana.
A portada já não mais saiu da mão do Mestre, mas de outro artista rococó, Salvador de Oliveira. Mas pode-se ver no perfil delicadamente rococó das torres, com seus cunhais de chanfro, na elegante curvatura do frontão, nas rocalhas se espraiando sobre a parede, a marca do estilo aleijadiano, embora a execução em massa, em lugar de pedra, tenha diminuído o impacto desta decoração. Para além das conjecturas, o documento, junto com o de Sabará, são as duas únicas referências que o nomeia pelo apelido famoso de “Aleijadinho”.
Se a Matriz de São João Batista do Morro Grande teria sido sua primeira traça arquitetônica, ainda contida, a Matriz de Santo Antônio da Vila de São José terá sido sua última manifestação em termos de intervenção arquitetônica, curiosamente, ambas reduzidas ao frontispício, como se a confirmar os versos de Carlos Drummond de Andrade:
“Não entrarei, senhor, no templo, Seu frontispício me basta”
Agostinho na Prataria da Matriz, 1977.
Conheci o Agostinho Preto na minha infância. Ele nasceu no dia 5 de maio, mesmo dia do aniversário da minha mãe, só que ele nasceu 25 anos antes, em 1900. Sempre foi empregado da prefeitura, diga-se que, antes de haver a prefeitura, ele era empregado da Câmara e a sua primeira função, aos 18 ou 20 anos, era acender os lampiões de querosene das ruas. Ia na frente o João Nepomuceno, o “Tiojoão” colocando querosene nos recipientes e o Agostinho ia atrás com uma vara com estopa na ponta incandescente a ascender os lampiões. Eram apenas 24, da matriz até na esquina do sobrado do Chiquinho Fonseca, atual prefeitura. Em 1923, inaugurou-se a luz elétrica e acabou a função do Agostinho e ele virou um operário qualquer. Não mais era mensageiro da luz. Casou-se com a Zina (Flausina) e não teve filhos, seus filhos eram os sobrinhos, que os chamavam de “Zé”.
Foi fiel ao “sô” Joaquim Ramalho a vida toda, mesmo quando a Orquestra se partiu em duas, em 1922, por causa de uma briga na campanha política da eleição de presidente, em que o Antônio de Pádua Falcão, na oposição, abriu uma orquestra dissidente. Agostinho trocava tromba ou “baixo” na banda do Ramalho e cantava no naipe “Baixo” no Coro da Orquestra Ramalho. Tinha vozeirão no solo da Ladainha do Padre Zé Maria, no setenário das Dores. Aliás, contava-se que o Padre Zé Maria era compadre do meu trisavô, José Luiz Ramalho e compunha por encomenda, como a novena de São João Evangelista, que ele escreveu e só veio ouvir na igreja, escondido na sacristia.
Foto do filme “Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz”, 1967.
Mas, voltando ao Agostinho, terror das crianças que subiam ao coro e que ele expulsava com a indicação da porta e a palavra imperativa “desce”, e todos sumiam pela escada abaixo do coro da Matriz. Mas se o encontrasse na rua, o bolso do seu paletó era repleto de balas para todas as crianças. Se faltasse tenor, ele resolvia a situação fazendo a parte de tenor, e cantava meio dançando com um pé no banco do coro, marcando o compasso.
Não me lembro dele trabalhando na prefeitura, já o conheci aposentado e “dono” de todas as igrejas de Tiradentes. Ele se desdobrava em cuidar da matriz como sacristão e guardião. Tocava o sino da entrada para as missas, arranjava os paramentos sobre o arcás, aviava o altar com cálice, vinho, hóstia, campainha, capa de asperges, matraca e todo o necessário. Acendia as velas e corria para o coro, para cantar. Tinha as chaves da Matriz, do Rosário, da Trindade e da prataria, onde não deixava ninguém entrar. Ele ia lá, buscava os castiçais de prata e nós carregávamos da porta para fora. Foi uma honra quando, lá por 1975, ele me deixou entrar para ver a prataria. Por ironia, após sua morte, a chave me foi entregue e a repassei ao Joaquinzinho Ramalho, que certamente era mais responsável que eu.
Na sua casa da Rua Direita, 37, havia uma Cruz processional de latão e uma mala de papelão duro, onde havia paramentos, cálice, patena, galheta, hóstia, vinho e paninhos de altar para qualquer missa ou procissão fora da matriz ou nas capelas rurais. Tudo sempre pronto. Agostinho era acima do padre, do Dom Delfim, das irmandades, sua autoridade determinava, era maior. Na festa da Trindade ele se mudava para uma casinha de quatro cômodos que fez na praça, só para ficar perto “da minha mãe de braços abertos” ao que eu retrucava perguntando “se minha mãe era barbuda”, e ele estava referindo-se ao Pai Eterno.
Coro Paroquial, 1951.
Na festa da Trindade, íamos no primeiro dia da novena, ornamentar a igreja. Eu acompanhava a Regina Conceição e a Dalzira Moura Campos e lá ficávamos o dia inteiro. O Agostinho chegava com duas garrafas térmicas de café e sacolas de biscoitos feitos pela Zina e era o nosso almoço, como o era quando montávamos a Matriz para a Quinta-feira Santa. As vezes, brigávamos muito, porque eu colocava as velas tortas na banqueta da Matriz ou porquê ele queria bater pregos na talha dourada.
As igrejas eram sua casa e ele dava conta de tudo, Festa do Rosário, missa no São Francisco, no Canjica, tesoureiro das Mercês e Zelador da Trindade.
Ele não bebia, eu nunca o vi beber, mas sempre perguntava “menino, tem dinheiro pra tomar uma cerveja?”, logo enfiando a mão no bolso de baixo do paletó para nos “emprestar” um trocado. Estava na igreja desde os tempos do “sô vigário”, ou seja, do Padre José Bernardino. Em 1932, já aparece como “armador” na Semana Santa. Certa vez, ele nos fez dormir no coro da Matriz, pois achava que poderia aparecer um ladrão. Imagine o que nós faríamos se houvesse realmente um assalto.
Andava sempre vestido com um surrado paletó escuro e calçado de sandálias franciscanas por causa dos calos. Era filho de “Sá Chica Ferreira” e não me lembro o nome de seu pai, mas sei que ele fez as jarras de cerâmica vidrada que havia em todas as igrejas. Hoje temos algumas recolhidas no Museu da Liturgia. Me esqueci de dizer que ele sempre usava um chapéu velho de lebre. Agostinho conhecia cada peça, cada cálice, cada imagem, cada castiçal, cada toalha de todas as igrejas e falava “esse missal não é daqui, é do Gaspar ou do Bichinho”.
Cartão postal, déc. 70, com Agostinho descendo a rua.
Entre muitas funções, ele vestiu por 50 anos a imagem do Senhor dos Passos, sempre trancado na sacristia para que os meninos não vissem, nem olhassem no buraco da fechadura, pois nossa curiosidade era imensa. Quando, em 1980, ele adoeceu, mandou me chamar na casa dele. Ele estava sentado em uma cadeira no quintal cheio de galinhas. Já cuspia sangue. Me ordenou: “vai trocar a roupa do Senhor dos Passos, porquê eu não posso”. Ao que recusei: “o senhor nunca me deixou fazê-lo, não sei”. Aí, ele me disse: “Sabe sim, é necessidade, não se esqueça de vestir três camisas e dar o nó do cordão direito, o Nogueira sabe”. E essa função foi minha por mais de 20 anos, até que abandonei, com desentendimentos paroquiais. Mas, se o fiz por muitos anos, foi por determinação do Agostinho, eu não podia desobedecer.
No fim, já internado na Santa Casa de São João del Rei, eu passava para vê-lo quando eu ia para a escola e ele me dizia que Nossa Senhora das Mercês já o estava chamando e mandou que fôssemos a sua casa buscar as coisas da Igreja, o que fizemos com Joaquinzinho Ramalho, Antônio Nogueira e Padre Nacif.
Procissão da Santíssima Trindade, 1968. Foto de Maria J. Moura.
Como uma última nota, eu estava organizando uma exposição, “Um Século de Fotografias em Tiradentes”, que iria abrir em janeiro de 1981, e escolhi algumas fotos que Agostinho tinha na parede. Ele me disse “se eu já tiver morrido, você entra e tira da parede, os retratos são seus”. Uma destas das fotos, a dos acólitos, de 1925, inclui no meu livro “A Matriz de Santo Antônio em Tiradentes”. E mais os “quadros de santos” da sala, me disse “ele são seus”. Após sua morte, Lili, sua filha adotiva, me mandou olonia-los e ainda hoje estão na parede de meu quarto.
Na missa de corpo presente, executou-se a Missa de Requem do Padre Zé Maria Xavier e o “seu” Domingos, já falecido, cantou tão emocionado um solo do “De Profundis” que a voz ficou embargada e as lágrimas corriam no seu rosto de quase 80 anos. Seu Domingos era o outro baixo do coro, e era da Lira Sanjoanense, mas vinha sempre reforçar a Ramalho.
Agostinho em foto de Fernando Pitta, déc. De 80.
Por fim, o Agostinho, da maneira dele, as vezes suaves, as vezes “mandona”, ditatorial, nos ensinou a defender, a amar, valorizar nosso patrimônio religioso, seja o material, defendido com unhas e dentes por ele, seja o imaterial, cantando durante quase 60 anos no coro da orquestra ou tocando seu “baixo” na banda. De onde ele está, sei que olha por todas as igrejas de Tiradentes e por nós, que não fizemos nada perto do que ele fez. Viva o Agostinho.
Texto do Sócio Olinto Rodrigues dos Santos Filho
Obs.: Foi o Agostinho que me ensinou que “entrada de missa” toca-se 100 badaladas e se for vigário toca-se mais 3 e se for padre de fora toca-se mais 8 badaladas.
Os primeiros registros civis de Tiradentes
Como é de conhecimento geral, até o final do segundo reinado do Brasil, os registros de nascimento, óbito e casamento eram feitos apenas pela igreja católica, onde eram celebrados os atos de batismo, casamento e sepultamento de toda a população. Proclamada a república, a religião católica deixou de ser a religião oficial do país e os registros passavam oficialmente a serem feitos nos cartórios de registro civil e notas.
O primeiro registro de nascimento anotado no livro número 1 aberto para esse fim foi o de Silvestre, filho de José Luiz Ramalho, maestro da atual Orquestra Ramalho. O curioso é que o pai foi declarante e não aparece o nome da mãe, que era Josefina Ferreira Barbosa Ramalho. Também não aparece o nome completo, que deveria ser Silvestre Ramalho, que herdou o prenome do avô, Silvestre Ferreira Barbosa, pai de Josefina Ferreira Barbosa. Consta, ainda, a margem, uma anotação que diz que a criança foi batizada na casa do vigário João José de Faria, sendo o padre também padrinho e a madrinha a irmã do recém nascido, Maria da Conceição das Mercês, que depois casou-se com Abdias de Faria. A criança foi registra no dia 31 de dezembro de 1888, curiosamente, antes da proclamação da república, e batizada em 2 de janeiro de 1889. Parece que esta criança morreu em tenra idade, pois nos chegou notícias apenas de três filhos homens de José Luiz e “Dona Josefa”, ou seja: Joaquim Ramalho, João Evangelista Ramalho e Francisco de Paula Ramalho.
Estátua Equestre de D. José I, Lisboa.
Este ano de 2014 comemoramos o tricentenário de nascimento do Reio Dom José I de Portugal. Filho de D. João V e de Dona Mariana da Áustria, o príncipe D. José Francisco Antônio Inácio Norberto Agostinho de Bragança nasceu no dia 6 de junho do ano de 1714. Casou-se em 1729 com a princesa Maria Vitória de Bourbon, infanta da Espanha, o que veio selar a paz com país vizinho.
Retrato de D. José I, por Miguel Antônio
do Amaral, 1773.
Com a morte de seu pai o rei D. João V, o magnânimo D. José ascendeu ao trono de Portugal, tendo sido coroado no dia 8 de setembro de 1750, em Lisboa, após assumir o trono em 31 de julho do mesmo ano. Logo no início de seu governo nomeou o Conde de Oeiras, depois do Marquês de Pombal, Sebastião José para seu ministro super poderoso, que, na verdade, governou Portugal até a morte do Rei, em 1777. Uma das maiores tragédias do reino português foi o famoso terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755, que destruiu a Capital do Reino, inclusive o palácio real, na Ribeira, onde hoje é a Praça do Comércio. Aproveitando o ensejo, o Marquês de Pombal elabora um plano de reconstrução da Baixa Lisboeta dentro dos cânones iluministas e cartesianos, com ruas retas e trançado quadriculado, com rua central e a Praça do Comércio. Todas as construções foram projetadas no mesmo padrão, tanto os sobrados quanto as igrejas pombalinas da baixa. Os sobrados com suas portadas em mármore branco, com pouca decoração nas vergas, contrasta com o rosa e amarelo dos panos de parede. As igrejas seguiam planta padrão, com as faixadas em mármore branco, sem ou com apenas uma torre. Os interiores pombalinos eram severos, ao gosto de um rococó quase clássico, de cunho italianizante. Não havia talha e sim retábulos em mármore ou madeira imitando mármore, ao gosto italiano.
Estátua Equestre de D. José I, Praça do Comércio, Lisboa.
Mas o que nos importa é que, para a reconstrução da baixa lisboeta, o ouro das Minas Gerais abarrotou os cofres reais, sendo portando uma obra financiada com o ouro brasileiro.
Lembramos, hoje, D. José em seu tricentenário porquê, quando se criou a Vila no Arraial Velho no Rio das Mortes, em 19 de janeiro de 1718, por ato do Conde de Assumá e Marquês de Alorna, Dom Pedro de Almeida e Portugal, o nome dado a Vila foi São José del Rei ou São José do Rio das Mortes, como ficou conhecida, em homenagem ao príncipe, então, com cerca de quatro anos de idade. Portanto, Tiradentes, nome adquirido em 1889, teve, de 1718 a 1889, o nome do Rei.
Rua da Câmara, déc. De 50.
O Culto à Virgem Maria e a Cidade de Tiradentes
Texto do sócio Olinto Rodrigues dos Santos Filho
O culto a Maria Mãe de Jesus vem do início da Era Cristã, manifestando-se a sua iconografia em antigos mosaicos e murais no inicio da idade média e no império bizantino. No reino de Portugal a representação da Virgem data de tempos muitos antigos, podendo ainda ser vistas imagens medievais em pedra ançã e madeira, como a antiga imagem de Nossa Senhora da Oliveira da colegiada de Guimarães, ou a virgem da Catedral de Braga e a Virgem de Vandoma, a padroeira da cidade do Porto.
A primeira imagem da Virgem que aportou no Brasil veio nas caravelas de Pedro Álvares Cabral e retornou com ele para o reino. Ainda restam imagens quinhentistas da Virgem na cidade de salvador, Vitória e São Paulo.
A invocação mais querida da Virgem em Portugal e no Brasil foi a Imaculada Conceição, dogma defendido pelos franciscanos e pela casa real portuguesa e só instituído pontificiamente em 1854. Desde o reinado de D. João IV, a Imaculada Conceição é patrona do reino e recebeu do próprio rei a coroa de Portugal.
Ao se descobrir o ouro no atual território de Minas Gerais, logo se seguiu as construções de capelas rústicas de barro, madeira e palha, onde eram colocadas as imagens dos santos de devoção. Assim, nasceram as primeiras capelas e matrizes, muitas delas dedicadas a Virgem, sob a invocação do Pilar (Ouro preto, São João del Rei, Congonhas do Sabará, Pitangui); Nossa Senhora da Conceição (Antônio Dias de Ouro Preto, Serro, Prados, Raposos, Ribeirão do Carmo, Sabará, entre outras); Nossa Senhora do Bom Sucesso (Caeté), Nossa senhora de Nazaré (Cachoeira do Campo, Morro Vermelho, Inficionado). Muitas capelas foram dedicadas à Virgem, espalhadas por todo o território mineiro. Ainda nas primeiras décadas dos setecentos, surgiram as irmandades de Negros em torno da invocação de Nossa Senhora do Rosário e em meados do século as irmandades de Pardos ou Mulatos sob a égide de Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora da Boa Morte. Ainda nos fins do século, aparecem as irmandades dedicadas à virgem das Dores. Muitas foram as invocações da virgem em Minas como Madre de Deus, Mãe dos Homens, Piedade, Penha de França e Socorro...
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Na antiga Vila de São José del Rei, hoje Tiradentes, a Virgem Maria esteve presente em igrejas e capelas, embora o padroeiro seja Santo Antônio de Pádua. Na igreja matriz funcionaram as irmandades de Nossa Senhora da Piedade, cujo fim era assistir aos doentes, encarcerados e enterrar os mortos; a Confraria de Nossa Senhora do Terço dos Homens Brancos; a Confraria de Nossa Senhora da Conceição dos Estudantes, cujo altar é dos mais antigos da igreja.
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Joaquim Silvério escreve uma carta...
No dia 15 de março de 1789 o Governador da Capitania de Minas receberia em seu palácio da Cachoeira do Campo o Coronel Joaquim Silvério dos Reis. O visitante trazia ao Visconde de Barbacena a denúncia gravíssima de que, em Minas, se planejava a liberdade. Alguns dos principais homens da Capitania, chefiados pelo Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, reuniam-se secretamente para conspirar e planejar a implantação de uma República independente de Portugal. Crime hediondo que ele, como leal vassalo da Augusta Soberana, considerava-se na obrigação de denunciar. E o faria com riqueza de detalhes.
Depois de ouvir atentamente, o Visconde ordenou que Silvério fizesse a denúncia por escrito. Este documento, assinado na Borda do Campo a 11 de abril de 1789 (anexo), seria o primeiro corpo de delito do processo de inconfidência e desencadearia uma série de denúncias e interrogatórios reunidos em duas devassas que se arrastariam por mais de três anos e que culminariam no enforcamento do Tiradentes a 21 de abril de 1792 e no exílio dos principais envolvidos.
Após a denúncia verbal de Joaquim Silvério, a providência imediata do Governador foi a suspensão da Derrama, a 23 de março de 1789. A Derrama, ou a cobrança unificada e imediata de todos os impostos atrasados era a medida altamente impopular que os inconfidentes aguardavam para deflagrarem a revolução. Sua suspensão desarticulou todo o movimento. O “tal dia do batizado” fora adiado.
Na sequência, o Visconde daria a Joaquim Silvério mais uma missão: aproveitar-se da amizade que o Tiradentes lhe devotava para vigiar os passos do Alferes no Rio de Janeiro e mantê-lo informado de tudo. Ao ordenar esta segunda traição o governador revelou conhecimento do caráter de Joaquim Silvério. O homem era grande devedor da fazenda real, e tudo faria para livrar-se da dívida. Era indivíduo astucioso, ambicioso e sem escrúpulos e se prestaria a qualquer papel para obter vantagens pessoais. Mas, naquele momento, a atributo que mais sobressaia na personalidade do traidor era o cinismo cruel. Diante do representante da Rainha, mesmo sabendo das consequências funestas do seu ato, Silvério simulava preocupação com a sorte de suas vítimas:
Ponho todos estes tão importantes particulares na presença de V. Excia. Pela obrigação que tenho de fidelidade, não porque o meu instinto nem vontade sejam de ver a ruína de pessoa alguma, o que espero em Deus que, com o bom discurso de V. Excia., há de acautelar tudo e dar as providências sem perdição de vassalos. O prêmio que peço tão somente a V. Excia., é o rogar-lhe que, pelo amor de Deus, se não perca a ninguém (Autos, v. 1. P. 94-95).
Fina ironia de um sádico conhecedor dos rigores sanguinários do quinto livro das Ordenações Filipinas, com o qual Portugal puniria o crime de Lesa-majestade perpetrado nas Gerais.
Nada além dos interesses pessoais trouxe ao Brasil aquele português, nascido em 1756 na freguesia de Monte Real. Veio aos 20 anos, em busca de riqueza e prestígio social, estabelecendo-se como comerciante no Rio de Janeiro. Posteriormente instalou-se em Minas Gerais onde, no período de 1782 a 1784, foi o contratante dos direitos de entrada, atividade que resultou na pesada dívida de 220:423$149 contraída com a Fazenda Real.
Apesar de qualificado como fraudador e falsificador no processo que lhe movia a Coroa Portuguesa, Silvério desfrutou de grande prestígio no Governo de Luís da Cunha Menezes. O “Fanfarrão Minésio” o autorizou a criar um Regimento de Cavalaria Auxiliar, conferindo-lhe a tão almejada patente de Coronel. Sua sorte mudaria com a posse do novo governador da Capitania. Luís Antônio Furtado de Mendonça, o Visconde de Barbacena, nomeado para o cargo em 1786, dele tomou posse em julho de 1788, e trazia instruções severas, que incluíam a cobrança dos impostos atrasados e das dívidas astronômicas, como a de Silvério. Já em fevereiro de 1789, o Coronel perderia a patente militar com a extinção do seu Regimento. Com base em sua carta-denúncia, foi neste mesmo mês que, em passagem pela casa do Capitão José de Resende Costa, no Arraial da Lage, Silvério soube da Conjuração:
Vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o Sargento-Mor Luís Vaz de Toledo; e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Excia. Assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me ao sargento-mor (...) e juntando mais algumas palavras em desafogo da minha paixão. Foi Deus servido que isso acontecesse para se conhecer a falsidade que se fulmina” (Idem, p. 92).
Conheceu a falsidade que se fulminava e os nomes dos principais envolvidos, dentre os quais o Coronel Alvarenga Peixoto, o Padre Oliveira Rolim, o Ten. Cel. Freire de Andrade, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier e o vigário de São José, Padre Carlos Correia.
O dia 3 de março lhe reservaria mais um golpe. O Visconde de Barbacena o intimou a prestar contas do seu contrato como arrematante dos direitos de entrada, que se resumia no acerto da avultada dívida. Como, para aliciá-lo, os inconfidentes haviam lhe acenado com o perdão da dívida, Silvério vislumbrou na libertação de Minas uma saída estratégica. Se por um lado não era nenhum idealista da causa da liberdade de Minas, por outro, sentia-se acuado pela voracidade da Fazenda Real.
No dia 10 de março dissipou-se a dúvida quando, no arraial da Igreja Nova, Silvério encontra o Alferes Tiradentes. Ao vê-lo, por olonial-lo amigo e aliado, o Alferes o saúda entusiasticamente dizendo que ia ao Rio, trabalhar por todos. A partida eufórica do Alferes deixou Silvério preocupado. Pensou que a imprudência com que se falava abertamente na revolução poderia colocar tudo a perder e optou por mostrar-se solícito perante a Coroa Portuguesa. A denúncia poderia ser um bom negócio, e assim decidiu seu destino de traidor. Cinco dias depois estava diante do Governador. A sorte dos conjurados estava selada.
Do ponto de vista pessoal, a traição de Joaquim Silvério à causa dos inconfidentes não foi descabida. Como português, foi leal à sua Rainha, embora por interesse. Além disso, não tinha nenhum vínculo afetivo com a terra que justificasse querer vê-la independente e até desprezava os mineiros, a quem considerava “gente turbulenta e ridicularizadora do nome e da gente de Portugal” (JOSÉ, Tiradentes, p.178). Pode-se dizer, também, que obteve êxito em seus propósitos, sendo recompensado pela lealdade demonstrada. Teve um ligeiro percalço, quando no dia 10 de maio foi encarcerado em presídio do Rio de Janeiro por ordem do Vice-Rei Luís de Vasconcelos, mas ao sair da prisão, nove meses depois, receberia pensão vitalícia de duzentos mil réis, o perdão da dívida com a Fazenda Real e o hábito da Ordem de Cristo, dentre outras vantagens. Retornou a Portugal, de onde veio com a Corte fugitiva em 1808. Tentou estabelecer-se no Rio de Janeiro, mas desistiu depois de sofrer atentados e de ser apontado nas ruas como traidor. Por fim, instalou-se em São Luiz do Maranhão, onde faleceu em 1819, sendo sepultado na igreja de São João, em túmulo posteriormente destruído.
Se a Inconfidência Mineira foi ou não um movimento de apelo popular, se extrapolou ou não as fronteiras de Minas, se foi um devaneio de letrados liderados por um louco, ou o maior esforço de liberdade esboçado no Brasil-colônia, ainda não há consenso, mas, a julgar pelas queixas do próprio Joaquim Silvério, uma coisa é certa: o povo não perdoou o traidor dos inconfidentes.
A carta-denúncia de Joaquim Silvério dos Reis
(Autos da devassa. Vol. 1. Brasília – Belo Horizonte: Câmara dos Deputados/Governo do Estado de Minas Gerais,1976. P. 91-95)
Ilmo. E Exmo. Sr. Visconde de Barbacena
Meu Senhor: - Pela forçosa obrigação que tenho de ser leal vassalo à nossa Augusta Soberana, ainda apesar de se me tirar a vida, como logo se me protestou na ocasião em que fui convidado para a sublevação que se intenta, prontamente passei a pôr na presença de V. Excia. O seguinte: - Em o mês de fevereiro deste presente ano; vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o Sargento-Mor Luís Vaz de Toledo; e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Excia. Assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me ao sargento-mor: me tinha enganado, porque em nome da dita Senhora se me havia dado uma patente de coronel, chefe do meu Regimento, com o qual me tinha desvelado em o regular e fardar, e muita parte à minha custa e que não podia levar à paciência ver reduzido à inação o fruto do meu desvelo, sem que eu tivesse faltas do real serviço; e juntando mais algumas palavras em desafogo da minha paixão. Foi Deus servido que isso acontecesse para se conhecer a falsidade que se fulmina.
No mesmo dia viemos dormir à casa do Capitão José de Resende; e chamando-me a um quarto particular, de noite, o dito Sargento-Mor Luís Vaz, pensando que o meu ânimo estava disposto para seguir a nova conjuração pelos sentimentos e queixas que me tinha ouvido, passou o dito sargento-mor a participar- me, debaixo de todo o segredo, o seguinte:
Que o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, primeiro cabeça da conjuração, havia acabado o lugar de ouvidor dessa Comarca, e que, isto posto, se achava há muitos meses nessa vila, sem se recolher a seu lugar da Bahia, com o frívolo pretexto de um casamento, que tudo é idéia porque já se achava fabricando leis para o novo regime da sublevação que se tinha disposto da forma seguinte:
Procurou o dito Gonzaga o partido e união do Coronel Inácio José de Alvarenga e do Padre José da Silva e Oliveira, e outros mais, todos filhos da América, valendo-se para seduzir a outros do Alferes (pago) Joaquim José da Silva Xavier; e que o dito Gonzaga havia disposto da forma seguinte: que o dito Coronel Alvarenga havia mandar 200 homens pés-rapados da Campanha, paragem onde mora o dito Coronel; e outros 200, o dito Padre José da Silva; e que haviam de acompanhar a este vários sujeitos, que já passam de 60, dos principais destas Minas; e que estes pés-rapados, haviam de vir armados de espingardas e facões, e que não haviam de vir juntos para não causar desconfiança; e que estivessem dispersos, porém perto da Vila Rica, e prontos à primeira voz; e que a senha para o assalto haviam ser cartas dizendo tal dia é o batizado; e que podiam ir seguros porque o comandante da Tropa Paga, Tenente-coronel Francisco de Paula, estava pela parte do levante e mais alguns oficiais, ainda que o mesmo sargento-mor me disse que o dito Gonzaga e seus parciais estavam desgostosos pela frouxidão que encontravam no dito comandante e que, por essa causa, se não tinha concluído o dito levante.
E que a primeira cabeça que se havia de cortar era a de V.Excia.; e depois, pegando-lhe pelos cabelos, se havia de fazer uma fala ao povo que já estava escrita pelo dito Gonzaga; e para sossegar o dito povo se havia levantar os tributos; e que logo passaria a cortar a cabeça do Ouvidor dessa vila, Pedro José de Araújo, e ao Escrivão da Junta, Carlos José da Silva, e ao Ajudante-de-Ordens Antônio Xavier; porque estes haviam seguir o partido de V. Excia.; e que, como o Intendente era amigo dele, dito Gonzaga, haviam ver se o reduziam a segui-los; quando duvidasse, também se lhe cortaria a cabeça.
Para este intento me convidaram e se me pediu mandasse vir alguns barris de pólvora, o que outros já tinham mandado vir; e que procuravam o meu partido por saberem que eu devia a Sua Majestade quantia avultada; e que esta logo me seria perdoada; e quê, como eu tinha muitas fazendas e 200 e tantos escravos, me seguravam fazer um dos grandes; e o dito sargento-mor me declarou vários entrados neste levante; e que se eu descobrisse, se me havia tirar a vida como já tinham feito a certo sujeito da Comarca de Sabará. Passados poucos dias fui à Vila de São José, aonde o vigário da mesma, Carlos Correia, me fez certo quanto o dito sargento-mor me havia contado; e disse-me mais: que era tão certo que estando o dito pronto para seguir para Portugal, para o que já havia feito demissão da sua igreja a seu irmão, o dito Gonzaga lhe embaraçara a jornada fazendo-lhe certo que com brevidade cá o poderiam fazer feliz, e que por este motivo suspendera a viagem.
Disse-me o dito Vigário que vira já parte das novas leis fabricadas pelo dito Gonzaga e que tudo lhe agradava menos a determinação de matarem a V. Excia.; e que ele, dito Vigário, dera o parecer ao dito Gonzaga que mandasse antes a V. Excia. Botá-lo do Paraibuna abaixo e mais a Senhora Viscondessa e seus meninos, porque V. Excia. Em nada era culpado e que se compadecia do desamparo em que ficavam a dita senhora e seus filhos com a falta de seu pai; ao que lhe respondeu o dito Gonzaga que era a primeira cabeça que se havia de cortar porque o bem comum prevalece ao particular e que os povos que estivessem neutros, logo que vissem o seu General morto, se uniriam ao seu partido.
Fez-me certo este Vigário, que, para esta conjuração, trabalhava fortemente o dito Alferes Pago Joaquim José, e que já naquela comarca tinha unido ao seu partido um grande séquito; e que cedo havia partir para a capital do Rio de Janeiro a dispor alguns sujeitos, pois o seu intento era também cortar a cabeça do Senhor Vice-Rei; e que já na dita cidade tinham bastante parciais.
Meu senhor, eu encontrei o dito Alferes, em dias de março, em marcha para aquela cidade, e pelas palavras que me disse me fez certo o seu intento e do ânimo que levava; e consta-me, por alguns da parcialidade, que o dito Alferes se acha trabalhando este particular e que a demora desta conjuração era enquanto se não publicava a derrama; porém que, quanto tardasse, sempre se faria.
Ponho todos estes tão importantes particulares na presença de V. Excia. Pela obrigação que tenho de fidelidade, não porque o meu instinto nem vontade sejam de ver a ruína de pessoa alguma, o que espero em Deus que, com o bom discurso de V. Excia., há de acautelar tudo e dar as providências sem perdição de vassalos. O prêmio que peço tão somente a V. Excia. É o rogar-lhe que, pelo amor de Deus, se não perca a ninguém.
Meu senhor, mais algumas coisas tenho colhido e vou continuando na mesma diligência, o que tudo farei ver a V. Excia. Quando me determinar. Que o céu ajude e ampare a V. Excia. Para o bom êxito de tudo. Beijo os pés de V. Excia., o mais humilde súdito.
Olinto Rodrigues Santos Filho
Grandiosa e pomposa foi a cerimônia das exéquias da rainha de Portugal Dona Maria I, a louca, na matriz de Santo Antônio da Vila de São José do Rio das Mortes, atual cidade de Tiradentes. O ato realizado pelo Senado da Câmara parece que teve especial pompa por se tratar da primeira pessoa da família real portuguesa a morrer em solo brasileiro e justamente a pessoa da monarca, que por ironia do destino foi responsável pela condenação de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, à forca e esquartejamento.
Para a cerimônia das exéquias que era constituída por uma missa de réquiem (missa pelos mortos), sermão alusivo ao personagem falecido e ofício de nove lições (ofício de defuntos) e encomendação do túmulo.
Antes da cerimônia cívico-religiosa, o senado da câmara realizava o ato de “quebra escudos”, que se constituía em um ato público, em alguns lugares determinados da via pública, onde os soldados da milícia, ao rufar dos tambores de guerra, literalmente quebravam o escudo d’armas do monarca falecido. Esse costume foi instituído desde a morte de Dom João I, mestre de Avis, perdurando até a morte de Dom Pedro V, em 1861, no território português.
Também ao final das cerimônias internas da igreja, os regimentos de infantaria e cavalaria, postados no adro da igreja matriz procedia a salva de doze tiros, usual em várias cerimônias e ainda hoje usada em enterro de militares.
Para cerimônias de pompa fúnebre de Dona Maria, a louca, a câmara contratou o pintor mulato Manoel Victor de Jesus (1755-1828), autor das pinturas do órgão e sacristias da matriz para idealizar e executar um cadafalco ou mausoléu simbólico que costumeiramente era armado nas igrejas para as exéquias reais e outras de importância. Por exemplo, em 1892 foi armado um mausoléu com “o retrato” de Tiradentes, para a missa de réquiem do centenário de morte do mártir, na mesma igreja.
Capela Mor da Matriz de Tiradentes onde se ergueu o mausoléu para as Exéquias de Dona Maria
Manoel Victor de Jesus concebeu um monumental mausoléu, descrito com detalhes em matéria publicada na Gazeta do Rio de Janeiro, em 06/06/1816. O cadafalco foi montado no centro da capela mor “rico, soberbo e aparatoso”, com quarenta palmos de altura, ou cerca de oito metros. Era constituído por elemento quadrado em quatro degraus, sendo o último troco piramidal, onde se apoiava uma almofada de veludo preto com franjas de ouro e prata, com um cetro e uma coroa real. Nos ângulos havia quatro colunas “áticas”, remetendo à antiguidade clássica, que eram superiormente fechadas por uma arquitrave ou cornija com seus relevos. Todo o mausoléu era revestido de pano preto, decorado com galões e franjas de ouro e prata. Entre as colunas pendiam festões de pano preto com galões e borlas de ouro. Cobrindo todo o mausoléu havia um baldaquino fixado no florão central do forro da capela mor e dele pendiam cortinas negras que iam se prender nas quatro colunas do retábulo do altar mor, ornadas com franjas e galões de ouro. O mais interessante e que, aliás, era comum nesses mausoléus, era a colocação de quatro esqueletos humanos nos cantos, junto ás colunas, para lembrar a efemeridade da vida, mesmo do monarca. Geralmente o esqueleto era montado com ossos humanos, desenterrados, limpos e caprichosamente unidos. Cada esqueleto trazia nas mãos um lenço em sinal de pranto.
As exéquias barrocas por si só, já tinham grande suntuosidade, e em se tratando de exéquias reais eram sempre cobertas de mais solenidade, onde a arquitetura efêmera era um dos componentes visuais de grande importância, aliás, a música, a sermonística, e aos ritos oficiais.
A cerimônia foi realizada pelo vigário da igreja matriz, que nesta época era o Padre Antônio Xavier de Salles Matos, que ficou na paróquia durante trinta e três anos, coadjuvado por outros tantos sacerdotes e acólitos, usando os paramentos negros, como casula, estola, manípulo e para a encomendação o pluvial negro com seus galões e franjas de prata. Muito insenso e muitos círios davam o clima funebremente místico ao templo dourado.
A literatura acima aludida entrava em cartelas ou tarjas dispostas nos degraus do mausoléu, onde se viam frases latinas em louvor a memória da monarca falecida.
Retrato de Dona Maria I
QUEM FOI A MARIA, A LOUCA?
A figura histórica conhecida como "Maria, a Louca de Portugal" é, na verdade, Maria I de Portugal, também chamada de Maria, a Piedosa (em português, Maria I de Portugal, a Pia). Ela foi a rainha de Portugal e dos Algarves de 1777 a 1816.
Maria I nasceu em 17 de dezembro de 1734, em Lisboa, Portugal, sendo filha do rei José I de Portugal e da rainha Mariana Vitória de Bourbon, uma infanta espanhola. Em 1760, ela casou-se com seu tio, o infante Pedro, que posteriormente tornou-se o rei Pedro III de Portugal.
QUANDO SEU PAI, JOSÉ I, FALECEU EM 1777, MARIA I ASSUMIU O TRONO DE PORTUGAL. Ela é frequentemente apelidada de "Maria, a Louca" devido aos problemas de saúde mental que enfrentou ao longo de sua vida. Ela sofria de uma doença mental que hoje é pensada para ter sido esquizofrenia ou uma forma de distúrbio bipolar. Esse transtorno mental afetou seu reinado e sua capacidade de governar de maneira efetiva.
Em 1792, devido aos seus problemas de saúde mental e seu comportamento cada vez mais errático, o príncipe regente (futuro João VI) assumiu o controle do governo, efetivamente restringindo seus poderes. Maria I foi oficialmente deposta em 1799, embora tenha sido mantida como "rainha titular". Durante esse período, seu filho, João VI, governou como príncipe regente em seu lugar.
Maria I faleceu em 20 de março de 1816. Seu filho, João VI, sucedeu-a no trono de Portugal, tornando-se um dos monarcas mais notáveis ​​do país e do Brasil, que também era uma colônia portuguesa na época.
POR QUE MARIA TERIA FICADO LOUCA?
DOIS ACONTECIMENTOS MARCANTES QUE INFLUENCIARAM: 1- COMO ELA ERA MUITO RELIGIOSA, ALGUM CLÉRIGO TERIA SUGERIDO QUE SEU PAI,O REI DOM JOSÉ I, POR NÃO TER IMPEDIDO O MARQUES DE POMBAL A EXPULSAR OS JESUITAS E SUA ORDEM JESUÍTICA DO BRASIL, TERIA SIDO UM PECADO HORRIVEL E QUE SEU PAI HAVIA SIDO LANÇADO NO INFERNO; UM SEGUNDO FATOR: 2- FOI O FATO DE QUE SEUS PARENTES EM 1789, DURANTE A REVOLUÇÃO FRANCESA, FORAM DECAPTADOS E ISSO MEXEU MUITO COM SEU EMOCIONAL. HOUVERAM OUTROS FATORES, MAS ESTES DOIS FORAM BEM APARENTES NA VIDA DA MONARCA.
AHH, TEVE UM OUTRO EPISÓDIO QUE DEMONSTROU BEM SUA LOUCURA. HOUVE UM ROUBO EM UMA IGREJA EM LISBOA ONDE OS LADRÕES DEIXARAM ÓSTIAS ESPALHADAS NO CHÃO. MARIA MUITO ASSUSTADA COM O FATO, DECRETOU LUTO OFICIAL DE 9 DIAS E DURANTE ESTE TEMPO FICOU ANDANDO EM PROCISSÃO PELAS RUAS DE LISBOA PEDINDO A DEUS PERDÃO PELO ACONTECIDO.
ERA ELA A RAINHA TITULAR, MAS SEU FILHO D JOÃO VI, QUANDO TIVERAM TODOS QUE FUGIR DE PORTUGAL AJUDADOS PELA INGLATERRA PARA NÃO SEREM PRESOS E MORTOS POR NAPOLEÃO BONAPARTE QUANDO A COROA FUGIU PARA O BRASIL EM 1808.
QUAL SUA PARTICIPAÇÁO NOS FATOS DA INCONFIDENCIA MINEIRA?
ERA ELA A RAINHA QUE DETERMINOU AS DILIGÊNCIAS PARA SUSTAR A INCONFIDENCIA MINEIRA DELATADA POR SILVÉRIO DOS REIS. TODAVIA, NO TRANSCURSO DOS FATOS, FOI ELA QUE FOI PIA, OU PIEDOSA, E OUVINDO SEUS CONSELHEIROS OU SEJA OS LOBISTAS, RSSS, SUBSTITUIU A PENA DOS INCONFIDENTES DE MORTE EM PENA DE EXÍLIO, INCLUSIVE O PADRE TOLEDO. TODAVIA, SOMENT O TIRADENTES RECEBEU A PENA DE MORTE POR ELA.
MAIS TARDE, FOI NA MATRIZ DE SANTO ANTONIO QUE HOUVE UMA MISSA EM FAVOR DA MONARCA, NA MESMA CIDADE QUE LEVA O NOME DAQUELE QUE ELA AN0S ANTES TINHA CONDENADO A MORTE. LAMENTÁVEL!!!
Ruína da Fazenda do Pombal onde nasceu padre Antônio da Silva dos Santos
Ruína da Fazenda do Pombal onde nasceu padre Antônio da Silva dos Santos
Acervo Fernand Jouteux
Nos dias 24 e 25 de junho de 2015 esteve em visita ao Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes o historiador Igor Anderson Cardoso Gonçalves, sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Garanhuns para realizar pesquisa no acervo documental do maestro e compositor francês Fernand Jouteux (1866 – 1956) que viveu em Garanhuns (PE) e Tiradentes (MG).
A visita do Sr. Igor serviu para estabelecer laços entre os institutos das duas cidades, como também estudar a possibilidade de resgatar não só a memória de Jouteux, mas também a execução de sua obra musical, no festival de inverno de Garanhuns.
O Sr. Igor nos trouxe a feliz notícia da sobrevivência da fazenda “Belle Aliance” que pertenceu ao maestro Jouteux, em fins do século XIX e início do século XX, e onde ele compôs a ópera “O Sertão”, montada em Belo Horizonte em 1954.
O objetivo da pesquisa do Sr. Igor é seguir os passos do maestro por outras cidades por onde passou e posteriormente transformar sua pesquisa em livro. Ele nos disse que o acervo de Jouteux o impressionou pela quantidade de documentos e pela qualidade, inclusive com a quase totalidade de sua obra musical, além de fotografias feitas em Garanhuns, no início do século XX.
Felicitamos os sócios de IHG de Garanhuns pela iniciativa da visita e pesquisa histórica.
Sede da Fazenda Bella Aliança em Garanhuns – PE
Sede da Fazenda Bella Aliança em Garanhuns – PE
Sede da Fazenda Bella Aliança em Garanhuns – PE
Sede da Fazenda Bella Aliança em Garanhuns – PE
Atividades de Pesquisa no IHG de Tiradentes
Pesquisador Igor durante a visita
Sede da Fazenda Bella Aliança em Garanhuns – PE
Balneário de Águas Santa e a Capela de Nossa Senhora da Saúde-Águas Santas
No ano passado, em 2015, a capela de Nossa Senhora da Saúde de Águas Santas completou um século de inauguração.
O povoado de Água Santas surgiu de uma fazenda e de casa de agregados com o antigo nome de Rio das Pedras. Em meados do século XIX identificou-se que a nascente de águas no sopé da Serra de São José era medicinal.
Já em 1868 o viajante Richard Burton cita, ao passar pela estrada velha entre São João e Tiradentes, que por trás da serra existia as “termas de São José”.[1] Em 1875 a câmara municipal manda uma garrafa da nascente de Águas Santas para o governo provincial, em Ouro Preto para ser analisada. É pena que não temos na documentação da câmara o resultado da análise da água. Ainda no final do século XIX a mesma câmara manda construir dois banheiros para receber banhistas e o serviço é explorado por terceiros através de concorrência pública.
No ano de 1893, a câmara municipal de São José del Rei solicita informação ao secretário do interior, Sr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, se as fontes de água mineral seriam de propriedade da união, estado ou município. Cita o ofício que: “Distante desta cidade 3 kilômetros mais ou menos em território deste município existe uma fonte de Águas Minerais denominada Águas Santas de São José, para onde hoje converge a afluência de excursionistas e onde continuadamente há muitas famílias em recreio e em busca de melhoras da saúde. Á câmara municipal desta cidade tem sido dirigidas representações e reclamações no sentido de serem reconstruídas as duas banheiras ali existentes que se acham em péssimo estado, ameaçando completo desabamento, entretanto apezar de justas tais reclamações não podia a câmara tomar providência alguma pois ignora se as fontes termais pertencem a união, se ao estado, ou se a municipalidade.
Demais sou informado particularmente que ao Sr. Custódio de Castro foi a mesma concedida privilégio daquela fonte do que não tem a câmara ciência...”[2]
Pelo documento acima fica claro que o balneário era explorado por Custódio de Castro, sem a devida autorização da câmara municipal, e que estava em estado ruinoso.
Em 1893 o escritor Carlos de Laet faz menção as águas santas, em sua visita a São João del Rei e Tiradentes: “A parte norte, que vai se elevando, conduz às Águas Santas, local rodeado de montanhas de uma das quais desce o córrego, a que se atribuem propriedades medicinais”.
“Das fontes que lhe dão origem uma é férrea, e as outras termais, na temperatura constante de 29 graus centígrados. Diz-se que contem arsênico; e sinceramente lamentamos que o médico higienista da comissão de estudo dos lugares indicados para a capital (de Minas) com toda sua competência, não tivesse escrito sobre a natureza e eficácia de tais águas”.
“O certo é que, ou pela excelência delas, ou pela do clima combinada com outras circunstâncias, averiguada se acha a benignidade do sítio para enfermos de várias moléstias. Das Águas Santas ouvimos maravilhas do Senhor Dr. Azeredo Macedo e ouros clínicos experientes”.
“Por isso também são vivamente disputadas as poucas e más casinhas lá existentes. Quando ali passeávamos, chegou um pobre doente-pobre pela enfermidade, mas não por falta de fortuna, pois era fazendeiro-e de seu carro tirado por bois fez sair o necessário para armar uma barraca, que efetivamente se armou. Homem resoluto, não conseguira achar pouso e recorria a processos antigos”.[3]
O povoado de poucas casinhas subia a encosta da serra e lá em baixo onde hoje está parte do lago, foi construída uma estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, cujo trem partia da estação de Chagas Dória, no bairro de Matosinhos, em São João del Rei, inaugurada em 1910 ou 1911 e que funcionou até 1966, quando a estação foi demolida. Antes de haver a ligação ferroviária com São João del Rei, se tentou uma linha de bondes de tração animal. Por volta de 1893 os senhores Joaquim Candido Nogueira e Arthur Leopoldo das chagas solicita a Câmara de São José del Rei a concessão de uma linha de bondes partindo das Águas Santas Virtuosas até a ponte do Porto sobre o Rio das Mortes. [4]
Vestiário remanescente da década de 1960.
Balneário, foto da década de 1940. Foto Brasil
No ano de 1894 a câmara Municipal contrata a abertura e melhoria da estrada que vai da cidade de Tiradentes para o povoado de Águas Santas, quando foi feito o calçamento na descida da serra, os cortes d´água, nivelamento e arrimos e regularização da cava entre a chácara e o morro da Santíssima Trindade. A obra ficou concluída no início de 1895.[5]
Calçada na Serra das Águas. Construída em 1894/1895
A pequena estação da qual só restam fotografias, tinha bela estrutura de madeira e lambrequins recortados de rara beleza. Nas “Águas” também tinha um virador da locomotiva, semelhante ao atualmente instalado em Tiradentes, pois lá era final da antiga linha. Resta ainda a estação de Cézar de Pina, datada de 1923, em péssimo estado de conservação. Antigamente ainda existiu um pé-de-estribo na parada do Giarola. Após a inauguração da estação, o senhor Francisco Augusto Uchoa Cintra, construiu um pequeno hotel e restaurante (Petit Hotel et Restaurant) para hospedar e servir os veranistas, inaugurado e bento em 02 de março de 1912.O balneário agora arrendado a Vicente Rodrigues de Carvalho que lá fez melhoramentos, passou a se chamar “Estância Balneária Araújo Pena”, por decreto-lei nº 45, de 24 de dezembro de 1944, expedido pelo prefeito de Tiradentes Celestino Rodrigues de Melo. Já na administração de Francisco Barbosa Junior, por lei municipal n° 102, de 17 de julho de 1958 o balneário foi doado pelo município ao estado de Minas Gerais através da Hidrominas para gerir e fazer melhoramentos no parque de águas. Após a demolição das antigas instalações bucólicas do início do século XX, onde constavam banheiros, piscina, lago e quiosque foi construído um novo prédio e piscina ao gosto dos anos 1960, de tendência modernista e piscina azulejada com água corrente, quando passou a se chamar Balneário Gabriel Passos, em homenagem ao ministro das Minas e Energia Gabriel de Resende Passos (1901-1962) que possuía a propriedade da Fazenda do Córrego, no atual município de Santa Cruz de Minas, então distrito de Tiradentes.
Foi nessa época em que além das terras municipais, as particulares foram desapropriadas, quando se lavrou as escrituras e indenizações em 19/09/1958 e que tendo assumida a propriedade, a Hidrominas promoveu a maior destruição já vista de um patrimônio, que ia muito além dos banheiros, piscina, quiosque, mas todo o arruamento do arraial e a própria estação. Tudo foi destruído, a exceção da capela de Nossa Senhora da Saúde e da casa tipo chalé em frente, onde hoje funciona a casa de visitação da serra, do IEF. A rua que subia a ladeira é hoje um caminho que tem apenas esses dois imóveis.
Moças de Tiradentes na frente da máquina do trem na Estação de Águas Santas
Estação de Águas Santas, foto de Expedito Almeida, década de 1950
A lenda
Conta a população mais antiga da localidade, que os terrenos de Águas Santas, pertenciam a um português de nome José Rodrigues de Miranda que lá vivia com a família e escravos. Diziam que um dos seus escravos descobriu uma mina d´água, onde diariamente enchia o pote e levava para o seu “senhor”. Acontece que todos os dias ele entrava no córrego cuja água lhe cobria a perna até os joelhos, no ato de encher o pote notou que após alguns dias teve sensível melhora em uma ferida que tinha em um dos pés e concluiu que a água era milagrosa. A estória se espalhou e logo muita gente passou a buscar a água e o local passou a ser conhecido como Águas Santas. O próprio Miranda mandou abrir um tanque para que o povo pudesse colher da água e posteriormente doou a nascente a municipalidade. A lenda tem um pouco de verdade, pois as terras já em 1875, pertencente a municipalidade, haviam sido doadas por um antigo fazendeiro.
É mister citar que o reverendo Bispo Dom Antônio Macedo Costa (1830 – 1891) titular da Diocese de Belém do Pará e preso pelo governo imperial na chamada Questão Religiosa, contra a maçonaria vinha veranear e procurar cura nas Águas Santas, nos fins do século XIX, quando passou a viver em Barbacena, onde veio a falecer.
O atual balneário
Encontra-se novamente arrendado a terceiros, mas a propriedade continua do Estado de Minas Gerais e passou por obras de ampliação da década de 1970, com conclusão e inauguração em 18/09/1976 com a presença do governador Aureliano Chaves. Desta época em diante passou por novas reformas e ampliações, com aumento do lago, bar, quiosques, sendo remanescente de 1962 apenas o vestiário principal. A água tem propriedades radioativas com temperatura que varia de 21 a 28 º C e vazão de um milhão e trinta litros/dia. A água é indicada nos tratamentos de distúrbios renais, nefrites, alergias, artrite, eczema e impotência. Um grande lago que reflete as bordas verdes das montanhas, tem pedalinhos e ocupa parte da antiga estação e olonial do trem. Um chafariz instalado ao lado da portaria construído em 1976 oferece perenemente água fresca aos visitantes.
O povoado cresceu ao longo da Avenida Presidente Castelo Branco, antigo leito da estrada de ferro, onde casas de veraneio e de moradores foram sendo construídas e no sentido da “estrada velha” (rodagem) em área mais montanhosas, com grande parcelamento de solo e loteamento. Uma capela dedicada a São José foi construída, ao longo do século XX. Essa capela foi construída pela família da Srª Maria do Carmo Barreto e passou por ampla reforma ou reedificação na década de 1960, sendo reinaugurada e benta em 1968, pelo padre Jacinto Lovatto, quando o imóvel foi incorporado a Paróquia do Bom Jesus de Matozinhos e Diocese de São João del Rei.
Houve nos anos de 1960 um excelente restaurante chamado “Churrascaria Senzala”, que foi propriedade do empresário Nicolau Panzera e depois de Analdina, conhecida como baiana, que marcou época.
Balneário foto atual
Balneário Chafariz da década de 1970
Grupo de pessoas de Tiradentes no Balneário década de 1960
O balneário e grande parte do povoado encontra-se inserido na Área de Preservação Ambiental Serra de São José- APA São José-desde o ano de 1990 e tem tombamento municipal através da lei orgânica do município editada em 1989, quando o povoado passou ao status de bairro da cidade de Tiradentes. Há no bairro uma escola municipal de ensino fundamental, denominada João Pio.
Casa de visitação. APA Serra São José
Casa de visitação. APA Serra São José
Uma das antigas tradições de Águas Santas era a festa de Santa Cruz, no dia 03 de maio, que era realizada em torno de um cruzeiro, que era enfeitado para a ocasião.
Contou-nos a Srª Regina Conceição que morou na estação de Águas Santas, com seu pai José Amaro Conceição, que foi agente da estação que as mulheres começavam a reza do terço com o canto dos versos:
“Chegai, chegai pecador
Vem beijar a santa Cruz
No céu acharás
O coração de Jesus”.
Parece que todo o terço era cantado.
A festa de Santa Cruz era bastante animada, pois a banda do Clube Euterpe Tiradentes, lá tocou nos anos de 1908, 1909,1910 e 1911, como consta da partilha entre os músicos do valor cobrado pelo serviço ajustado de 60 mil réis.[6]
Documento de partilha de pagamento os músicos na festa de Santa Cruz, 1910
A Capela da Saúde
Consta que havia na localidade de Águas Santas apenas um cruzeiro, com marco religioso da comunidade. No ano de 1906 a 08 de dezembro foi realizada a benção da pedra fundamental da capela de Nossa Senhora da Saúde. A ideia de construção de uma capela deve-se a Srª Joana Theodolinda Meira de Araújo Pena, esposa do farmacêutico Antônio Gonçalves de Araújo Pena, que adquiriram terreno e construíram uma casa no povoado, onde frequentavam desde 1901. Consta que o casal Araújo Pena, originário da cidade de São Sebastião, no litoral paulista, mas residente no Rio de janeiro, procuraram as Águas Santas de Tiradentes para tratamento de uma doença de Dª Joana Theodolinda. Certamente tendo melhorado dos seus incômodos resolveu pagar uma promessa a Virgem Maria, construindo uma capela. No ato de lançamento da pedra fundamental foi colocada nos alicerces da capela uma caixa de cobre, para que não se decompusesse, uma moeda de prata datada de 1906, o número 44 do jornal “O Repórter” e o número 828 do jornal “O Resistente”, esse último editado no dia 02 de dezembro daquele ano.
Parece que já em 1909 a obra da capela estava adiantada e em condição de uso, mas ela só vai ser inaugurada em 20 de fevereiro de 1915. No ato da benção da capela celebraram missas o vigário de Tiradentes padre Antônio Carlos Rodrigues e o de São João del Rei monsenhor Gustavo Ernesto Coelho.
Quanto ao lançamento da pedra fundamental consta no º 46 de “O Repórter”: “Capela de Nossa Senhora da Saúde”-o ilustre e estimável Sr. Antônio Gonçalves de Araújo Penna e sua prezada consorte, a exmª Srª D. Joanna Theodolinda de Araújo Penna, residentes no Rio e proprietários nas Águas Santas de Tiradentes, onde vem, anualmente venerar, em companhia de seus dignos filhos, em boa hora, resolveram edificar ali uma pequena capella, dedicada a Nossa Senhora da Saúde, a sua custa, tendo para esse fim alcançado já licença da autoridade diocesana. No dia 10, revestida de toda solenidade, realizou-se a benção da pedra fundamental da capella no próprio local”. [7]
Consta que o Sr. Araújo Pena era benfeitor de inúmeras instituições de caridade e que fundou no Rio de janeiro um estabelecimento homeopático. Veio a falecer em 14 de janeiro de 1920, aos 80 anos, deixando viúva Dª Joana, oito filhos e quarenta e cinco netos. Após sua morte, Dª Joana doou a capela, duas casas e seu respectivo terreno com área de 5.366 m² ao asilo “Casa de Santo Antônio de Ouro Preto”, entidade pertencente aos franciscanos.
Originalmente a capela de Águas Santas estava sob a tutela eclesiástica da paróquia de Santo Antônio de Tiradentes. Com a criação em 1960 da paróquia do Bom Jesus de Matozinhos, o templo passou a capela daquela paróquia até a criação da paróquia da Imaculada Conceição da Colônia do Marçal, em 2001. A capela construída em estilo eclético, em voga na época, não tinha grandes dimensões, mas de muito cuidado arquitetônico, no projeto e execução. Era formada por corpo central-nave-com telhado em duas águas, perpendicular á rua. A fachada era definida por dois cunhais em relevo de massa sobre embasamento em almofada, coroados por capitéis que sustentavam um frontão triangular, de inspiração clássica formado por cimalhas molduradas, tendo ao centro uma abertura retangular vertical envidraçada. Abaixo do frontão corria uma cimalha ornamental mais estreita e óculo envidraçado. A porta central era em arco pleno, com moldura de argamassa, folhas almofadadas e bandeira fixa de vidro, com desenho em gomos. Uma portada ornamental era composta por duas pilastras sobre embasamento moldurado, com entablamento em moldura reta e arco superior. Havia um embasamento ornamental em almofadas losangulares aos lados da porta. O arremate do frontão era em acrotério, em cubo, com cruz. Os beirais laterais eram em cimalhas perfiladas. Junto a fachada lateral a direita de quem olha havia uma sacristia, com embasamento em almofadas de quinas quebradas, porta central em arco pleno, seguindo o modelo da principal, ladeada por duas janelas verticalizadas, de verga reta, com suas molduras de massa. Sobre elas corria pequena moldura. Um cunhal externo apoiava o entablamento em cimalha larga, de onde nascia um frontão elevado em meio círculo definido por molduras. Na parede lateral havia um rasgo de iluminação verticalizado. O telhado do corpo central em duas águas era coberto de telha canal, assim como a sacristia em uma água vertendo para o lado. No lado oposto da sacristia havia um muro com “chapéu” de alvenaria e logo por trás uma sineira, certamente posterior e improvisada em quatro pilastras de madeira e telhado em duas águas paralela à rua, coberta de zinco. Dois sinos pendiam da estrutura do telhado. O muro que seguia na lateral era de adobe, como se vê em foto mostrando o reboco caído. A capela certamente teve um projeto feito por profissional a julgar-se pelo cuidado extremo na composição da fachada, típica da época (1915) de gosto eclético, mas de [i]inspiração clássica, como se nota especialmente do frontão em triângulo perfeito e no detalhe da portada que lembra a arquitetura renascentista ou maneirista romana. Os detalhes de embasamento, frisos, almofadas refendidas, com quinas cortadas em quarto de círculo ou em losangos foram muito usadas na arquitetura de fins do século XIX e início do século XX.
Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1940,. Acervo de CSDP – Barbacena
Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1960
Cerimônia na Capela de Nossa Senhora da Saúde, década de 1940
Capela de Nossa Senhor da Saúde aspecto atual
Capela de Nossa Senhor da Saúde aspecto atual
O templo permaneceu com a mesma feição que até pelo menos 1960, quando foi assumido pela paróquia do Bom Jesus de Matozinhos de São João del Rei e passou pela avassaladora sanha reformista do então pároco Jacinto Lovatto, responsável pela demolição da igreja do Bom Jesus. As reformas por que passou o prédio, deixou-o quase irreconhecível. Na fachada o que se vê da antiga arquitetura são apenas a porta e a cruz do frontão. A sacristia lateral desapareceu, foi construída uma torre desproporcional com três andares, esquadrias de ferro na vertical e cobertura de laje. A fachada foi revestida de “pedras da serra” (quartzito), com cunhais, embasamento em pedras miúdas de outra cor. A atual arquitetura da capela nem de longe lembra a bela construção inaugurada em 1915, há pouco mais de cem anos.
Olinto Rodrigues dos Santos Filho
19 de janeiro, aniversário da cidade de Tiradentes
Vista de São José del-Rei, Minas Gerais, 1824. Johann Moritz Rugendas (1802-1858).
Lápis, naquim e aguada sobre papel, 24,4 x 37 cm, datado: 13 Juny 1824.
“Dizem os moradores da Freguesia de Santo Antônio do Arraial Velho que eles se acham com grande prejuízo e impedimento para tratarem os seus negócios na Vila de São João del-Rei por estarem da outra parte do Rio das Mortes, cujas passagens são muito arriscadas e perigosas, principalmente no tempo das águas em que as suas enchentes o impossibilitam a recorrer à Vila de São João del-Rei, e fica todo este povo sem aquele recurso para as partes, além de ter experimentado que muitas pessoas, que neste tempo se arriscaram a passar, se afogaram, por não haver canoas em que, com segurança, passassem, e perdem não só os seus negócios particulares senão também os do bem público; e como esta Freguesia é uma das maiores das minas e está mais distante da Vila, com largueza de matas para roças, como de lavras e faisqueiras
2.
permanentes, etc., tem os moradores as suas casas quase todas cobertas de telha, por estarem as olarias perto da Freguesia; e para que melhor se possa fazer o serviço de Sua Majestade, assim na arrecadação dos seus quintos, pois é sem dúvida que quantas mais pessoas nesta diligência se empregarem, tanto mais fácil será a dita cobrança e se não experimentará o que sucedeu este ano em algumas minas que pertencem a seus distritos excessivamente dilatados viram restos mais crescidos por cobrar, com grande detrimento e despesa da fazenda real na dilação da frota do Rio de Janeiro, como também serão mais bem obedecidas as ordens que Vossa Excelência for servido distribuir, cuja execução ficará mais pronta e facilitada, por haver muitos moradores e poderosos com os quais se poderá conservar uma boa Vila, das maiores destas minas, sem desfalque da Vila de São João del-Rei, pode-lhe ficar ainda um grande direito; e porque já em outra ocasião, pelas justificadas razões que apontam, fizeram o mesmo requerimento ao antecessor de Vossa Excelência, ao que não foram deferidos, por se mandar informar de algumas pessoas que não tinham conveniência em que se erguesse em Vila o dito Arraial de Santo Antônio, suposto que nenhum modo esta matéria prejudica a terceiros, antes redunda em mais utilidade do serviço de Sua Majestade e bom regime dos povos. Esperamos da reta justiça de Vossa Excelência que, informado de pessoas desapaixonadas, seja servido dar-nos o despacho que esperamos. Portanto, pedem humildemente a Vossa Excelência que, atendendo ao referido e por evitar algumas desuniões entre moradores e pela utilidade do serviço de El-rei, lhe faça mercê mandar erigir a dita Freguesia em Vila e receberão mercê. João Ferreira dos Santos, José Ferreira dos Santos, João André de Matos, Silvestre Marques da Cunha, Domingos Ferreira dos Santos, João de Oliveira, Miguel Rodrigues, Manuel Pinheiro, Domingos da Silva, José da Silva, Domingos da Rocha Moreira, Domingos Ramalho de Brito, Manuel da Silva de Morais, Diogo Alves Cardoso, Antônio Fernandes Preto, Gonçalo Mendes da Cruz, Manuel Martins Machado, Gonçalo de Lima Rego”.
A cuja petição está o despacho seguinte:
3.
“Vistas as razões alegadas pelos suplicantes e as informações que delas tirei, concedo o que me pedem, para que o dito Arraial de Santo Antônio seja erigido em Vila, com o nome de São José, e o doutor Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes, ou quem seu lugar servir, levantará o Pelourinho e dará a posse na forma do estilo, começando o distrito da nova Vila da banda de lá do Rio das Mortes.
Vila do Carmo, dezenove de janeiro de mil setecentos e dezoito anos (uma rubrica)”[1]
A Vila de São João del-Rei perdeu o Arraial de Santo Antônio, elevado à Vila de São José del-Rei, a partir da data referida. A primeira eleição de São José foi presidida pelo juiz ordinário de São João del-Rei, Antônio de Oliveira Leitão, comissionado pelo ouvidor, Dr. Valério da Costa Gouvêa.
Imediatamente, os oficiais da Câmara da Vila de São João del-Rei e o ouvidor geral da comarca manifestaram contrários a criação da nova vila. Foi assegurada essa criação, mas “com a condição de se não levantar mais Villa alguma nas Minas que não fosse por ordem expressa da Côrte, salvo por urgência em casos especiaes”.[2] Ao longo do século XVIII, houve registros diversos contestando a criação de São José e principalmente sobre os limites de ambas partes, conforme o historiador Herculano Vellloso.
São João e São José – as duas vilas irmãs – constituíram o vasto território da Comarca do Rio das Mortes por longo período, até que em 20 de abril de 1789, após o malogro da Inconfidência Mineira, o Visconde Barbacena elevou o Arraial de São Bento do Tamanduá a vila[3]. Essa foi primeira emancipação e a última o Distrito de Santa Cruz de
4.
Minas, que se tornou município com a mesma denominação, em 21 de dezembro de 1995, tornando-se o menor do Brasil, com apenas 2,9 km2.[4]
A Vila de São José foi promovida, através da Lei 1.092, de 7 de outubro de 1860, com a denominação de cidade e município de São José del-Rei. E, logo no início da República, o Decreto Nº 3, datado de 6 de dezembro de 1889, mudou o nome da localidade para Tiradentes.[5] A mudança foi realizada a revelia da população que continuou usando por muito tempo São José, depois São José de Tiradentes e finalmente Tiradentes, conforme encontramos em diversos documentos, inclusive nos programas de festas religiosas.
A cidade de Tiradentes entrou no século XX mergulhada na profunda decadência econômica e foi descoberta pelo turismo na década de 1980. Curiosamente, entrou no século XXI como um dos mais desejados núcleos históricos do país; porém, consequentemente, tornou-se uma das cidades setecentistas mais ameaçadas, devido a falta de planejamento e a especulação imobiliária.
O positivo e o negativo se colocam na balança. Ganhamos e perdemos! Se o conjunto arquitetônico de Tiradentes está bem preservado e atrai turistas de todos os cantos, nos preocupa o crescimento desordenado, a falta de política para o trânsito, a agressividade da poluição visual e da poluição sonora, os tratores que removem a cobertura vegetal de áreas de preservação permanente. Tudo movido pela especulação e a vontade de ganhar todo dinheiro de uma vez só. É imensurável o empenho de meia dúzia de pessoas em desfigurar e inchar nossa querida Tiradentes. Uma pena!
Os tratores não param de retalhar a terra e criar loteamentos (sem infraestrutura). Hoje Tiradentes tem mais de três mil lotes disponíveis e centenas de outros estão por vir, brevemente, para uma demanda inexistente. Consequentemente, é grave o processo de gentrificação. O local que é para tudo é a própria desterritorialização.
5-
É a falta de identidade sobrepondo os diversos aspectos da cultura, da arquitetura, da história e do próprio homem.
Os investimos recebidos nos últimos vinte anos foram significativos, especialmente os oriundos dos projetos executados pela Fundação Roberto Marinho e pelo BNDES. Museus restaurados e implantados, as igrejas preservadas, o Chafariz de São José recuperado, o calçamento refeito, o Projeto de Educação Patrimonial que ofereceu muitas oportunidades de capacitação, além de belas e significativas publicações. O Plano Diretor Participativo coordenado pela Fundação João Pinheiro – por uma excelente equipe, e com ampla participação da comunidade, agora a espera de profissionais para olon-lo realidade.
O Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, também aniversariante de hoje, tem dado sua contribuição, especialmente como proponente de projetos do BNDES.
A cidade que tantos presentes recebe e não os valoriza, deve parar e refletir: o que somos, o que queremos, para onde vamos. Precisamos nos revestir de esperança e traçar um futuro para nossa cidade.
Hoje, 19 de janeiro, Tiradentes completa 298 anos de emancipação política, o melhor presente que a cidade poderia receber seria o respeito e o cumprimento da vasta legislação que a protege, só isto! Ninguém precisa inventar mais nada, basta o cumprimento das leis municipais, estaduais e federais.
Luiz Antonio da Cruz, 19 de janeiro de 2016
Livro 1º de Acórdãos e Criação da Vila de São José, 1718-1722. Arquivo IHGT. Documento transcrito por Antônio Geraldo da Cunha, lexicógrafo – Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1982.
A Festa de Passos através dos tempos
Olinto Rodrigues dos Santos Filho
Nos próximos dias 12 e 13 de março será realizada a tradicional Festa de Nosso Senhor dos Passos em Tiradentes. Oficialmente, a solenidade tem 295 anos, pois contamos a data de fundação da Irmandade do Bom Jesus dos Passos, em 2 de outubro de 1721, pelo cabido da Sé – Catedral do Rio de Janeiro, que estava em sede vacante, ou seja, não tinha bispo na sede da diocese. Mas é certo que a imagem já exista antes dessa data, e possivelmente a procissão.
Fazem a petição para a criação da irmandade o rico minerador João de Oliveira e outros. Foi João de Oliveira quem achou por volta de 1730 uma grande “mancha” de ouro no lugar conhecido como Cuiabá, nas barrancas do Rio das Mortes. No documento que ele manda a cúria do Rio de Janeiro diz que quer “erigir e criar uma Irmandade do Sr. Dos Passos pela muita devoção que tem a imagem deste Senhor por haverem mandado buscar, e por ficar mais conveniente quanto a este seu intento, há uma capela de Nossa Senhora do Bom Despacho naquele distrito e nela querem erigir e criar a dita Irmandade do Nosso Senhor dos Passos...”. Foi portanto a irmandade criada na Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho do Córrego, certamente erigida nos primeiros anos do Século XVIII, num plateau sobre a serra de São José. Hoje pode-se identificar o local onde há um poste de alta tensão, no final do calçamento de paralelepípedos na estrada velha entre Tiradentes e São João del Rei.
A Capela do Bom Despacho não teve muita sorte e caiu em decadência muito cedo, pois o ouro rareou no Arraial do Córrego e a população foi sumindo. Já em 1830, todo o acervo de imagens, prataria, paramentos foi recolhido pela Irmandade do Santíssimo Sacramento à Matriz da Vila de São José. Parte do acervo, como imagens e sino, foi emprestado a Capela da Santíssima Trindade e devolvido a Irmandade do Santíssimo por volta de 1852. Do acervo ainda se pode identificar um turíbulo com inscrição de 1746 e uma custódia de prata dourada, hoje no Museu da Liturgia. A imagem da padroeira sobreviveu no nicho da Sacristia da Matriz de Santo Antônio até os anos de 1960, de onde desapareceu entre 1966 e 1969. Não se sabe se foi furtada, emprestada, vendida ou doada por padres inescrupulosos e simoníacos.
Detalhe da imagem de N. Sra. Do Bom Despacho,
Fotografia de Edgard de Cerqueira Falcão,
do livro “Relíquias da Terra do Ouro”.
Voltando ao Senhor dos Passos, a Irmandade fez seu Compromisso (estatuto) com XVI capítulos neste ano de 1721, tendo sido aprovado em 25 de novembro de 1721, pelo cabido em mesa capitular, pois não havia ainda bispo residente. Em 1731, cinco capítulos foram reformados e aprovados pelo bispo D. Frei Antônio de Guadalupe, bispo do Rio de Janeiro, em 18 de setembro.
Em 30 de janeiro de 1778, o compromisso foi aprovado pelo Rei D. José I através da mesa de Consciência e Ordens. Novamente o compromisso é reformado em três capítulos e aprovado pela rainha D. Maria I, em 10 de julho de 1791. O mesmo compromisso foi visto em correição pelo juiz de direito da comarca em 1858, 1859, 1865 e 1868.
O fato é que com a decadência do Arraial do Córrego ou por motivos não esclarecidos, a imagem do Bom Jesus dos Passos se transfere para a Matriz de Santo Antônio entre 1727 e 1728, quando se cogita em construir um altar de talha para a entronização da imagem. Somente em 1737 a irmandade contrata a construção de um retábulo com Pedro Monteiro de Souza por seiscentas oitavas de ouro. O motivo alegado para se buscar a imagem do Senhor dos Passos na Capela do Córrego foi se fazer uma solene procissão, em março, para pedir as bênçãos do Senhor no sentido de aplacar a grande seca que assolou a região. Parece que a imagem veio em procissão do Córrego até a matriz e percorreu as ruas da vila.
Há aqui uma nota curiosa: é tradição mais que centenária que a imagem do Senhor dos Passos da Matriz de São João del Rei teria sido emprestada pela Matriz da Vila de São José, hoje Tiradentes e lá permanecendo. Coincidência ou não, a Irmandade dos Passos de São João del Rei será criada em 1734 e a imagem, ainda hoje lá cultuada, tem extrema semelhança com a imagem do Bom Jesus do Descendimento da Matriz de Santo Antônio de Tiradentes, nos mínimos detalhes como a conformação da face, olhos, boca, barbas, pés, mãos e dedos. Parece ser da lavra do mesmo santeiro. Sobre a origem da imagem, permanecerá no campo das tradições orais e lendas, até que se prove o contrário.
Imagem do N. S. dos Passos de SJDR,
Fotografia: Jacó, 2011.
N. S. dos Passos de SJDR. Foto de Francisco José dos S. Braga
Senhor do Descendimento, Tiradentes.
O Compromisso da Irmandade reza que a agremiação tinha a obrigação estatutária de promover três festas por ano: a primeira no dia 3 de maio, em comemoração da Invenção da Santa Cruz, o que quer dizer que se comemora o dia em que Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino, identificou a Cruz em que Jesus Cristo teria sido crucificado. Nesta solenidade, deveria o Santíssimo Sacramento estar exposto o dia todo e a tarde sair em procissão com “todos os irmãos com suas vestias roxas”. A segunda solenidade deveria ser no dia 14 de setembro, quando se comemora a Exaltação da Santa Cruz, ocasião na qual se “dirá uma missa cantada na capela e altar do Senhor” como se tem costumado fazer, assistindo os mesários com suas vestes roxas e os outros irmãos sem ela. Ainda no dia 14, se “cantarão solenemente as vésperas do ofício dos defuntos” e no dia seguinte, 15, se cantará o ofício “duplex com toda a solenidade, e com missa cantada, e sermão”. A terceira comemoração seria a Festa do Senhor dos Passos, com procissão na sexta-feira da segunda semana da quaresma e também deveria ser cantada uma missa solene, com o Santo Lenho exposto no lugar da imagem, pois esta estaria no andor para a procissão. A procissão seria tarde, com todos os irmãos “quando a irmandade por instituto próprio renova a memória dos (Passos) que o Senhor deu pelas ruas de Jerusalém em benefício da redenção de todo o gênero humano”. A imagem só poderá sair em procissão fora desta data por decisão da mesa “em tempo de pública e extrema necessidade espiritual ou temporal”.
O curioso é que, certamente, a partir de 1727, quando a Imagem vem para a Matriz, a Festa e a procissão do Senhor dos Passos se faz sempre no Domingo de São Lázaro, que antecede ao Domingo de Ramos e assim se mantém até hoje, com exceção dos anos que houve Semana Santa completa, no século XX, após a extinção da Irmandade.
Originalmente, a festa era organizada com missa solene cantada pela manhã e com sermão (não havendo missa após o meio dia); a tarde, por volta das 15 ou 16 horas, a procissão do Senhor dos Passos saía da Igreja Matriz pela Rua do Sol (hoje Rua Padre Toledo), onde haviam dois (2) Passos, passando pelos Três Cantos, seguindo pela Rua Direita, onde há dois (2) Passos, atingindo os Quatro Cantos, descendo a Rua do Chafariz até o Largo do Ó, onde há um Passo e subindo pela Rua Jogo de Bola (ou de trás) até o Largo do Pelourinho, onde há outro Passo, subindo pela Rua da Câmara, até atingir a Igreja Matriz de Santo Antônio, onde era o último Passo.
Nessa época, não havia ainda o encontro com a Virgem Dolorosa. Os passos originalmente eram montados nas ruas e porta da igreja, com telas pintadas, e só em 1745 se começou a construção das capelas.
Com incremento do culto a Nossa Senhora das Dores pelos padres oratorianos em fins do século XVIII, especialmente de Braga, foram surgindo as Irmandades e imagens da Virgem Dolorosa e se instituiu o Encontro do Senhor dos Passos com Nossa Senhora das Dores, fato não relatado nos evangelhos. Aqui, na Vila de São José, a introdução do Encontro vem após a criação da Confraria de Nossa Senhora das Dores, em 1801, e o término das obras da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. Em 1807, decidiu a irmandade fazer o Depósito da Imagem do Senhor dos Passos para a Capela da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, no sábado, retomando a Procissão do Senhor no domingo para o Encontro com a Virgem Dolorosa, que saía de sua sede, a Igreja de São João Evangelista, encontrando em frente à Cadeia. Portanto, o Depósito e o encontro completarão este ano, 2016, 209 anos.
Livro de Estatuto da confraria de N. Sra. Das
Dores, 1801. Desenho de Manoel Victor de Jesus
Com a mudança do trajeto da procissão, os dois Passos da Rua do Sol perderam a função, tendo a Irmandade decidido demoli-los e guardar os painéis no consistório. Diz o acórdão que um dos Passos era impróprio por ser do Senhor Morto. Na mesma reunião, decidiu-se construir um Passo novo no largo da Rua das Forras para completar os sete (7), pois o primeiro era montado na entrada da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e o último na entrada da Igreja Matriz de Santo Antônio, com os painéis que ficaram guardados, hoje não mais existentes.
De um dos Passos da Rua do Sol sobreviveu apenas o cômodo, sem o retábulo e o forro. Recentemente, retornou o uso para a Via Sacra, após limpeza, pintura, colocação de forro, restauração de telhado, rebocos e porta feitos pelo vizinho, cuja casa envolve o antigo Passo. Esse Passo abandonado já serviu como abrigo a uma senhora indigente e como depósito de materiais e ferramentas da prefeitura no tempo em que Heitor Silva era fiscal municipal. Parece que o seu retábulo foi reutilizado para o nicho de Nossa Senhora das Dores processional, colocado no Consistório da Confraria na Igreja de São João Evangelista, hoje em processo de restauração. A peça é em tudo semelhante aos dos Passos mais antigos (Rosário, Largo do Ó e Largo do Pelourinho). Poderá ser atribuída a lavra de João Ferreira Sampaio, pois os outros são de sua autoria.
A Festa de Passos desde 1807 permanece da mesma forma, saindo o Senhor dos Passos em depósito para a Igreja das Mercês no sábado, envolto em Velário roxo. Na Rua das Forras (atual Resende Costa) é feito o encontro com a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, que o cobre com seu pálio e toma o andor para conduzi-lo até sua capela. Neste momento, o Santo Lenho é incensado sobre o andor. Chegando à Igreja de Nossa Senhora das Mercês o Velário é descerrado ao som de um moteto, geralmente “Popule Meus”. Recentemente, recuperou-se o Sermão do Pretório, logo após a entrada do Depósito, tradição que ficou perdida por mais 80 anos.
No domingo, às dez horas, é celebrada a Missa Solene, que tem assistência da Orquestra e Coro Ramalho desde meados do século XIX. A missa é precedida de Rasoura, uma pequena procissão em volta da igreja, quando a imagem do Senhor dos Passos é conduzida pelos irmãos das Mercês, tradição que data do século XIX.
As seis horas da tarde, sai a procissão do Senhor dos Passos, parando nas capelas, onde são entoados os Motetos de Passos, com sopro e vozes. Os motetos originais eram de autoria de Manoel Dias de Oliveira (1735-1813) e foram substituídos pelos atuais, datados do fim do século XIX, de autoria de Antônio Pádua Falcão (1843-1927). Ao mesmo tempo, sai da Igreja de São João Evangelista a procissão de Nossa Senhora das Dores, que vai encontrar a imagem do Senhor dos Passos no Largo do Rosário, onde é recitado o Sermão do Encontro. Originalmente, o andor da Virgem era conduzido pelos confrades de Nossa Senhora das Dores, com opas roxas e azuis, e hoje é conduzido pelos irmãos de São João Evangelista, com opas verde-vermelhas. Acompanha a Virgem os figurados São João Evangelista e Santa Maria Madalena. Figurados são pessoas com vestes a caráter representado os santos. A Madalena veste túnica e manto e leva um diadema na cabeça. Deve ter cabelos longos, para lembrar a mulher que enxugou os pés de Jesus com os cabelos. Trás nas mãos uma naveta com incenso, em alusão ao óleo perfumado com que ungiu os pés de Cristo. João veste a túnica e manto verde e vermelho, suas cores iconográficas, e trás seus atributos, livro dos evangelhos e pena para escrever.
Após o Sermão do Encontro, o coro entoa o “Miserere” de Manoel Dias de Oliveira e a procissão prossegue parando nos outros dois Passos, agora com o andor de Nossa Senhora junto, até recolher-se a Igreja Matriz de Santo Antônio, onde é cantado o último moteto e é recitado o Sermão do Calvário, com a cena da gólgota montada na tribuna do altar mor da igreja. Termina a solenidade com o tradicional beijo às imagens por todos os fieis.
Em alguns anos, após a extinção da Irmandade do Bom Jesus dos Passos, a Festa de Passos foi incorporada a Semana Santa, sendo realizada na segunda e terça-feira. Isso aconteceu por insistência dos párocos pelo menos nos anos de 1920, 1945, 1948, 1952 e 1968. Nos demais anos, desde 1727, sempre foi feita no Domingo de São Lázaro.
A Solenidade dos Passos reveste-se de grande apelo aos sentidos, sendo muito cara aos cidadãos tiradentinos. A Banda de Música Ramalho, durante o trajeto, executa marchas fúnebres de autores locais de fins do século XIX e início do XX, quando as bandas foram introduzidas nas procissões. Originalmente, as procissões não eram acompanhadas de bandas porquê essas só foram criadas no século XIX, as procissões eram abertas por trombeteiros e, durante o trajeto, o coro entoava motetos. Entre os compositores estão Francisco de Paula Vilela, Benjamim e João Andrade Gomes, José Lino de Oliveira França, entre outros. A Orquestra e Coro Ramalho executa peças dos séculos XVIII e XIX, nas missas de sábado e domingo, e os motetos da procissão, já referidos. Na missa de domingo, costuma-se executar trechos do Ofício de Trevas, de autoria do Pe. José Maria Xavier (1819-1887). Os camarins dos retábulos, assim como os crucifixos das banquetas, ficam velados com panos roxos. As cruzes processionais também são cobertas por panos roxos, como os frontais de altar. Os pisos das igrejas são cobertos por rosmaninho, planta cheirosa, nativa da região. Os andores são enfeitados com muito manjericão e alecrim, para criar o perfume típico das procissões da Paixão. A cruz do Senhor dos Passos é enfeitada com uma grande “palma” de orquídea típica da região, a “Cattleya loddigesii”, em tons violeta. As imagens vestem túnicas roxas com rendas e bordados em fios de ouro, assim como as sanefas do andor de Passos. Completa essa encenação de cunho barroco o dobre fúnebre dos sinos das igrejas Matriz de Santo Antônio, Nossa Senhora das Mercês, São João Evangelista e Nossa Senhora do Rosário, além das nuvens de incenso que sobem dos turíbulos e das luzes das velas, ciriais e lanternas que iluminam as procissões. A Festa de Nosso Senhor dos Passos é, sem dúvida, a mais bela e comovente solenidade do Ciclo da Paixão em Tiradentes, que certamente já passa dos 300 anos.
Nesse ano de 2016 pregará os sermões o reverendíssimo Arcebispo metropolitano de Juiz de Fora, D. Gil Antônio Moreira, titular da província eclesiástica da qual é sufragânea a diocese de São João del Rei, a qual pertence a paróquia de Tiradentes.
A FESTA DOS PASSOS E A INCONFIDÊNCIA MINEIRA
A Irmandade do Bom Jesus dos Passos congregou no séc. XVIII os homens de destaque na sociedade, como os militares, os ricos mineradores e os sacerdotes mais ilustrados. À Irmandade pertenceu o avô de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Domingo Xavier Fernandes, assim como o pai do alferes, Domingos da Silva dos Santos. Também se alistaram como irmãos o vigário inconfidente Castro Correa de Toledo e Melo (1731-1804), o capitão José de Resende Costa, também envolvido no frustrado levante. Todas essas pessoas contribuíram com suas esmolas para a realização da Festa do Senhor dos Passos e vestiram a opa roxa para acompanhar a procissão.
Forro da Sala de Jantar do Vigário da Vila de São José,
entre 1777-1789, Padre Corrêa de Toledo
Mas um fato liga definitivamente a procissão de Passos à Conjuração Mineira. Três foram os principais denunciantes ou delatores da conjuração: Joaquim Silvério dos Reis Montenegro, conhecido na época como Joaquim Saltério; Basílio de Brito Malheiros do Lago e o mestre de campo Inácio Corrêa Pamplona. Na carta denúncia de Pamplona, datada de 20 de abril de 1789, escrita na sua Fazenda do Mendanha, próxima a capela de Santo Antônio da Lagoa Dourada, pertencente ao território da antiga Vila de São José, ele conta “que no dia 29 de março, fui convidado pelo reverendo vigário, Carlos Corrêa de Toledo, para a Semana Santa a dita vila; e fui a procissão dos Passos, onde o dito vigário me disse em conversa que se tratava de um levante, havendo leis, o general deposto, estando falado o Regimento, parte dele; no Rio, um alferes fazendo séquito... E como era dia de sermão e de noite fomos visitar as igrejas, não deu tempo para mais...” Portanto, o Padre Toledo aliciou um dos delatores durante a procissão de Passos. Em outra parte dos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, uma testemunha disse que Pamplona chegou a andar sobre o pálio, cochichando com o Padre Toledo. No depoimento de Pamplona, em 30 de junho de 1789, ele repete mais ou menos a mesma coisa, só acrescentando que o “Alferes Joaquim José, por alcunha Tiradentes, se achava no Rio de Janeiro a fazer séquito...”
Reflexos da arquitetura eclética na cidade de Tiradentes
Autor: Olinto Rodrigues dos Santos Filho
Embora grande parte ou a maioria esmagadora das construções do núcleo histórico de Tiradentes date do século XVIII e XIX, algumas casas setecentistas ou oitocentistas passaram por reformas superficiais ou uma espécie de “maquilagem” para dar um ar mais atualizado as velhas construções. Em sua maioria acrescentou-se uma nova cimalha, sobrevergas alteadas, detalhes de “vistas” das ombreiras e vergas de janelas e portas em argamassa.
Na rua da Câmara podemos citar primeiramente a casa de José Batista de Carvalho – “Sô Zequinha” – que teve a reconstrução de uma cimalha perfilada de gosto eclético (n° 03), a casa de Regina Conceição (n° 16) que teve a altura da fachada aumentada, introdução de faixa decorativa acima das sobrevergas, porta foi deslocada para a lateral e as quatro janelas da frente tiveram os aros substituídos por modelo mais verticalizado e com sobrevergas alteradas, com detalhe de argamassa. Possivelmente foi aumentado um vão. Hoje o telhado e fachada foram novamente rebaixados.
Ainda na mesma rua, (número 08), o caso mais radical é da casa de Joaquinzinho Ramalho, em que todos os aros de portas e janelas foram retirados e introduzidos guarnições internas, sendo a frente preenchidas com “vistas” de massa apresentando detalhes ecléticos. As folhas das portas e janelas foram substituídas por portas do tipo calha usual no século XIX e início do XX. Foi ainda introduzida uma cimalha perfilada, muito detalhada assim como os cunhais vazados. É curioso que a porta secundaria que dá para rua Padre Toledo continua original, de saia-camisa, com socos de pedra e portais maciços.
A casa de Vicente Guerra, (número 58), passou por reforma nos cunhais e a beira seveira foi substituída por uma cimalha perfilada.
Na rua Direita, número 40 a casa, teve sua fachada reformada na década de 1910/20, mas manteve as janelas e portas antigas, só acrescentando sobrevergas alteadas e introduzindo cimalha perfilada de gosto eclético.
Em 1921, foi construída sobre alicerces antigos uma pequena oficina de ourives de Galdino Rocha, com fachada de gosto eclético, duas janelas frontais e entrada lateral. Tanto nos cunhais como nos embasamentos existem almofadas e molduras. As molduras das janelas descrevem losangos. O entablamento em cimalha e pequena moldura sustentam o frontão ou empena, com almofadas, círculo com monograma do proprietário (GR), terminado em curva decorado com três pinhas de cerâmica. É curioso que o telhado continuou em telha canal enquanto a cobertura do frontão é em telha marselhesa. Hoje o sentido da cumeeira foi invertido, ficando paralela a rua.
Ainda na rua Direita, o sobrado que pertenceu a Eloisa Hellow, teve o beiral decorado com lambrequins. Esta casa ruiu na década de 1950 e foi recentemente reconstruída, sendo hoje a Pousada Padre Toledo.
Na rua Padre Toledo, existe um sobrado colonial, de número 76 em que toda fachada foi refeita ao gosto eclético, inclusive com a introdução de um portão lateral de ferro. No térreo e três vãos com verga de volta inteira, com molduras de argamassa. Os vãos se repetem na parte superior com sacadas entaladas com gradil de ferro e uma cimalha muito detalhada coroa a fachada. Internamente manteve-se o aspecto colonial. Nas fachadas laterais foram abertos os vãos de ventilação e iluminação com verga em ângulo agudo, lembrando o neogótico. Esse sobrado que ultimamente pertenceu a Arquiconfraria da Santíssima Trindade era pintado em amarelo com relevos claros e após a última reforma foi pintado de rosa forte, um tanto destoante do conjunto.
Ainda onde é a pousada Richard, número 124, existiu uma casa mais baixa e menor com entrada lateral e frontão triangular, com molduras de gosto eclético, demolida por volta de 1966, para dar lugar a construção de um pastiche de colonial com águas furtadas e janelões desproporcionais, tudo em cimento. A casa construída por Paulo Boujanic destoa do conjunto urbano, seja pelas aguas furtadas, seja pelas proporções.
A expressão “águas furtadas” tem origem na língua portuguesa e pode ter sido uma adaptação do francês “eaux furtées”. O termo “furtado” era utilizado para descrever os espaços escondidos e ocultos sob os telhados inclinados, normalmente utilizados para armazenar objetos ou como espaço para pequenos aposentos, como sótãos.
Em 1917 a Câmara Municipal de Tiradentes recebeu em doação de Policarpo Rocha, o prédio da casa do Padre Carlos Correia de Toledo Melo (1731/1803) e para lá transferiu a sede da Câmara e Agência Executiva, depois de 1930 a Prefeitura. Lá também se instalou um salão para festas, bailes, teatros e cinema. Nessa época a câmara promoveu uma reforma que na verdade reduziu-se ao sobrado (torreão) construindo um frontão eclético com beirais em lambrequins e agulha central. As janelas foram deslocadas para ficaram equidistantes e introduziu-se vidraças de abrir para fora, com vidros maiores semelhantes a Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM). Sobre as janelas do sobrado haviam sobrevergas alteadas, uma cimalhinha delimitando a empena e ao centro um círculo com as iniciais em massa CM (Câmara Municipal). Ainda foi aberto uma porta lateral e construída uma escada em tijoles queimados e cimento, com corrimão de ferro. A entrada da Câmara era independente do cineteatro, que se fazia pela porta original. Foi nesse momento que os paus-a-pique das paredes do sobrado foram substituídos por tijolos maciços e a parte inferior encamisada com os mesmos tijolos. No portão principal à direita foram colocadas compoteiras de cimento sobre os pilares. Sobre cada janela foi colocado um braço de latão com tulipa de vidro para iluminação externa, também foram abertas ventilações sobre o piso feitas com manilhas de cerâmica executadas na Cerâmica Progresso de Alberto Paolucci. O prédio foi pintado de cor próximo ao rosa, com os cunhais, aros das janelas e relevos em branco, para dá um aspecto eclético ao prédio. Em restauração feita pelo SPHAN, em 1944 o prédio voltou a sua feição original.
Voltando a rua da Câmara e Chafariz vamos ainda encontrar uma intervenção eclética na fachada do número 88, quando a porta principal foi levada para a lateral e as três janelas tiveram as ombreiras, vergas e peitoris substituídos por molduras de argamassa, com sobrevergas alteadas e construção de cimalha perfilada, obra feita entre 1910 e 1920.
Realmente construídos em estilo eclético foram o prédio da Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) em 1880/1881; o Chalé do Padre João Batista Fonseca, na atual rua Ministro Gabriel Passos (Praia) e a casa de Estevão Martins, na antiga rua do Areão, atual Inconfidentes n° X.
O chalé do Padre João Batista da Fonseca foi construído nos últimos anos do século XIX, em um grande terreno, “na praia”, antes logradouro público, as margens do Ribeiro Santo Antônio. A planta é simples, descrita em retângulo, com duas salas (visita e jantar) a direita e os quartos a esquerda, tendo aos fundos a cozinha e despensa. A fachada sobre embasamento alto apresenta quatro janelas verticalizadas com detalhes e molduras em argamassa, com vidraças de grandes caixilhos e um frontão triangular tendo no vértice e extremidades agulhas de cerâmica. A entrada se faz pela entrada lateral com degraus de cimento, hoje por pequeno alpendre. A cobertura em duas águas perpendicular à rua é feita com telhas do tipo marselhesa. Internamente a casa tinha assoalhos de pinho de Riga e barrado pintado em marmorizados. Hoje apresenta acréscimo posterior, além do referido alpendre. Havia ainda um velho portão de ferro batido assentado em pilastras de alvenaria e pequena ponte sobre um rego que passava próximo ao portão. O Padre Joao Batista da Fonseca, foi presidente da Câmara e agente executivo em Tiradentes por volta de 1915, quando se inaugurou o abastecimento de agua canalizada na cidade; posteriormente foi capelão da ordem 3° do Carmo de São João Del Rei.
Outro exemplar sobrevivente data de 1925 e foi construído para residência do português Estevão Martins que aqui aportou nos anos de 1920, se casou deixando logo depois a família e retornando a Portugal, segundo dizem, por ter contraído muitas dívidas. A casa passou para domínio de um banco e pertenceu depois a Francisco Lucinda e a seu genro Pedro Ferreira Barbosa, atualmente propriedade de Vanilce Barbosa.
Fotografia de Estevão Martins, 1920, construtor da casa acima, acervo particular
Construída com planta em retângulo perpendicular à rua, assim como a cumeeira sendo a cozinha em corpo anexo, mais baixo. A cobertura em duas águas é de telha do tipo marselhesa, com beirais em ponta de caibros e proteção em tábuas. A entrada se faz por porta lateral acessada por três degraus de cimento em semi-circulo. As janelas laterais verticalizadas perderam-se todas. O que se mantem integro é a fachada com embasamento alto chapiscado, com aberturas de ventilação gradeadas. Dois Cunhais em relevo sustentam a cimalha perfilada, que enquadra quatro janelas verticalizadas, com folhas de calha e caixilhos de guilhotina. As molduras das janelas são de argamassa, com sobrevergas alteadas sobre pequenas mísulas ou modilhões fitomorfos. Sob as janelas aparecem almofadas com as quinas quebradas em quarto de círculo. Sobre a cimalha apoia-se o frontão ou empena curva tripartida decorada com molduras e a coberta de telhas capa e canal, tendo nas extremidades duas pinhas de cerâmica. Ao centro havia uma águia, hoje desaparecida. Ainda no frontão aparecem relevos de olonials na parte inferior e ao centro com um brasão de armas da república brasileira (estrela com círculo azul ladeadas por ramos de café e fumo. Aos lados olonialses, aparecem as iniciais do construtor E.M. (Estevão Martins) e a data de 1925.
Originalmente havia um portão de ferro lateral, com as mesmas iniciais na parte posterior, assentado em pilastras com dois leõezinhos de cerâmica e a direita um falso portão em cujas colunas haviam pinhas. O interior era assoalhado de tabuas estreitasas (20 ou 25cm) e no hall de entrada, sala frontal e quartos havia uma barrado pintado à imitação de mármores coloridos com desenhos de almofadas.
Hoje a casa acaba de passar por restauração e adaptação para comercio, após longo período de degradação.
Na mesma rua, logo abaixo, no caminho da estação existiu até a década de 1980 a casa de Francisco Ferreira de Morais, o Chico do Cesáreo e de Jeny Morais Batista, onde havia armazém de secos e molhados e casa de vivenda. Esta construção tinha duas portas na frente e uma janela. A entrada da residência fazia-se pela lateral, através de um alpendre com pinturas de paisagem na parede. A janela dava para sala de visitas e as portas para a varanda. A empena da fachada tinha recortes, relevos e almofadas e terminava em curvas com três pinhas de cerâmica. A esquerda ficava o armazém ou deposito de gêneros alimentícios, com telhado paralelo a rua e janelas tradicionais. Tratava-se de uma casa antiga, possivelmente do século XIX que teve a fachada reformada ao gosto dos anos 1920.
A Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) foi construída por volta de 1880, sendo inaugurada em 28 de agosto de 1881. A edificação original era menor que a atual, pois só existia o antigo armazém e a agência que hoje fica no centro do prédio. Os dois cômodos à direita parecem que foram acrescidos ainda no século XIX e a área de cozinha e dispensa (hoje banheiros) já no século XX. O prédio segue o mesmo estilo das estações com telhado em duas aguas com telhas francesas, duas empenas com óculo e cimalhas. Os beirais todos contornados por lambrequins de madeira recortada, hoje em parte perdido. O embasamento em pedra é alto devido as enchentes do Rio das Mortes. Portas e janelas são do tipo calha, com caixilhos de grandes vidros, com molduras de massa no terço superior. Há barrado de chapisco voltado para a plataforma. Esta é acoplada a casa com piso de cimento liso, estrutura de trilhos, telhado em duas aguas, originalmente de telhas de barro francesas, hoje substituído por telhas vermelhas de amianto em losangos imitando telhado de ardósia. Um jardim típico dos anos 1920 foi acrescido ao conjunto. A arquitetura das estações influenciou sobremaneira as reformas e novas construções, com empenas voltadas para a rua, molduras de massa nas portas e janelas e lambrequins nos beirais.
Estação de Tiradentes foto de 1920, ainda com os lambrequins na empena do telhado principal
Entre 1938 e 1942 foi construída uma casa de Teófilo Reis na atual Rua dos Inconfidentes n° 211 cuja fachada de influência eclética e de gosto popular foi pintada de verde e amarelo como a bandeira do Brasil. Duas janelas com molduras de massa e caixilhos de grandes vidros preenchem a frente. A porta de entrada é lateral precedida de alpendre.
Sob as janelas há uma grande almofada de massa. Dois cunhais sustentam uma cimalha estreita perfilada e frontão em dois semicírculos com relevos de leques encimados por agulhas de cerâmica. No centro do frontão há uma peanha e coifa metálica onde havia a figura de cerâmica de um índio ligado a Umbanda e sobre a entrada do alpendre nicho com as figuras de Pai João e Mãe Maria, também da Umbanda. As iniciais do proprietário e as datas estão em relevo no frontão, como divisa “Vila fé em Deus”. Esta casa de gosto popular se manteve integra externamente, com exceção das figuras de umbanda, desaparecidas.
Sobrevive ainda na rua Antônio Teixeira de Carvalho n° 113 a casa construída por Joao Gonçalves de Moura, nos anos 1930, do tipo bangalô, com empena simples, alpendre embutido no corpo da construção. O muro baixo com faixas em relevo dão charme a construção, com pequeno jardim à entrada.
Na cidade não existe e parece que não existiu construções de gasto “art décor” com exceção de duas sepulturas no cemitério da Matriz, da família de José Cândido da Silva. Houve ainda um pequeno portão de ferro n primeira casa da Rua Silvio de Vasconsellos, pertencente ao Antônio Gonzaga Teixeira (o Canarinho) hoje de Eros Grau. O portão foi retirado e está desaparecido.
Um curioso exemplar de arquitetura popular modernista sobrevive na rua dos Inconfidentes n° 317, de Nilber Barbosa. A fachada com colunas copiadas dos palácios de Brasília, grandes panos de vidro e telhado de laje plana, com platibanda em ângulo central que remete a linguagem modernista e incorpora revestimento em pedra da Serra de São José, muito usada nos anos 1960 e 1970, para revestimento decorativo.
Fora do núcleo urbano podemos citar a estação de trem de Cezar de Pina e as casinhas adjacentes, a primeira construída em 1923, no eclético típico das estações. Existiu ainda a bela estaçãozinha de Águas Santas, demolida em 1966, que tinha empenas de ferro ou madeira recortada e paredes de “enxaimel”.
No mesmo povoado de Águas Santas duas construções de apuro ligam-se ao ecletismo: a capela de Nossa Senhora da Saúde inaugurada em 1915 e o prédio do balneário construído por volta de 1908/1910, com portadas em arcos de volta inteira. A capela está totalmente descaracterizada e o balneário foi demolido para construção de novo prédio na década de 1960.
Ainda na região da “Caixa d’água da Esperança” pode-se ver ainda a casa de David Silveira, com frontão eclético e cimalhas perfiladas. Ainda nessa região existiu o chalé da Baronesa de Santa Maria ou fazenda da Esperança, construído por volta de 1860/70 em estilo neoclássico/eclético, com fachada apresentando frontão triangular, três ou quatro janelas rasgadas com sacada entalada, entradas laterais com escadas de pedra e gradil de ferro. O embasamento era alto e casa possuía um pátio interno, do tipo jardim de inverno. Infelizmente a casa foi demolida no início da década 1980 e o material vendido, sobrevivendo apenas os alicerces. Enfim há ainda alguns exemplos de inicio do século XX, tanto nas Águas Santas quanto na zona rural do município.
Postado por IHGT às 6/29/2017 04:44:00 PM Um comentário:
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20.4.17
No texto abaixo vemos a importância nacional voltada para o nome Tiradentes, sendo assim, já há um movimento orgânico voltado para aquela cidade que confere movimento turístico espontâneo .
No Brasil, o dia 21 de abril é uma data importante e é celebrado como o Dia de Tiradentes. Essa data é dedicada a Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, um dos líderes da Inconfidência Mineira.
A Inconfidência Mineira foi um movimento ocorrido em 1789 na região de Minas Gerais, durante o período colonial brasileiro. Os inconfidentes, entre eles Tiradentes, protestavam contra a opressão colonial e lutavam pela independência do Brasil.
No dia 21 de abril de 1792, Tiradentes foi executado, sendo enforcado e esquartejado. Apesar disso, ele se tornou um símbolo de luta pela liberdade e pela independência do Brasil. Atualmente, o Dia de Tiradentes é feriado nacional e é uma ocasião para homenagear e lembrar o sacrifício de Tiradentes e o desejo por um país mais justo e livre.
Nesse dia, são realizadas diversas manifestações, eventos cívicos e culturais em várias partes do Brasil. É um momento para refletir sobre a história do país, a importância da luta pela independência e o valor da liberdade.
Busto de Tiradentes de Alberto Delpino, 1884.
Óleo sobre cartão. Acervo do IHGT.
O dia 21 de abril marca a memória da morte por enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha ou apelido “O Tira-dentes”, como se escrevia no século XIX. A comemoração do 21 de abril vem de longa data na história do Brasil. Já em 1867 o governador da Província de Minas Gerais, Saldanha Marinho, mandou construir em Ouro Preto uma coluna em homenagem ao Tiradentes. Esse foi o primeiro monumento aos inconfidentes, ainda no segundo reinado. Em 1894, ela foi retirada para dar lugar ao monumento atual e andou perdida, até voltar para Ouro Preto e ser colocada na praça da Barra.
No Rio de Janeiro, fez-se um movimento nos fins do século XIX para erguer uma estátua de Tiradentes, mas não saiu na época. A campanha republicana que contava com intelectuais e jornalistas adeptos ao positivismo reergueu a imagem do Tiradentes como mártir e o elevou-o a símbolo da república. Silva Jardim (Francisco de Paula Ribeiro, conhecido como Silva Jardim, foi um importante político, advogado e jornalista brasileiro. Ele nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 1860, e faleceu em 1944. Embora tenha nascido no Rio de Janeiro, Silva Jardim teve uma atuação política destacada em Minas Gerais durante o final do século XIX.
Silva Jardim foi um fervoroso defensor da República e teve participação ativa na campanha pela derrubada da Monarquia no Brasil. Ele desempenhou um papel importante na articulação política e na mobilização popular durante a transição do regime monárquico para o republicano, que ocorreu em 1889.
Além disso, Silva Jardim foi um dos líderes do movimento abolicionista no Brasil, lutando pela emancipação dos escravos e pela igualdade racial. Ele defendeu ardorosamente a causa abolicionista por meio de discursos e artigos em jornais, utilizando sua oratória e escrita para conscientizar a população sobre a injustiça da escravidão.
Silva Jardim também foi um crítico ferrenho da corrupção e da oligarquia política vigente, lutando por uma política mais democrática e participativa. Ele exerceu diversos cargos públicos ao longo de sua carreira, incluindo deputado federal e senador.
Em suma, Silva Jardim foi um importante líder político do final do século XIX, com atuação significativa na defesa da República, na abolição da escravatura e na luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Sua contribuição política foi marcada por suas ideias progressistas e seu engajamento na transformação social do Brasil.
), que sugeriu a troca do nome de São José del Rei para Tiradentes, em 1889 fez discurso sobre a figura do Tiradentes, publicada em opúsculo em 1890.
Em 1872 chegou-se a publicar um manifesto ao povo brasileiro pelo Dr. Pedro Bandeira de Gouveia, conclamando a fazer uma subscrição popular para ereção de uma estátua do Tiradentes.
Nas comemorações do Centenário de Morte de Tiradentes, o Clube Tiradentes promoveu várias comemorações, inclusive uma procissão cívica com o busto do herói levando em andor. Como não havia retrato do mártir a ideia foi liga-lo a figura do Messias, surgindo daí a representação de Tiradentes identificado com Cristo, com longa cabeleira e barba desgrenhada. A representação no patíbulo, esquartejado de Victor Meirelles lembra a cena do Calvário.
Na cidade de São José del Rei, desde a década de 1880, se fazia sessões cívicas, conferências e visitas a Casa do Padre Toledo, que acreditava-se à época ser do próprio Tiradentes. Por volta de 1889 foi localizado o inventário dos bens dos pais do Tiradentes, no cartório local, documento esse que foi entregue ao Dr. Sampaio Ferraz pelo maestro e compositor Francisco de Paula Villela e depois doado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde se encontra.
Poesia copiada por Dulce Fonseca para o
uso de seus alunos no Grupo Escolar.
livro que pertenceu a Professora Dulce Fonseca, 1917,
usado no Grupo Escolar de Tiradentes para os auditórios.
Em 1892, quando se comemorou os 100 anos de morte do Alferes Tiradentes, foi montada uma “Sociedade Comemorativa do Centenário de Tiradentes”, com muitos sócios contribuintes, presidida pelo comendador Carlos José de Assis (1825-1893) que promoveu grandes comemorações à época com missa de réquiem na Matriz, sessão cívica, procissão cívica, etc. Nesta época se construiu uma coluna em homenagem ao Tiradentes no Largo da Independência, hoje Largo das Forras. Ainda lá se encontra o monumento tombado pelo município, com sua lápide escrita em língua latina. Era nesse monumento que se comemorava o 21 de abril, com os alunos das escolas, depois do grupo escolar e as conferências eram na Casa do Padre Toledo, então sede da prefeitura e câmara.
Termo de abertura do livro de contas da Sociedade Comemorativa do
Centenário do Tiradentes, assinado pelo Comendador Assis
e datado de 02 de fevereiro de 1892. Acervo do IHGT.
Só a partir de 1962 quando instalado o busto de Tiradentes no Largo do Sol é que pra lá se deslocaram as comemorações. O busto foi esculpido pelo artista José Morais, que veio para a cidade para restaurar a talha e pintura da Igreja Matriz em 1961/1962. Havia na época sessão cívica, desfile das escolas e outras solenidades. A partir do Governo de Israel Pinheiro a “Semana da Inconfidência” tinha início em Tiradentes, com o acontecimento Pira da Liberdade, cerimônia essa que foi suprimida pelo governador Aécio Neves da Cunha. Hoje as comemorações do 21 de abril tem sido muito pálidas e sem entusiasmo.
Protótipo do busto de Tiradentes, esculpido por
José Morais, colocado na Praça D. Delfim Ribeiro Guedes,
hoje Largo do Sol, atualmente no largo da Câmara.
A figura do Tiradentes foi usada por todos os movimentos políticos, tanto de esquerda quanto de direita, assim como por várias instituições. É patrono da Polícia Militar de Minas. É cultuado pela maçonaria. Na ditadura militar foi decretado patrono cívico da nação brasileira, em 1965. O feriado do 21 de abril já havia sido criado por lei em 1949 e 1950. Todos os políticos gostam de usar a figura ímpar do altaneiro Alferes, que hoje deveria ser exemplo para nossos políticos corruptos. Juscelino Kubistchek criou a medalha da Inconfidência e inaugurou Brasília no dia 21 de abril. Tancredo usou o nome do herói em sua campanha e em seus discursos, e fizeram-no morrer no 21 de abril e Tancredo Neves faleceu no dia 21 de abril de 1985. Ele foi um político brasileiro e foi eleito indiretamente como o primeiro presidente civil após o período da ditadura militar no Brasil.. Itamar Franco mandou por seu busto no Palácio do Planalto. E quem mais irá usá-lo?
Que a figura altaneira, idealista, sem medo e grande propagador das ideias libertárias possa de fato ser exemplo para nossos governantes nestes tempos tenebrosos de falta de amor à pátria e a coisa pública que vivemos.
Quem veio à Tiradentes foi seu vice, Itamar, mineiro sério e patriota. Lembro ainda que Joaquim José nasceu na margem direita do Rio das Mortes, no Pombal, então distrito da Vila de São José, onde viveu até os 20 anos de idade. Seu avô, Domingos Xavier Fernandes era homem público já em 1718, pois foi o primeiro tesoureiro da câmara da Vila de São José. Antônia da Encarnação, mãe do Alferes, nasceu na Vila de São José del Rei, em 1721, tendo sida batizada na Matriz de Santo Antônio e lá mesmo se casou em 1738 com o português Domingos da Silva dos Santos, que exerceu a vereança por um biênio (1755-1756), além de ter sido Almotacel, ou seja, cobrador de impostos. O avô e o pai foram irmãos da Irmandade do Bom Jesus dos Passos. O casal Domingos e Antônia tinham duas casas no centro da vila para frequentarem a igreja aos domingos, como consta no inventário deus bens. Enfim, toda a ligação da família do Tiradentes era com a Vila de São José e nada mais justo foi ter dado o nome do herói a esta cidade, berço da liberdade brasileira.
No dia 21 de abril de 2017, o IHGT fará Sessão Solene em homenagem ao Tiradentes, no Sobrado Ramalho, às 18 horas.
Coluna em homenagem ao Centenário de Morte do Tiradentes
erigida em 1892 na Praça da Independência, atual Largo das Forras,
tendo sobre a Coluna um busto do Tiradentes, em cimento, feito por
Antônio Ferreira Gomes, em 1934. Encontra-se em posse da Prefeitura.
A modernidade de Roberto Burle Marx em Tiradentes
Luiz Antonio da Cruz*
O multiartista Roberto Burle Marx (1909-1994) nasceu em São Paulo, filho do alemão Wilhelm Marx e da pernambucana Cecília Burle. Bem jovem foi estudar na Alemanha e lá descobriu a beleza das plantas brasileiras. Ao retornar, executou seu primeiro projeto paisagístico, na Praça de Casa Forte, no Recife-PE. Desde então, não parou mais e inovou os jardins públicos e privados do Brasil, ao utilizar plantas tropicais e materiais rochosos. Ao longo da vida, criou mais de dois mil jardins, tornou-se um dos mais consagrados paisagistas internacionais. Pintor, desenhista, gravurista, tapeceiro, ceramista, paisagista e nas horas vagas gostava de cozinhar, ainda era cantor lírico e tocava piano. Burle Marx foi um dos artistas brasileiros mais talentosos e inovadores.
No final da década de 1970, a pedido de Dona Maria do Carmo Nabuco, Burle Marx criou projetos para os largos de Tiradentes: do Rosário, das Mercês, do Chafariz, das Forras, do Sol e para os cemitérios da Matriz de Santo Antônio e de Nossa Senhora das Mercês. Já plenamente consagrado e com centenas de trabalhos paisagísticos realizados, o artista elaborou desenhos singelos para os ambientes setecentistas do núcleo urbano antigo de Tiradentes, evitando intervenções abruptas, utilizando plantas e árvores da região. Os projetos foram implantados com o apoio financeiro da Embratur.
O último, o do Largo das Forras, após readequação, foi implantado com o apoio financeiro da Fundação Roberto Marinho. Sua construção foi a partir de 1989, sob a coordenação da arquiteta Silvia Finguerut e de Luiz Cruz.
Em suas exposições retrospectivas, que circularam no Brasil e no exterior, figuraram os projetos idealizados e executados em Tiradentes.
A mostra A modernidade de Roberto Burle Marx em Tiradentes é uma iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, com apoio do CCSYA-Centro Cultural Sesiminas Yves Alves , será realizado em Tiradentes.
A exposição é composta pelos desenhos de Burle Marx e fotografias anteriores, algumas durante a execução e outras das obras concluídas .
Sessão Solene alusiva ao dia do Alferes Tiradentes
Boa noite.
Queria saudar e agradecer a vossa presença nesta Sessão Solene alusiva ao Alferes Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, em consequência do levantamento para a libertação do Brasil da opressão, social, econômica e política da monarquia expressa na coroa portuguesa.
Não podíamos iniciar esta cerimônia sem fazer alusão ao homem que foi Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes. Conhecemos ele de forma vulgar pelo feriado do dia 21 de abril, em homenagem ao maior nome da Inconfidência Mineira. Mas ele, é muito maior que isso. Joaquim José da Silva Xavier, Alferes de cavalaria dos Dragões Reais de Minas, militar atuante na Capitania de Minas Gerais, sob o comando do então Governador de Minas, Visconde de Barbacena e subordinada à Coroa Portuguesa. Joaquim José da Silva Xavier era um intelectual que, aos 30 anos viu a independência dos Estados Unidos da América, fato que revelou nele sentimentos revolucionários de libertação e independência do Brasil. Alinhado com Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, já conhecedores das ideias do Iluminismo Francês, uniram-se com o objetivo de retirar o poder ao então Governador da Capitania de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena, nomeado ao tempo pela Coroa Portuguesa.
Divulgador dos ideais revolucionários, já em 1788 começou a ser planejada por Tiradentes e seus apoiadores a Inconfidência Mineira.
Cabe à história que, apesar do Tiradentes em meio a muitos apoiadores moderados, ficou conhecido como o mais radical dos rebeldes, pela forma como divulgava e discutia abertamente as suas ideias revolucionárias.
Chegou mesmo a tramar e planejar a morte ao tempo do Governador de Minas, Visconde de Barbacena, fato que não foi concretizado pela delação em confissão de um dos inconfidentes, José Silvério dos Reis, levando ao desmantelar da trama e prisão de todos os envolvidos.
Joaquim José da Silva Xavier foi preso, julgado e condenado pelo tribunal inquisitorial da Coroa Portuguesa. O herói da Inconfidência Mineira foi enforcado por decisão dos juízes inquisitoriais em 21 de abril de 1792. Decapitado e esquartejado, seu corpo e membros foram espalhados pela estrada – o caminho novo – que ligava Ouro Preto ao Rio de Janeiro para que servisse de exemplo à população.
Dando um salto no tempo é fato que, tanto no período imperial quanto no período republicano, Joaquim José da Silva Xavier ganhou a imagem nacional do Alferes Tiradentes e passou a ser tomada como um símbolo da Liberdade e Independência do Brasil.
Em 1965 em plena fase do regime militar no Brasil, o Presidente Castelo Branco, sancionou a Lei nº 4.897, de 9 de dezembro que instituía o dia 21 de abril como feriado nacional e o Alferes Tiradentes, Joaquim José da Silva Xavier reconhecido oficialmente como Patrono da Nação Brasileira.
DISCURSO 31 ANIVERSÁRIO TIRADENTES, MG
A emancipação política do município de Tiradentes, em Minas Gerais, ocorreu em 19 de janeiro de 1718. Nessa data, foi oficializada a criação da Vila de São José del-Rei, que posteriormente passou a ser chamada de Vila de São José do Rio das Mortes e, finalmente, recebeu o nome de Tiradentes em homenagem ao líder da Inconfidência Mineira, Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes. A emancipação política marcou um importante marco na história da cidade de Tiradentes e na formação do Estado de Minas Gerais.
Sobre esta importante cidade dentro do cenário artístico, histórico e cultural, assim se registra a história:
“A Cidade de Tiradentes foi fundada por volta de 1702, quando os paulistas descobriram ouro nas encostas da Serra de São José, dando origem a um arraial batizado com o nome de Santo Antônio do Rio das Mortes. O arraial, posteriormente, passou a ser conhecido como Arraial Velho, para diferenciá-lo do Arraial Novo do Rio das Mortes, a atual São João del Rei. Em 1718, o arraial foi elevado à vila, com o nome de São José do rio das mortes em homenagem ao príncipe D. José, futuro Rei de Portugal, passando em 1860, à categoria de cidade.
Em 1718, foi criada a segunda vila do rio das Mortes, com o nome de São José, em homenagem ao Príncipe D. José, então com quatro anos de idade, filho de D. João V. Com a exploração do ouro em grande escala, sua população cresceu provocando um aumento rápido de moradias, além da construção de igrejas e casas comerciais.
Sobre a fundação e evolução da cidade de Tiradentes. Conforme mencionado, a cidade foi fundada por volta de 1702, inicialmente chamada de Santo Antônio do Rio das Mortes. Com o passar do tempo, o arraial recebeu o nome de Arraial Velho para distingui-lo do Arraial Novo do Rio das Mortes, que posteriormente se tornou a cidade de São João del-Rei.
Em 1718, o arraial foi elevado à categoria de vila com o nome de São José do Rio das Mortes, em homenagem ao príncipe D. José, futuro Rei de Portugal. Essa mudança de status reforçou a importância e o crescimento da localidade na época. Posteriormente, em 1860, a vila foi elevada à categoria de cidade. Em virtude da Lei provincial n.° 1.092, de 7 de outubro de 1860, a vila foi elevada à categoria de cidade.
. As lavras de São José del-Rei foram descobertas por João de Siqueira Afonso, em 1702, nos primórdios do século XVIII.
Em 1849, o território do atual município foi desmembrado de São João del Rei.
Alvará de 12 de janeiro de 1718 criou a Vila de São José do Rio das Mortes, instalado a 28 do mesmo mês e ano, mais tarde trocado para São José del-Rei.
Camara municipal de vereadores> Localizada próxima à Matriz, na ladeira que é caminho para esta, construída em meados do século XVIII, servia para abrigar a administração pública no período colonial e imperial. A Câmara Municipal de Tiradentes foi construída longe da cadeia pública, o que é incomum na maioria das cidades do século XVIII.
Durante todo o Século XVIII, a Vila de São José viveu da exploração de ouro e foi um dos importantes centros produtores de Minas Gerais. No fim do século XIX, os republicanos redescobrem a esquecida terra de Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”, fazem uma visita cívica à casa do vigário Toledo, onde se tramou a Inconfidência Mineira. Mas foi o inflamado Silva Jardim que, de passagem por São José, sugere em seu discurso que o nome da cidade fosse trocado para o do herói, em lugar de um Rei português. Com a proclamação da República, por decreto de Número 3 do Governo Provisório do Estado, datado de 06 de dezembro de 1889, recebe a cidade o atual nome “Cidade e Município de Tiradentes”. Após longos anos de esquecimento, o conjunto arquitetônico da cidade foi tombado pelo então Serviço do patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 20 de abril de 1938, tendo sido, por isso, conservado quase intacto.
Ainda existem na cidade excelentes exemplares de arquitetura civil do século XVIII, como o Sobrado Ramalho, nos quatro cantos: o Sobrado do Aimorés Futebol Clube: na Rua Direita: o Prédio da Prefeitura com suas sacadas de ferro batido e sótão: a casa Nº 114 da Rua Padre Toledo, com forros pintados, representado os cinco sentidos; a casa do Largo do Ó, Nº 1 com forros pintados e três casas com antigas janelas de rótula, na Rua direita.”
Além de uma História que se confunde com a História de nosso país; além de uma impressionante arquitetura que encanta e desperta paixão em todos que com ela tem contato, a cidade que ora homenageamos sobressai-se, nacionalmente, pela sua arte e culinária.
“Em Tiradentes pode-se encontrar artesanato em madeira, pedra sabão, latão, folha de flandres, tecelagem, prata de boa qualidade e originária de toda região. Os doces mineiros também podem ser degustados em diversas casas como: canudo de doce de leite, doce de leite, ambrosia, biscoito de amendoim, pé de moleque, entre outros. A culinária local preza os pratos mineiros como o feijão tropeiro, tutu mineiro, frango a molho pardo, frango com “ora pro nobis” (erva trepadeira com grande teor nutritivo)”.
A dúvida de muitos que visitam esta encantadora e atraente cidade é a mesma questão que todos nós levantamos: O que mais nos causa deslumbramento nesta cidade?
Seria a Igreja Matriz de Santo Antônio, construída em 1710, sendo a segunda igreja em ouro e uma das mais belas construções barrocas do Brasil. Onde, no seu interior, há um órgão de 1788, que é considerado um dos quinze mais importantes do mundo?
Seria o Sobrado do Aimorés Futebol Clube, na Rua Direita?
Seria o Prédio da Prefeitura com suas sacadas de ferro batido e sótão?
Seria a casa Nº 114 da Rua Padre Toledo, com forros pintados, representado os cinco sentidos?
Seria a casa do Largo do Ó Nº 1 com forros pintados e três casas com antigas janelas de rótula, na Rua direita?
Seria a Câmara Municipal, localizada próxima à Matriz, construída em meados do século XVIII, onde era abrigada a administração pública no período colonial e imperial, hoje chamada de Câmara Municipal de Tiradentes?
Seria a Antiga Cadeia Pública, construída em 1833 e 1845, no local da velha cadeia incendiada, uma construção austera com janelas de cantaria protegida por pesadas grades?
Seria a Casa da Cultura, construída no século XVIII, onde se encontram os microfilmes de 280.000 documentos do acervo do Arquivo Ultramarino de Portugal e do Brasil Colonial?
Seria a Ponte sobre o Ribeirão Santo Antônio, que possui duas arcadas romanas, construídas em pedra no final do século XVIII?
Seria o Monumento a Tiradentes, localizado no Largo das Forras, construído 1892, quando foi celebrado o aniversário da morte do Alferes, 3 anos depois da cidade de São josé del rey, passar a se chamar olonials?
Seria a Capela de Nossa Senhora das Mercês, do final do Século XVIII, com um único altar multicolorido, pinturas em estilo rococó, cenas alusivas à Virgem Maria e imagem da padroeira, próxima ao gramado marcas de minas e da ponte sobre ribeiro santo antonio?
Seria a Capela de Nossa Senhora do Rosário, construída em cantaria (pedra), com três altares de talha de meados do século XVIII e os santos negros São Benedito, Santo Antônio de Cartagerona?
Seria a Casa do Padre Toledo, hoje transformada em museu, construída no final do século XVIII, com esquadrias em cantaria lavradas e sete forros pintados com figuras da mitologia grega, casa onde morreu Padre Toledo, um dos cabeças da Inconfidência Mineira?
Seria o Santuário da Santíssima Trindade, construída em 18 de outubro de 1822?
Trata-se de questões de difícil resposta, pois tudo acima descrito nos encanta, nos impressiona e nos remonta a situações distantes e longínquas, onde quase sempre imaginamos paz, tranquilidade e harmonia.
Pontes, Pinguelas e Bueiros em Tiradentes, Séculos XVIII a XXI
Olinto Rodrigues dos Santos Filho
A notícia mais antiga que se tem de construção de ponte é, certamente, sobre a ponte do “Porto Real”, sobre o Rio das Mortes no lugar do mesmo nome, hoje na divisa entre Santa Cruz de Minas e São João del Rei.
Durante o período em que o Porto Real de Passagem era utilizado, a passagem de uma margem a outra do Rio das Mortes ocorria por meio de embarcações, especificamente barcas ou balsas.
As barcas ou balsas eram estruturas flutuantes que permitiam o transporte de pessoas, animais e cargas de um lado para o outro do rio. Essas embarcações eram geralmente movidas pela força humana, com homens remando ou utilizando varas para impulsionar a barca na água.
Ao chegar à margem oposta, as pessoas e as cargas eram desembarcadas, e o processo de passagem podia ser repetido no sentido contrário, conforme necessário.
Desde os fins do século XVII, quando Thomé Portes Del Rei se estabeleceu às margens do Rio das Mortes, passou a explorar a passagem do rio por canoas, pois grande era o movimento dos transeuntes que vinha do Rio de Janeiro, São Paulo e Taubaté pelo Caminho Velho e necessitava atravessar o Rio das Mortes para seguir em direção às minas de Ouro Preto e Sabará. A travessia em canoas se manteve assim até 1735, quando a ponte ficou pronta.
Já no ano de 1730, em 11 de julho, a câmara de São João del Rei escreve ao Rei D. João V pedindo a construção de uma ponte entre as vilas de São João e São José del Rei. Somente em 1735, como dito, ficou concluída a ponte construída por Marça. Na obra, Marçal gastou a alta quantia de três mil cruzados e passou a cobrar pedágio dos transeuntes “porque pôs uma ponte a sua custa, da qual ele cobrava vinte reis por pessoa e quarenta por cavalo; como também se pagava de passagem à Fazenda Real oitenta reis por pessoa e cento e sessenta por cavalo...”
Já em 5 de julho de 1736, as câmaras de São João e São José del Rei convocam a população para contribuírem com dinheiro para o resgate da ponte. Levantou-se 1.500 oitavas de ouro entre os povos (cerca de cinco quilos e meio de ouro). É curioso notar que o futuro padrinho do Tiradentes, Sebastião Ferreira Leitão contribuiu com 2 oitavas de ouro. Finalmente, em 1737, as câmaras pagam à Marçal Casado Rotier o “preço por que foi avaliada a ponte sobre o Rio das Mortes”, oitocentas oitavas de ouro. Era de se esperar que o povo ficasse livre do pedágio, mas não, se continuou a pagar o pedágio à Fazenda Real.
O relato que você mencionou descreve um caso em que uma ponte foi construída sobre o Rio das Mortes e houve uma indenização paga à pessoa responsável pela construção, Marçal Casado Rotier. No entanto, mesmo após o pagamento da indenização, o pedágio continuou a ser cobrado pela Fazenda Real.
Esse tipo de situação era relativamente comum na época colonial, em que muitas pontes e estradas eram administradas por particulares, que tinham o direito de cobrar pedágio dos usuários. Essa prática era uma forma de compensação pelo investimento realizado na construção e manutenção dessas infraestruturas.
No caso específico mencionado, mesmo com o pagamento da indenização à pessoa que construiu a ponte, a Fazenda Real (órgão responsável pela administração das finanças do Estado) continuou a cobrar o pedágio, provavelmente como forma de obter receitas para os cofres públicos.
Marçal Casado Rotier era um rico minerador que nasceu em Lisboa, filho de pai português e mãe francesa, emigrou para o Brasil e morreu na sua fazenda, do Córrego, em 1767, cuja casa ainda existe em Santa Cruz de Minas, à margem da Estrada Velha. Marçal, além da mineração ouro, foi sócio em extração de diamante e em outros negócios. Foi vereador da Câmara de São João del Rei em 1719, provedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento de S. José del Rei (Tiradentes) na década de 1740 e muito contribuiu para a construção e decoração da Matriz de São Antônio. Foi ainda arrematante dos dízimos na comarca do Rio das Mortes no triênio 1725-1728, entre outras atividades lucrativas.
Sua grande propriedade, passada de herança aos sobrinhos, porque não se casou e não tinha filhos, abrangia toda a várzea junto do Rio das Mortes, conhecida como Várzea do Marçal e, depois, Colônia do Marçal, por ter sido instalada em suas terras a colônia de italianos em 1888/89. As terras de Marçal ainda foram cogitadas para a implantação da capital mineira em 1894, preterida por Curral del Rei por razões políticas.
A ponte em si era um tanto estreita para os padrões de hoje, mas larga o suficiente à época. Todos os esteios de grandes dimensões eram de aroeira do sertão e braúna, e o tabuleiro de largos pranchões de madeira de lei. Originalmente, ela foi coberta com telhado de telhas canal para proteger o madeirame, telhado esse que sobreviveu até meados do século XIX. Ultimamente, ela tinha um corrimão ou guarda-corpo em x e duas fileiras de pranchões no sentido longitudinal para passar as rodas dos automóveis. Nós a vimos e usamos já totalmente danificada. Quando ainda havia a “jardineira” do Sr. Lourenço Firmino Campos, que fazia a linha Tiradentes/SJDR, o veículo parava antes da ponte, os passageiros desciam e a atravessavam a pé, e reembarcavam na outra margem por medo da jardineira cair nos inúmeros buracos e tábuas podres. O Chiquinho do Lourenço ia sozinho dirigindo a jardineira para atravessar a pavorosa ponte.
as três fotografias são do acervo de Osni Pa
No ano seguinte, 1744, a câmara de São João del Rei escreveu ao governador das Minas, em 17 de outubro, pedindo para “serem relevados estes povos do pagamento das passagens da ponte que ficava entre as duas vilas”. Informa ainda que o povo contribuiu com 1500 oitavas de ouro pagas a Marçal Casado Rothier para resgatar a ponte por ele construída. Parece que o governo fez ouvido de mercador e continuou cobrando o pedágio até o século XIX.
Também em 11 de agosto de 1751 nova vistoria indica consertos e, em 16 de abril de 1754, a câmara de São João del Rei requer a sua majestade o rei de Portugal, D. José I, a dispensa do pagamento do pedágio na ponte, o que não é atendido. Como todos os anos, em 1792 a vistoria conjunta na ponte foi marcada para 7 de março. Em 1877, a velha ponte passou por reformas como noticiou a imprensa de São João del Rei. Outra notícia dá conta que “o governo pôs em hasta pública... os consertos da ponte do Porto, sobre o Rio das Mortes, nesta cidade, orçados em ’11:020$645’reis”, conforme o “Resistente”, em 24 de maio de 1896, edição número 54. Novamente, em 1916, a ponte passa por obras, como noticia o jornal “Zinho” de 20 de fevereiro, assim como em 1920.
resquício de madeira da ponte antiga, ainda estacada no rio
aspectos atuais da ponte nova
Quando assume a prefeitura de Tiradentes por nomeação de Aureliano Chaves, o prefeito Josafá Pereira Filho, funcionário do DER, providenciou a construção de uma ponte que começou em maio de 1977, sob a supervisão da CODEURB, no valor de três milhões de cruzeiros, sendo 70% do Estado, 20% de São João del Rei e 10% de Tiradentes. O projeto foi de autoria de Fernando de Castro Santos, com 86 metros de cumprimento e duas pistas com 4 metros e meio de largura, com passagem de pedestres em uma lateral. Em 2004 foi feita uma passarela de pedestres em balanço em um lado e, posteriormente, no outro lado.
Em 1828, o reverendo Robert Walsh assim descreve a ponte: “uma hora depois aproximadamente chegamos a ponte do Rio das Mortes. Consiste numa decrépita estrutura de madeira, com piso de cascalho e uma coberta com um telhado em toda a sua extensão. O pedágio cobrado era exorbitante, considerando-se o lugar – uma pataca – por homem a cavalo. O rio ali tinha cerca de sessenta metros de largura; suas águas se mostravam sujas cor causa do barro vermelho mantido em suspensão devido o cascalho lançado nelas durante o processo de extração do ouro” (Notícias do Brasil, 1828-1829; BH/Itatiaia, SP/Edusp, 1985, vol. II, p. 73). Por essa citação, vê-se que ainda existia o telhado sobre a ponte que em 1868 Sir. Richard Burton diz ainda existir: “seguimos o caminho pelo Vale do Rio das Mortes Grande.
A ponte do chafariz, sobre o córrego do Pacu
Dentro do perímetro urbano da Vila, vamos encontrar duas pontes pequenas construídas de madeira, com os paredões ou pegões de alvenaria de pedra: a ponte do chafariz, sobre o córrego do Pacu, estreita, com guarda-corpo em x de caibros assim como a de acesso ao matadouro. A primeira construída no século XVIII e a segunda por volta de 1737. A ponte do chafariz na segunda administração de Francisco Barbosa Júnior foi substituída por ponte de concreto com guarda corpo em gradil de ferro, semelhante ao de sacadas. Na década de 1980 a ponte foi alargada e construída uma mureta de pedra, retirada das ruínas do sobrado de João Carlos Nascimento, na Rua Resende Costa, hoje pouso Vovô Chiquinho.
A ponte do Matadouro
A ponte do Matadouro, no meu tempo de criança, era sempre precária e na administração de Luiz José da Fonseca (1972-1976) foi substituída por ponte de concreto que foi alargada na época da construção da rodoviária, por volta de 1984.
Há referências a consertos nas pontes do chafariz e do matadouro durante todo o século XIX. Em 16 de janeiro de 1840 é pago a Manoel Caetano oito mil reis relativos a conserto na “ponte que vai para o curral público desta vila”. Em 1847 Francisco Alves da Silva recebe oito mil reis “da factura da ponte do Curral”. Quanto a ponte do Chafariz, em 1852, José Joaquim de Santana recebe dois mil e oitocentos reis (2$800) de mão de obra na construção da “ponte do Chafariz pelo tempo de sete dias a 400rs...”. Além do carpinteiro Santana, trabalharam Francisco Theodorio dos Reis e José Rufino. Geraldo Alves da Silva vendeu 12 vigas de madeira por quarenta e oi mil reis para “a factura da ponte do olonial da mesma vila”.
Em 1852 aparece pagamento a tinta e secante, para “olear a ponte” o que indica que pelo menos o guarda-corpo era pintado naquela época. No mesmo ano, novamente é feita a obra no paredão da ponte do chafariz sendo responsável pela obra o pedreiro Valentim Antônio de Ramos, tendo gasto 20 dias e cobrado 56 mil e cento e vinte reis. Já em 1856 Antônio Balbino da Costa recebe 13 mil reis a conta de madeira e mão de obra para “a factura e reparo da ponte que segue desta vila ao chafariz...” Em 1859 Valentim Antonio de Ramos faz novo conserto no “paredão da ponte que segue para o chafariz” por trinta e nove mil reis.
Quanto a ponte do matadouro, encontramos um curioso documento-indicação do vereador Pe. Laureano Antônio do Sacramento, na sessão da câmara de 31 de agosto de 1840. Diz ele “entra esta vila e a cappela de S. Francisco de Paula da mesma passa um Ribeiro em que transitam muitos habitantes, e sendo-me necessário dizer missa na dita capela, e como pároco administrar os sacramentos aos ditos habitantes tenho me visto por muitas vezes, muito principalmente em tempos d’águas, em perigo de cair no Ribeiro passando em umas pedrinhas, que nele existem por faltar a ponte que nesse lugar outro tempo houve... e por isso indico a esta câmara a necessidade da construção desta ponte”. Fica claro pelo documento acima transcrito que a ponte do matadouro havia caído e não foi reconstruída, passando as pessoas no leito do ribeiro, pulando “pedrinhas”, para não dar volta na ponte de pedra que fica mais longe. O vigário Pe. Laureano certamente foi atendido pois a ponte foi reconstruída e lá se manteve em madeira até 1972 ou 1973.
Ponte chafariz: antiga ponte da rodoviária (vide ao fundo a construção da rodoviária)
Outra pequena ponte que hoje passa despercebida é a que atravessa a Estrada Velha São João del Rei/Tiradentes, conduzindo a água da Cachoeira Bom Despacho. Essa pontezinha foi feita em 1840 por Francisco da Silva Miranda, o mestre empreiteiro que construiu o prédio da nova cadeia (1836-1845) e por ela se pagou 861 mil 940 réis junto com a ponte “ao pé da casa do finado Padre Manoel Martins...”
pequena ponte situada na Cachoeira do Bom Despacho:
Ainda dentro da Vila, podia-se ver a bela ponte de pedras ou ponte das Fôrras. Há indícios documentais que a ponte da chamada Rua das Forras foi construída no início do século XIX e que o Sargento-mór João Antônio de Campos possa ter administrado a obra. Em 1807 aparecem pagamentos de diárias a negros por serviços prestados e compra de cal a João Antônio, já referido. Em 1829 a Câmara promove “conserto da Ponte da Rua das Forras”. No ano seguinte, 1830, o vereador Santos Viana ainda indica a precisão das obras “pela necessidade e muitas águas que têm caído”.
Edgar Cerqueira Falcão, 1943
Ainda em 1830 o Juiz de Paz Manoel Pereira depois propõe a câmara conserto da ponte com uma “caixa” de 20 palmos sobre ela e um talhamar, no lugar do antigo que o rio havia levado. O talhamar parece que só foi construído em 1840, quando Manoel Caetano recebe nove mil e oitocentos reis (9$800) “de pedras, madeiras, e feitio de um talhamar na ponte de pedra desta vila...” Neste mesmo ano é proposto pelo vereador Silva Lima calçar a ponte e fazer uma estacada no leito do ribeiro abaixo da ponte para segurar as areias e evitar descobrir os alicerces. Esta estacada durou até poucos anos atrás e cumpriu sua função. A sua retirada vem provocando o descalçamento dos alicerces. Não se mira no exemplo da experiência dos antigos... Em 1846, Valentim Antônio de Ramos faz novos concertos na ponte e constrói os paredões das margens e faz o aterro. Em 1852 são colocados os “frades” de pedra na ponte, lavrados por Claudiano Antônio do Cabo e em 1856 o mesmo promove novos reparos na ponte. A prefeitura fazia sempre a conservação do equipamento urbano que hoje encontra-se abandonado.
Regina Paolucci Ramalho, óleo sobre tela, 1945. Acerco Alice Ramalho Conceição
Em 1967, com o asfaltamento da Rua Henrique Dinis, foi jogado asfalto sobre a calçada de acesso à ponte, só retirado em 1984. Há marcas de colisão de automóveis no guarda-corpo da ponte, chegando uma pedra a cair dentro do Ribeiro. A obra de canalização do esgoto feito pela Copasa fez uma péssima intervenção de concreto descaracterizante por baixo, junto as arcadas da ponte. O grande fluxo de veículos vem danificando e desgastando sobremaneira as pedras do calçamento sobre a ponte.
A “Ponte das Forras” segue a tradição europeia de construção de pontes em arcadas de volta inteira, a maneira das construções do império romano, há dois mil anos atrás. Consta ela de duas arcadas de volta inteira ou como uma abóboda de berço, com o pilar central no meio do ribeiro e dois laterais nas margens. A ponte é bastante elevada em relação à rua e sobe a ela por rampas calçadas de pés de moleque em aterro contido por paredões de pedra inclinados. O tabuleiro da ponte é reto e calçado em pé de moleque. O guarda corpo é feito de cantaria em duas muretas que viram para os lados tendo nos cantos uma pedra do tipo cabeça de frade. Hoje com a retirada do represamento do ribeiro feito em estacado de madeira, os alicerces estão à mostra e escalavrados, colocando em risco o monumento, assim como o trânsito intenso de veículos, que vem causando desgastes grandes nas pedras do piso. Para o lado de cima, foi feito em talhamar de pedra para dividir as águas, e não forçar a ponte, este datado de 1840 em substituição de outro que a água levou. Dos dois lados da ponte saem três paredes de pedra e cal, sendo por um lado maior, obra também de 1840. A visão da ponte ficou muito prejudicada com a doação pela prefeitura nos anos de 1930 do terreno do Largo das Forras, junto ao ribeiro e nos anos 1960/70 do lado contrário na praça das Mercês, com construção de casa que invadiu o arrimo da ponte. A implantação da tubulação de água em 1980 pela Copasa e de energia elétrica em 1984 pela Cemig, sobre o talhamar e colada na cantaria da ponte descaracterizou o monumento histórico e cultural. Ultimamente a construção de um emissário de esgoto aparente, pela Copasa, interferiu de maneira negativa nas bases da ponte. Há algum tempo, duas balizadoras de concreto reduzem a largura para a não passagem de caminhões e ônibus.
A ponte “Arthur Napoleão
Ainda dentro da cidade vamos encontrar a ponte “Arthur Napoleão” construída sobre o Ribeiro Santo Antônio, ligando o beco do Bom Jesus à antiga Rua do Areão (hoje Inconfidentes), próxima ao açougue de José Barbosa e descendentes, e por isso as vezes conhecida como ponte do Joaquim Barbosa. Em lugar de uma pinguela de pedestre, a ponte foi construída em concreto armado em 1926, sendo presidente da Câmara e Agente Executivo o Coronel Arthur Napoleão de Souza, chefe político originário do distrito de Barroso, hoje cidade. Ponte simples com tabuleiro reto, guarda corpo em balaustrada de cimento vazada, hoje substituída por vigas horizontais descaracterizantes. Tem os quatro arranques em grandes volutas de cimento que servem de acento. Seria interessante restaurar o guarda-corpo como o original. A laje do piso foi substituída na administração de Élvio Garcia.
Em fotografia datada de 1927, de João Batista Ramalho, ainda em negativo de vidro, cujo original guardamos, vê-se a ponte com seu guarda corpo original, pessoas posando para a foto, parte da casa de Mariinha do Nico e a cena bucólica de dois patinhos deslizando no espelho d’água do Ribeiro de Santo Antônio, com a Serra de São José ao fundo.
foto aérea, década de 1970, vendo-se, na parte inferior, a Ponte do Rio das Mortes
ponte do Cuiabá
A ponte sobre o Rio das Mortes que liga a cidade à Estação da EFOM e à Várzea de Baixo, originalmente era conhecida como ponte do Cuiabá, uma vez que toda a barranca do rio, desde a ponte até os condes, era conhecida pelo nome de Cuiabá e, consequentemente, assim também era conhecida a antiga estrada para o Bichinho e Prados, hoje Cuiabá de Baixo ou Velho. O que hoje se chama de Cuiabá de Cima é uma extensão da estrada nova (de automóvel) aberta para o Bichinho no início do século XX (atual Rua Alvarenga Peixoto). Portanto, a ponte do Cuiabá já existia de longa data, possivelmente de fins do século XVIII, construída em madeira, com dois paredões de pedra. Na antiga foto da ponte pode-se ver ainda um dos paredões junto a ponte de concreto.
fotografia João Batista Ramalho, 1927, vendo-se à esquerda
o pilar de pedra da antiga ponte de madeira
Em 1925, na administração de Arthur Napoleão, o estrado de Minas Gerais construiu uma nova ponte de concreto, que levou o nome do então presidente de Minas, Fernando Melo Viana. A ponte do Rio das Mortes parece ter seguido um projeto padrão para o estado, uma vez que existiam pontes semelhantes, constando de dois pilares ou paredões ciclópicos de pedra e massa de cimento, com um pilar central também largo em pedra e argamassa. Sobre eles apoiava um tabuleiro em laje de concreto com emenda central. As proteções laterais eram dois enormes arcos apoiados em pilastras inclinadas de secção quadrada, formando uma espécie de V.
Nas duas entradas da ponte havia nos lados uma mureta baixa, onde as pessoas se assentavam, já fora do leito do rio. Ao centro da ponte havia dois pilares de secção quadrada sobre o embasamento de onde saiam dois postes com luminárias, que após a instalação da Cemig em 1963 ficaram sem lâmpada. Haviam três placas de inauguração, duas na área central e uma na mureta do lado da Copasa. Duas placas foram doadas pela prefeitura ao IHG de Tiradentes e se encontram no sobrado Ramalho, a terceira desapareceu. O fato curioso é que esta ponte, ainda nova, teve problemas estruturais, pois teve que passar por reforço em 1929/1930, voltando a ser utilizada uma ponte de madeira.
A ponte do rio ficou no imaginário da população mais velha da cidade, seja pelo medo das crianças e mães em atravessá-la, seja pela rapaziada que lá ia nadar e pular do “arco” da ponte, seja pelos suicídios ou tentativas de suicídios, seja pelos que iam pescar sobre a ponte, seja pelos que pegavam com um gancho a lenha que descia no rio durante as enchentes ou pelo temerário descer o arco de bicicleta (um segurava a bicicleta no centro do arco, outro esperava na ponta da ponte e o corajoso montava e descia).
A ponte tinha a pista estreita para apenas um carro e colocada meio oblíqua em relação a rua. As duas entradas da ponte aterradas eram calçadas com paralelepípedo e em 1967 foram cobertos por asfalto. Essa ponte sobreviveu por muitos anos já em situação precária (chegou-se a colocar um remendo na pista com chapa de ferro). Poucos meses antes de cair, vimos por baixo a ferragem exposta e enferrujada.
A ponte caiu em parte nas vésperas do carnaval, no dia 7 de fevereiro de 1997, uma quinta-feira. Lembro-me de estar no Bloco das Domésticas em São João del Rei e vir de taxi e não encontrar a ponte para atravessar, pois a metade do tabuleiro tinha caído. Tivemos que voltar e passar pela estrada velha, sem pavimentação. Durante o resto da noite e todo o dia foi uma romaria para ver a ponte caída. Num primeiro momento os soldados do quartel de Itajubá fizeram uma ponte flutuante de barcos que muito balançava. Só se passava a pé. O ônibus ficava na praça da Estação e os passageiros completavam o percurso a pé. Logo depois, a prefeitura construiu uma ponte provisória, de madeira, na qual passavam passageiros e automóveis, e providenciou-se a construção de nova ponte com pilares de concreto ciclópico e vigas de aço com plataformas de concreto e guarda corpo metálico, com alargamento ao centro para colocar bancos (que nunca foram colocados) e dois postes com lâmpadas muito diferentes do projeto original. Infelizmente, os pilares originais e todo o concreto da ponte foram jogados no rio e não retirados, entupindo o leito e tornando impossível nadar no local ou pular da ponte.
Nos dias que a ponte caiu as adutoras da Copasa se romperam e além da ponte ficamos sem água. Tive que brigar para o carro pipa encher a minha casa, porque só queriam atender a hotéis e pousadas. A população que se danasse.
A nova ponte do Cuiabá próximo a estação
A nova ponte começou a ser construída em abril de 1997 e foi concluída e inaugurada em 3 de outubro do mesmo ano – agora não mais com o nome do governador, Melo Viana, e sim com o nome do pai do prefeito da época, que nada tinha a ver com a ponte: Venerando Garcia.
A PONTE PROXIMO AO VIRADAS DO LARGO
Ligando Prainha, Cascalho e Chafariz havia sobre o Ribeiro Santo Antônio apenas uma “pinguela” de tronco de coqueiro e depois foram colocadas duas vigas de aroeira do sertão retiradas da ponte do Porto, demolida em 1977. Na administração Nivaldo de Andrade (1989-1991) foi construída uma pequena ponte pelos irmãos Vianini em dois manilhões e guarda corpo de pedra, que foi levado pela força da água. Existiu uma “pinguela” de pedestre que atravessava o Ribeiro de Santo Antônio entre a Prainha e a praia que servia a quem descia do Alto do São Francisco e Prainha e ia em direção à Rua Direita e Centro.
Cerca de 1921, vista panorâmica do Alto do São Francisco, detalhe da pinguela ao lado direito, na parte inferior
Pontilhões
Não poderíamos nos esquecer dos muitos pontilhões que haviam no antigo leito da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Para os lados da Caixa D’água da Esperança quase todos foram destruídos e as belas pedras lavradas desviadas para particulares, pois não há uma em local público da cidade.
Onde ainda existe a estrada entre Tiradentes e São João del Rei temos ainda pequenos bueiros e pontes, sendo uma muito interessante, próximo a olaria do Zé Lourenço, a que chamamos pontilhão da olaria.
Pontilhão sobre o Rio Elvas, 1976. Foto de John West
Pontilhão da olaria
Há outros ainda menores no território de Tiradentes e mais outros no território de São João até a estação. O mais interessante e maior era o pontilhão do Rio Elvas, com três pilares maiores dentro do rio e outros menores na parte seca.
Infelizmente, a concessionária Centro Atlântica destruiu o pilar central, mesmo após o tombamento, e as pedras acabaram espalhadas em mãos particulares e foi posto uma estrutura metálica, que nada tem a ver com o original. Sobre os belos pilares de pedra corria a estrutura de ferro e nela se prendiam os dormentes de madeira e sobre eles os trilhos de ferro importados da Inglaterra. No centro dos trilhos foi colocada uma tábua longitudinal para os pedestres passarem.
O pontilhão do Elvas era local de passeios antigamente e, para se ir a pé à “Casa de Pedra”, era pela linha do trem. Contava-se na minha família que minha avó, Sinhá, ia para a Fazenda do sogro, Leôncio Wiermmann, com as crianças, quando o trem apontou lá na curva e ela teve que pular com os filhos.
A sorte é que já estava na parte seca e mais baixa.
Pontilhão do Elvas antes da demolição dos pilares de pedra, 1998. Foto de Hugo Caramuru.
Fotografia do pontilhão após a intervenção, 2009. Foto de Hugo Caramuru.
Minas e o ‘Mundo’: A Inconfidência Mineira e o Republicanismo
Os ideais republicanos da Inconfidência ‘ontem’ e ‘hoje’¹
Com certa frequência nos atentamos à democracia como fator único, primordial, para a política. Em casos como esses, focamos em certa crença de que a reunião em “assembleia” durante uma eleição, votar em certos candidatos que assumirão a representação popular, seria suficiente para resolver os problemas da sociedade. De um modo geral, embora a Democracia deva ser constantemente defendida (e repudiados quaisquer ataques que visem diminuir a participação popular na escolha de políticos e partidos), é preciso salientar que existem outros elementos que também deveriam ser considerados por todos nós, em especial a ideia de República.
Desde a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o Brasil sofreu mudanças significativas norteadas pela questão republicana, sendo uma delas as duas alterações do seu nome e, depois, seis mudanças constitucionais. Após 1889, o país adotou como nome “Estados Unidos do Brasil”, uma clara referência ao país norte americano. Só posteriormente, em 1967, durante a ditadura militar, adotou-se o nome “República Federativa do Brasil”. Quanto às constituições republicanas, instituídas a partir de 1891, dois anos após a Proclamação da República e fim do governo provisório, cada uma delas marca a tentativa de fundar ou refundar a república:
Primeira República, de 1891 a 1934; Segunda República, de 1934 a 1937; Terceira República, de 1937 a 1946; Quarta República, de 1946 a 1967; Quinta República, de 1967 a 1988; Sexta República, a partir de 1988.
Retornando ao contexto brasileiro, mais especificamente ao período do Brasil colônia, o republicanismo foi tema de discussões de um dos principais movimentos políticos ocorridos no país, a saber, a Inconfidência Mineira. Embora este seja um tema presente nos livros de História das escolas, a amplitude da Inconfidência, seu simbolismo, bem como os elementos que possibilitaram a trama dos participantes continua sendo fonte para importantes e necessárias pesquisas. Dão indício, sobretudo, sobre os primeiros elementos filosóficos de uma corrente política e aquilo que deles foi extraído e compreendido.
Com a queda da produção aurífera (e o endividamento dos mineradores e contratadores), a “administração” portuguesa havia planejado instaurar a Derrama. Para parte da administração portuguesa, incluindo o então governador da Capitania das Minas entre os anos de 1783-1788, D. Luís da Cunha Meneses, a razão para a queda da arrecadação dos impostos não seria a queda da produção, mas, sim, o contrabando feito pelos mineradores. Então, em 1788, Martinho de Melo e Castro envia para a Capitania das Minas um novo governador, o Visconde de Barbacena, Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, que, além de substituir Cunha Meneses, deveria proceder com a cobrança da Derrama: cujo valor estimado era de 538 arrobas de ouro (cerca de 7.900 Kg).
Portanto, as condições econômicas das Vilas e Arraiais da Capitania de Minas viam-se marcadas duplamente pela questão aurífera: em primeiro lugar, muitas das vilas tinham surgido em decorrência do processo de mineração. Esse foi o caso, por exemplo, da Vila de São José del Rei, cujo ouro de aluvião encontrado em seu território foi responsável pelo rápido desenvolvimento de seu Termo, tendo a Vila possuído um considerável território, no qual eram encontrados vários arraiais. Posteriormente, o exaurimento das minas de ouro foi fator principal das constantes mudanças nas cobranças dos impostos pela Coroa. Assim sendo, a imposição da cobrança da Derrama era vislumbrada pelos mineradores e outros moradores da capitania como muito provável.
Por isso, um grupo específico dentro da Capitania passou a discutir um outro destino para Minas que não fosse aquele, o de produtor da riqueza que alavancava Portugal enquanto matinha os produtores em endividamento e sob constante medo: fosse medo das cobranças, fosse medo pelas das ações diretas dos governadores enviados para a colônia, como seria o caso de D. Luís da Cunha Meneses, antecessor do Visconde de Barbacena.
De tal modo, junto do ouro (mas longe das casas de fundição) “fundiram-se” tanto o desenvolvimento da Capitania como, também, algumas das ideias revolucionárias. Como exemplo destas ideias, ainda em decorrência do crescimento econômico, foi possível que alguns produtores enviassem seus filhos para Portugal, Inglaterra e França, onde puderam estudar e compreender melhor o lugar possível das Minas em relação à Metrópole. Esse foi um dos pontos que se encontravam discutidos pelos inconfidentes: a Capitania das Minas seria autossustentável, produzia muito mais riquezas do que consumia. Além disso, tais estudantes, quando retornavam para a colônia, vinham não apenas com seus estudos, mas, também, tinham entre suas malas livros “perigosos” que influenciariam os rumos da planejada revolta.
De tal modo, o constante temor da cobrança da Derrama, a compreensão das possibilidades da Capitania (devido à capacitação dos estudos), além de questões filosóficas e políticas que remetiam a autores como Montesquieu (O Espírito das Leis e Cartas Persas), formavam o contexto para que, na década de 1780, fosse discutida a liberdade da Capitania de Minas (entre outras) em relação à coroa Portuguesa.
No grupo daqueles homens posteriormente caracterizados como Inconfidentes, a certeza da cobrança da Derrama vinha acompanhada também da certeza de que a Derrama traria amplo descontentamento nas Minas, produzindo, então, parte das condições necessárias para proceder com o rompimento com Portugal. Obviamente, não se tratava naquele momento em falar de um Brasil livre. A situação era tratada principalmente em termos de Minas e Rio de Janeiro, considerando ainda a possibilidade de que outras capitanias, como a de São Paulo e Goiás, viessem a fazer parte da nova nação.
Sob esse aspecto, mais do que a influência de intelectuais franceses, os inconfidentes se inspiravam no exemplo do processo de Independência Americana ocorrida em 1776, quando o grupo formado pelas treze colônias americanas rompeu com a Inglaterra.
Conforme salientado, com a cobrança da derrama, apenas uma parte das condições estaria posta no tabuleiro político dos revoltosos. Por um lado e contra ela, os inconfidentes acreditavam que seria possível um levante que imporia uma ruptura definitiva com os portugueses. Contudo, tal situação apenas resolveria parte do problema, a parte externa, a relação de “dependência” ou “domínio” entre a metrópole e a colônia.
De outro modo, seria necessário pensar nas consequências de tal ruptura: a formação de uma nova nação, o que significava instalar um novo governo (com leis independentes da metrópole), organizar a defesa do país ante uma reação de Portugal, bem como outros procedimentos. Depois, ainda restaria implementar os planos que fariam alavancar a nova nação, como a instalação de universidades, etc.
Nesse sentido, as Treze Colônias Americanas possibilitavam bem mais que o simples exemplo de ruptura. Até aquele momento, a noção de República estava um tanto restrita àquelas pequenas extensões geográficas sob certa forma de governo. Nesse período, ainda não se encontravam estados unificados, como posteriormente ocorreu com a Itália. Países com maiores extensões, como a França, seguiam monarquistas. Outros lugares, como Genebra ou ainda “cidades” da península itálica, quando não caíam sob governos estrangeiros, eram confiados à forma republicana.
De tal modo, quando as treze colônias americanas fizeram a independência, rompendo com a forma monárquica, instituíram a república e deram ao mundo uma mostra do republicanismo que poderia ser adotado em um país de grande extensão geográfica.
Até aquele momento, ficavam demarcadas as posições de vários filósofos políticos na observação da organização política dos estados. Montesquieu, por exemplo, discutia a possibilidade das repúblicas sob duas circunstâncias: no caso de uma república pequena, ela estaria constantemente sob a ameaça de forças estrangeiras. Não teria poder suficiente para se defender.
No caso de uma república de grande extensão, esta acabaria se corrompendo pelos vícios internos, pela impossibilidade de uma ampla participação política ou, ainda, por não notar na expansão os problemas mesmos problemas que levaram Roma deixar de ser uma república e depois decair em sua forma de império. Restaria, por fim, a possibilidade de uma federação.
O caso dos Inconfidentes se assemelhava mais ao americano do que ao caso francês. O grupo dos inconfidentes, pode-se dizer, seria um tanto heterogêneo em seus interesses e formações: padres, militares, advogados, funcionários públicos e financistas. Grosso modo, seriam divididos em pelo menos três grupos: financistas; ideólogos da possível revolução; e ativistas. Neles, seria possível separar figuras que queriam resolver suas questões financeiras, desejavam pagar menos impostos à coroa ou obter maior liberdade para tratar de seus negócios (uma vez que, para a coroa, era desejado que permanecessem com suas atenções apenas à mineração).
Entre o segundo grupo estariam aqueles que, dando maior profusão aos seus estudos, observavam bem o que significava optar por uma determinada forma de governo, elaborar e promulgar uma constituição, pensar a defesa da nação, etc. E por fim, estariam aqueles que se empenharam em promover a revolta, ainda que não fossem movidos por interesses/ganhos pessoais ou por um profundo conhecimento jurídico ou filosófico.
Contudo, não importando em qual grupo estivessem os inconfidentes, a causa republicana ainda era incerta (incerta em todo o mundo). Mesmo entre os grandes pensadores políticos, a monarquia ainda era a forma de governo “mais adequada” quando se pensava em países com certa extensão territorial. Em favor dela (monarquia), o exemplo inglês de uma monarquia constitucional talvez pudesse ser citado como forma mais eficaz e menos ameaçadora à liberdade do povo. Contra os argumentos da monarquia, no contexto mineiro, significaria iniciar uma nova dinastia na colônia ou, de outro modo, trazer da metrópole parte dos membros da família real, o que significaria manter ainda alguma relação com Portugal. Nesse ponto, as discussões entre os inconfidentes possivelmente tiveram que girar em torno da forma de governo, entre uma ala monarquista e alguns outros que pendiam para a causa republicana. E foram estes últimos, possivelmente encabeçados pelo gênio de Tomás Antônio Gonzaga, que se sobrepuseram aos demais.
A opção pela forma republicana, como referido anteriormente, foi influenciada sobremaneira pelos desdobramentos da Independência americana. O grupo formado pelas treze colônias, uma vez procurando obter o apoio à nova nação e mostrar sua firmeza, havia preparado uma publicação em língua francesa na qual faziam saber de algumas constituições das colônias americanas, além de documentos que acreditavam ser importantes para imprimir a ideia de unidade nacional. Assim foi publicado “na” França o Recueil des loix constitutives des États-Unis de l’Amérique (Coletânea das leis constitutivas dos Estados Unidos da América, publicado em 2013 com o título O livro de Tiradentes, sendo nele incluídos três estudos sobre sua recepção na Capitania de Minas), livro que logo chegou também à Capitania de Minas, sendo trazidos para cá por dois ex-alunos da Universidade de Coimbra, um por José Álvares Maciel e o outro por José Pereira Ribeiro.
Dentre os exemplares que vieram para a Capitania de Minas, um deles acabou em posse do Tiradentes que, embora não soubesse ler em francês, o trazia a tiracolo, aproveitando as oportunidades nas quais poderiam lhe traduzir algumas das passagens do livro. Uma vez traduzida parte de seu conteúdo, Tiradentes exprimiu sua preferência e admiração pela constituição da Pensilvânia, cuja acuidade de análise pode demonstrar a presença dos ideais republicanos. Cito alguns dos artigos iniciais da referida constituição:
I – Todos os homens nasceram igualmente livres e independentes; e têm direitos certos, naturais, essenciais e inalienáveis (...);
III – O povo do Estado é o único a ter direito essencial e exclusivo de governar-se e de regular sua administração interna.
IV – Residindo toda autoridade originariamente no povo e sendo, por conseguinte, emanada dele, segue-se que todos os oficiais do governo revestidos da autoridade, sela legislativa, seja executiva, são seus mandatários, seus servidores e lhes devem prestar contas em todos os tempos.
V – O governo é ou deve ser instituído para a vantagem comum, para a proteção e segurança do povo, da Nação ou da Comunidade, e não para proveito do interesse particular de um único homem, de uma família ou de um conjunto de homens que não são mais que uma parte dessa comunidade (...).
Retornando à heterogeneidade do grupo dos inconfidentes, sobre a primazia de nomes como Cônego Luís Vieira da Silva, de Cláudio Manoel da Costa ou de Tomás Antônio Gonzaga, a república teria suas chances de prosperar, sobretudo pelas informações que foram repassadas quanto ao feitio das leis por parte daquele grupo, leis essas que teriam sido expostas para alguns, tendo, inclusive, chamado a atenção do Tiradentes. Sobre a primazia do grupo financista, dos devedores da coroa, daqueles que queriam liberdade de produção ou apenas menos impostos, seria possível avaliar um choque e resistência para com a causa republicana, especialmente por essa dar atenção ao bem comum em lugar do interesse particular. Notadamente, nada diferente do que pode ser observado ainda nos dias de hoje, quando os ideais republicanos são deixados de lado em prol do enriquecimento de grupos que se sobressaem ao bem estar comum. Sob a primazia dos ativistas, em especial da figura do Tiradentes, o ideal da república pôde seguir “vivo”. Não obstante, um século depois de seu enforcamento no antigo Largo da Lampadosa no Rio de Janeiro, Tiradentes já havia sido alçado ao panteão dos heróis nacionais, sendo utilizado como exemplo de desprendimento e virtude política (algo comum quando observados os pensadores republicanos). O erro, porém, continua ser utilizá-lo sem qualquer vinculação com o ideal de nação que emergia da proposta republicana, com vistas àquilo que é o interesse de todos da comunidade. E, pelo contrário, associá-lo a grupo/classes com seus interesses próprios, entre eles pode-se destacar , acho que posso o de silva jardim e outros entusiastas republicanos que talvez, queriam mesmo só abrir caminho para mudar o Estado de mãos, trazendo agora para as oligarquias, as quais estamos debaixo do jugo até hoje.
Seja como for, as propostas do grupo dos inconfidentes, os motivos que estavam presentes em seu projeto de revolta, retornam constantemente à cena política, fazendo-se necessário pensar outras propostas de país. Mais que isso, eles introduziram, ao final do século XVIII, na colônia, ideais políticos: discussões sobre o pertencimento em uma nação livre com sua soberania, questões de igualdade, a liberdade e, a partir dela, a participação política.
Pela preservação da Serra de São José
Nesta semana recebemos com surpresa a notícia de um Leilão judicial do terreno “Maria Joana”, popularmente conhecido como Mangue, que, atualmente, pertence à SAT (Sociedade Amigos de Tiradentes). O leilão foi desencadeado após a SAT ser multada pelo IEF no ano de 2008 em decorrência de um incêndio criminoso que aconteceu no terreno.
Caberia ainda ressaltar que a referida instituição havia comprado aquele espaço por motivos de preservação, não sendo responsável pelo incêndio. Por não poder arcar com a multa, duas situações ocorreram:
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em primeiro lugar, a SAT ficou impossibilitada de realizar convênios e outras ações, como aquelas de cunho preservacionista;
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em segundo lugar, levou a justiça a determinar que o terreno Maria Joana fosse leiloado.
Após intervenção da Prefeitura Municipal de Tiradentes, o leilão, que aconteceria dia 22 de maio de 2023, foi suspenso por um prazo de 30 dias por determinação do juiz Thiago Guimaraes Emerim.
Como fora informado, alguns lances, dados antes da suspensão do leilão, foram feitos por empresas mineradoras e construtoras, cujas ações poderiam ser de grande impacto para a preservação cultural e ambiental de Tiradentes.
Portanto, trata-se de um panorama muito sério, pois o terreno da Serra/Mangue, além de ser um local de lazer dos tiradentinos e turistas, é também área de preservação ambiental e refúgio de diversas espécies de nossa fauna (libélulas) e flora, sendo inconcebível e inaceitável a exploração mineral ou a especulação imobiliária.
Isso posto, o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes endossa o coro pela não realização do leilão. Cabe ainda lembrar ser do IHGT a solicitação da abertura do processo de tombamento em nível federal da Serra São José junto ao IPHAN, ocorrida em 1979 (sendo esse um anseio que viria assegurar a preservação daquele bem). Solicitamos que seja dado andamento ao processo de tombamento por considera-lo uma importante ferramenta de preservação de nossa Serra.
SOBRE A SERRA DE SÃO JOSÉ E SUA IMPORTANCIA PARA A CIDADE
Nas últimas décadas do século XVII, bandeirantes paulistas avistaram de longe um pico, de onde poderiam avaliar a região na qual queriam explorar ouro. Ao subirem, eles tiveram a visão de uma terra farta em pedras preciosas e recursos minerais e decidiram se instalar na área. Foi aí que teve início a povoação de Santo Antônio do Rio das Mortes, atual Tiradentes, no Campo das Vertentes. Mais de 300 anos depois, o elevado que deu origem à cidade – hoje chamado de serra de São José – emoldura o centro histórico do município e está em vias de ser tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
As tratativas para o tombamento começaram em 1979, a pedido do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes (IHGT), mas estavam paradas desde então. Somente em agosto deste ano é que o Iphan retomou o processo. A expectativa é que até 2021 o reconhecimento federal seja concluído.(ATÉ A PRESENTE DATA, IPHAN NÃO TOMBOU A SERRA)
. Um exemplo de patrimônio ameaçado é a chamada “Calçada dos Escravos”, construída por escravos no século XVIII. Este era o caminho por onde se desviava ouro para não se pagarem os impostos à Coroa portuguesa, BEM como era por ali que os mensageiros dos inconfidentes enviavam suas cartas para os inconfidentes que moravam do lado de lá da serra, como na região do pombal e nas lajes de Resende Costa.
Há 30 anos, a serra se tornou uma Área de Preservação Ambiental (APA) e, desde 2004, tem uma área considerada Refúgio de Vida Silvestre (Revs) de libélulas, o que garante proteção do Estado. Segundo o gerente da APA, Itamar Christófaro Silva, por essa razão, 15 pessoas ficam por conta da gestão do local. “Se não fosse a criação da APA, a serra estaria praticamente toda alterada”. Em 1990, foi criada a Área de Proteção Ambiental (APA) São José e, em 2004, o Refúgio Estadual de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José.
Vila de São José – 305 anos: fatos marcantes de sua história
O brasão de armas do município de Tiradentes, presente também em sua bandeira, registra alguns dados sobre o lugar. Como informações geográficas, que são as referências naturais do antigo arraial de Santo Antônio, lá estão os contornos da Serra de São José, erguida pela natureza em tempos imemoriais a partir de alguma convulsão sísmica do planeta ainda criança. Aos pés da serra estende-se o tapete verde de mata atlântica. Logo abaixo corre, em sinuoso leito, o multimilenar Rio das Mortes.
Na parte superior do escudo temos informações políticas. Lá está, flutuando sobre a Serra de São José, em céu amarelo ouro, o triângulo vermelho, símbolo da Inconfidência Mineira, que também aparece na bandeira do Estado de Minas Gerais. Tal símbolo foi idealizado para compor a bandeira da República pretendida pelos inconfidentes de 1789 e, segundo declaração do próprio Alferes Tiradentes[1], simbolizava as três pessoas da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
Acima do escudo, como coroa, as silhuetas de três torres de castelo atestam a categoria de cidade, REPRESENTANDO QUE A CIDADE ERA IMPORTANTE PARA A COROA PORTUGUESA NO PERIODO COLONIAL, JÁ QUE OS CASTELOS SÃO SIMBOLOS DAS MONARQUIAS EUROPEIAS.[2] e, embaixo, o listel, caprichosamente disposto, traz, como informações históricas, o nome do lugar e as três principais datas de sua trajetória: 1718 - 1860 – 1889. Considerando essas três datas como vértices do supracitado triângulo, analisaremos brevemente esses momentos de glória da antiga São José do Rio das Mortes.
“1889” foi o ano da Proclamação da República no Brasil e o ano em que a cidade de São José del-Rei teve seu nome alterado para Tiradentes. A sugestão para a mudança foi de Antônio da Silva Jardim, propagandista do movimento republicano. Em plena campanha política para a divulgação do movimento, o jornalista esteve em São João del-Rei, onde tentou discursar e foi hostilizado, no hotel em que se hospedara, pelos monarquistas[3] locais. Na viagem de volta ao Rio de Janeiro, pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, ele passou por São José e discursou na estação ferroviária. Em sua fala, Silva Jardim chamou a atenção para a incoerência que havia no nome da cidade. Para ele, não fazia sentido a terra natal do Alferes Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, que deu a vida pela causa da liberdade e emancipação política da Colônia, ostentar o nome de um rei de Portugal QUE INCLUSIVE FOI QUEM AUTORIZOU O MARQUES DE POMBAL CRIAR AS DERRAMAS TÃO OPRESSORAS E QUE, EM SUA ULTIMA, CEIFOU A VIDA DO MÁRTIR DA LIBERDADE E INCONFIDENCIA MINEIRA, INCLUSIVE, LANÇOU AS BASES PARA INSTALAÇÃO DA REPÚBLICA NO BRASIL.
A 21 de novembro de 1889, seis dias após a Proclamação da República, possivelmente inspirado pelo argumento de Silva Jardim, o Ten. Cel. João Luiz de Campos, em sessão especial da Câmara municipal, propôs a alteração do nome da cidade para “São José do Tiradentes”. Conforme consta da ata da reunião, a justificativa de Campos era de que o nome da cidade trazia “a ideia e recordação da monarquia que decaía e de cuja dinastia não existia membro algum, felizmente, nos Estados Unidos do Brasil”[4]. A proposta foi aprovada e a ata assinada por mais de setenta cidadãos ali presentes na ocasião. Na mesma sessão foi reconhecida a legitimidade do governo republicano e foi nomeada a mesa provisória da Câmara, então denominada “Conselho de Intendência Municipal”. Compunham a Câmara naquele dia: Francisco das Chagas Campos, Leopoldino de Souza Guerra, Antônio Teixeira de Carvalho, Oriel Lopes de Miranda, Manoel José de Almeida Franco, Gervásio Gonçalves Lara e Francisco Pinto de Assis Resende. No dia 6 de dezembro do mesmo ano, o governador provisório do Estado de Minas Gerais, José Cesário de Faria Alvim, por meio do Decreto nº. 3, determinou que a “cidade e município de São José del-Rei passem a ter a denominação de cidade e município de Tiradentes”[5].
Não se sabe o que levou as autoridades do Estado a reduzirem o nome proposto pela Câmara municipal, podendo-se considerar, dentre outras, a hipótese da orientação positivista do novo regime político. O nome do santo teria sido preterido em nome da laicidade do Estado? Essa hipótese parece-nos plausível se considerarmos que diversas localidades mineiras tiveram seus nomes originais, geralmente relacionados a santos ou à religião católica, alterados nas primeiras décadas do regime republicano. Hipóteses à parte, fato é que, à revelia do mencionado Decreto estadual, no final do século XIX e início do XX, alguns documentos oficiais da burocracia civil e eclesiástica local referem-se à cidade como “São José do Tiradentes” ou “São José de Tiradentes”.
O nome oficial da cidade também era usado, mas parece que só se consolidaria localmente a partir de 1930, com a criação da prefeitura já no governo de Getúlio Vargas.
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Consideramos que, com a denominação extraoficial de “São José do Tiradentes” homenageava-se o filho ilustre da terra sem dispensar a referência ao santo. O nome está presente na denominação da serra e nas imagens de São José de Botas que adornam o altar–mor da Matriz de Santo Antônio e o oratório que compõe a fachada do Chafariz de 1749, da cidade. Talvez, para a população local, bem mais que a referência ao antigo rei de Portugal, o nome lembrasse o pai terreno de Jesus, daí a resistência em omiti-lo.
A data “1860” compõe o segundo vértice do triângulo que analisamos. No dia 7 de outubro daquele ano, a Lei 1.092., sancionada pelo Presidente da Província de Minas Gerais, Vicente Pires da Mota, elevou a Vila de São José del-Rei à condição de cidade, mantendo a mesma denominação
Com a data “1718” completamos a análise do triângulo inconfidente. A Vila de São José surgiu a partir do Arraial de Santo Antônio DO RIO DAS MORTES, existente desde 1702, quando o bandeirante João de Siqueira Afonso, natural de Taubaté, descobriu ouro nos arredores da Serra de São José[9]. Naquele tempo, o lugar era “uma solidão deserta”, e os aventureiros fundaram ali o “costumeiro arraial”.
ARGUMENTOS EM FAVOR DA CRIAÇÃO DA VILA RECONHECIDA PELO ESTADO, HJ TIRADENTES.
Com o rápido desenvolvimento do arraial, e em atenção a requerimentos apresentados pela população estabelecida à margem direita do Rio das Mortes, o Governador da Capitania de São Paulo e Minas Gerais, D. Pedro de Almeida Portugal, criou, em 19 de janeiro de 1718, a segunda Vila da Comarca do Rio das Mortes, a oitava de Minas Gerais. O argumento dos requerentes era a dificuldade de acesso a São João, sobretudo no período chuvoso, quando as águas do rio engrossavam consideravelmente, impossibilitando sua travessia, conforme consta da petição popular:
ARGUMENTAÇÃO PRO OFICIALIZAÇÃO COMO VILA AO ARRAIAL DE SANTO ANTONIO DO RIO DAS MORTES.
Dizem os moradores da Freguesia de Santo Antônio do Arraial Velho que eles se acham com grande prejuízo e impedimento para tratarem os seus negócios na Vila de São João del-Rei por estarem da outra parte do Rio das Mortes, cujas passagens são muito arriscadas e perigosas, principalmente no tempo das águas em que as enchentes o impossibilitam recorrer à Vila de São João del-Rei, e fica todo esse povo sem aquele recurso para as partes, além de ter experimentado que muitas pessoas, que neste tempo se arriscaram a passar, e se afogaram, por não haver canoas em que, com segurança, passassem, e perdem não só os seus negócios particulares, senão também os do bem público; como esta freguesia é uma das maiores das minas, e está mais distante da Vila, com muita largueza de matas para roças, como de lavras e faisqueiras permanentes, etc., tem os moradores as suas casas quase todas cobertas de telha, por estarem as olarias perto da Freguesia; e para que se possa melhor fazer o serviço de sua majestade, assim na arrecadação dos seus quintos, pois é sem dúvida que quantas mais pessoas nesta diligência se empregarem, tanto mais fácil será a dita cobrança e se não experimentará o que sucedeu este ano em algumas minas que pertencem a seus distritos excessivamente dilatados viram restos mais crescidos por cobrar, com grande detrimento e despesa da fazenda real na dilação da frota do Rio de Janeiro, como também serão mais bem obedecidas as ordens que vossa excelência for servido distribuir, cuja execução ficará mais pronta e facilitada, por haver muitos moradores e poderosos com os quais poderá conservar uma boa Vila, das maiores destas minas, sem desfalque da Vila de São João del-Rei, pode-lhe ficar ainda um grande direito; e porque já em outra ocasião, pelas justificadas razões que apontam, fizeram o mesmo requerimento ao antecessor de Vossa Excelência, ao que não foram deferidos, por se mandar informar de algumas pessoas que não tinham conveniência em que se erigisse em Vila o dito Arraial de Santo Antônio, suposto que de nenhum modo esta matéria prejudica a terceiros, antes, redunda em mais utilidade do serviço de Sua Majestade e bom regime dos povos. Esperamos da reta justiça de Vossa Excelência que, atendendo ao referido e por evitar algumas desuniões entre os moradores e pela utilidade do serviço de El-rei, lhe faça a mercê de erigir a dita Freguesia em Vila e receberão mercê (CUNHA, Transcrição do Auto de Criação da Vila de São José, 1982).
ESSA argumentação nos mostra o motivo de ter havido o nome de rio das mortes nesse contexto todo, uma vez que ele realmente era um obstáculo e dividia os mundos. Certamente o fato de o Tiradentes ter convivido mais na cidade de Tiradentes, deve-se ao fato de em algum ponto do rio, ele e sua família atravessarem de modo mais fácil e , assim, a ligação de sua fazendo o pombal e Tiradentes ser tão próxima afetivamente. Claro que são joão seria mais próximo para a família, todavia, questões de preferencia aqui foram claramente notadas.
Vistas as razões alegadas pelos suplicantes e as informações que delas tirei, concedo o que me pede, para que o dito Arraial de Santo Antônio seja erigido com o nome de São José, e o doutor Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes, ou que em seu lugar servir, levantará o Pelourinho e dará posse na forma do estilo, começando o distrito da nova Vila da banda de lá do Rio das Mortes (CUNHA, Transcrição do Auto de Criação da Vila de São José, 1982).
A 28 de janeiro de 1718, reunidos nobreza, clero e povo, foi cumprida a determinação do governador e lavrado o Auto de criação e posse da nova Vila pelo Coronel Antônio de Oliveira leitão, em substituição ao ouvidor Dr. Valério da Costa Gouveia. Foi levantado o pelourinho na praça defronte à Matriz de Santo Antônio e foram eleitos os vereadores: Domingos Ramalho de Brito, Manuel da Costa e Souza e Constantino Alves de Azevedo. Gonçalo Gomes da Cruz ocupou o cargo de procurador e Domingos Xavier Fernandes, o avô do Alferes Tiradentes, o de tesoureiro. Para juízes foram eleitos Manuel Carvalho Botelho e Manuel Dias de Araújo.
A 3 de fevereiro de 1718, por ordem do Conde de Assumar, foi nomeado o termo da Vila pelo Ouvidor Geral da Comarca, que estabeleceu como limite entre as duas vilas o leito do Rio das Mortes, ficando os moradores da “banda de cá” sujeitos a esta Vila[12], conforme consta do termo de repartição do distrito da Vila:
Aos três dias do mês de Fevereiro deste presente ano de mil setecentos e dezoito anos nesta vila de São José nas casas da câmara dela estando presente o ouvidor geral desta Comarca com os oficiais da câmara dela o juiz ordinário o Capitão Manoel Dias Araújo, o capitão-mor Manoel Carvalho Botelho também juiz, os vereadores, o capitão Domingos Ramalho de Brito, Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo e por impedimento do procurador assistiu o Sargento-mor Silvestre Marques da Cunha que para isso pelos ditos oficiais da câmara foi chamado, e sendo aí pelos ditos oficiais da câmara foi dito e Requerido ao dito ouvidor geral que em virtude do despacho da petição ao Senhor General lhe nomeasse o termo que devia ter esta Vila, o que visto pelo dito ouvidor, lhe nomeia por termo de divisa o Rio das Mortes da banda de cá entrando pelo Ribeirão chamado Alves por ser a verdadeira madre do dito Rio das Mortes e que os mais eram braços do tal rio e que outrossim eram os moradores do dito rio fregueses desta freguesia e estarem em posse desde a primeira criação sujeitos a freguesia de Santo Antônio a que chamavam Arraial Velho e que assim os moradores da banda do dito rio para cá sejam sujeitos a esta vila, e nesta forma houve o termo dela por divisado e de como os ditos oficiais assim o aceitaram e o dito ouvidor assim lho repartiu fiz este termo a que assinaram, eu Luiz de Vasconcelos Pessoa Escrivão da Ouvidoria Geral e correição que o escrevi. Antônio Oliveira Leitão, Manoel Dias de Araújo, Domingos Ramalho de Brito /Manoel da Costa Souza, Constantino Alves de Azevedo, Silvestre Marques da Cunha e Manuel Carvalho Botelho (CUNHA, Transcrição do Auto de Criação da Vila de São José, 1982).
Estabelecidos os limites, os ânimos, porém, não se acalmaram. De imediato a criação da nova vila gerou polêmica e disputa, e as autoridades da Vila de São João reclamaram diretamente ao Rei. A resposta de D. João V veio através da Ordem Régia de 12 de janeiro de 1719, que confirmou do ato do Conde de Assumar. Curiosamente, a irmã mais velha de São João, porque surgida primeiro como arraial, se tornava a irmã mais nova, enquanto vila, e disputaria de unhas e dentes seus vastos territórios. Sugerimos que começou aí a disputa multissecular entre os sanjoanenses e os conterrâneos de Tiradentes, os munícipes de “São José dos jacubeiros”[15].
POLEMICA SOBRE A NATURALIDADE LEGAL DO JJSX, O TIRADENTES.
A polêmica em torno da criação a Vila de São José e de suas divisas com São João del-Rei alimentou a disputa entre as duas vilas durante os séculos XVIII e XIX. A proclamação da República e o consequente resgate da figura do herói da Inconfidência Mineira reacendeu a saborosa disputa, desta vez incluindo a questão da naturalidade do Alferes Joaquim José da Silva Xavier. O assunto, constantemente revisitado, atravessou o século XX, com publicações de lado a lado e o ato mais recente foi o pedido de registro civil tardio do Tiradentes como sanjoanense. Obvio que o ato e o fato ainda não são ponto pacífico nos debates acadêmicos. O tema apresenta controvérsias e comporta argumentos de lado a lado, e é nisto que reside seu imorredouro encanto poético. Ressaltamos, no entanto, que o terreno mais fértil a explorar nessa discussão não está simplesmente na questão da naturalidade do alferes, que se configura mais como uma disputa de egos intelectuais com pitadas pitorescas de paixão bairrista. O interesse e a importância historiográfica do assunto, em nossa concepção, diz respeito ao estudo dos limites territoriais entre as duas vilas de El-Rei no bravio período colonial, tema que ainda oferece material a ser explorado pelos pesquisadores. Mas isso já é uma outra história, ou não. SE ASSIM O É, VOU CONTRIBUIR. COMO NO ATO DA PROMULGAÇÃO DA VILA, COMO ARRAIAL DE SANTO ANTONIO DO RIO DAS MORTES, E NESTE CASO A BANDA DIREITA FICARIA COM A FUTURA TIRADENTES, ENTÃO COMO A FAZENDA DO POMBAL ESTÁ NO TERRITORIO DE TIRADENTES, ENTÃO O TIRADENTES É TIRADENTINO RSSS
CIDADES MINEIRAS DA REGIÃO SUDESTE, TOMBADAS PELO IPHAN:
Você sabia que somente as cidades abaixo EM MINAS GERAIS são protegidas pelo IPHAN?
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Cataguases (MG)
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Tiradentes (MG) O tombamento histórico de Tiradentes, cidade localizada em Minas Gerais, Brasil, foi realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938. Essa medida tem como objetivo preservar e proteger o patrimônio cultural e histórico da cidade.
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CONFIRA AS DEMAIS CIDADES DO SUDESTE
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SÃO PAULO:
RESUMÃO DO PASSEIO E HISTÓRIAS CONTADAS NO PASSEIO BECOS DE TIRADENTES:
Becos eram destinados apenas para os escravos
s becos de Tiradentes possuíam, basicamente, três funções. Uma delas era o eixo da servidão, para desviar escravos das vias principais. Outra, era dar acesso às partes de trás das casas, uma vez que negros jamais entrariam pela porta da frente para trabalhar. O terceiro, e mais triste deles, era que no século XVIII não havia esgoto nas casas, e os becos faziam as vezes de depósito de esgoto. As fezes e urinas ficavam em vasos de louça ou madeira do lado de fora da casa. O escravo os levava nos ombros e caía, por isso diziam que ficavam ‘enfezados’.
Além das humilhações em suas tarefas diárias, os escravos tinham como base alimentar basicamente angu (fubá, água e sal). No entanto, havia em abundância – e há, até hoje – planta chamada ora pro nobis, que se assemelha à couve, mas possui 25% de proteína, tanto que era chamada, antigamente, de carne dos pobres. Como os padres não deixavam eles colherem, durante a ladainha da missa a ora pro nobis (orai por nós, na tradução do latim), que demorava bastante, eles aproveitavam para colhê-la. Foi daí que surgiu a expressão ‘tem caroço nesse angu’, que era quando colocavam a planta na refeição ou quando sobrava torresmo e carne e eles escondiam.
Diante das dificuldades, os escravos eram craques em esconder algo para si, a fim de ter algum benefício em vida. Eles tinham estratégia para roubar ouro e comprar sua carta de alforria ao esconder na crina da égua ou da mula, ou na argila usada para tapar ferimentos dos animais, pedras preciosas. Quando, no fim do dia, faziam a limpeza do animal, as retiravam. Foi de onde surgiu a expressão ‘lavar a égua’.
Os já alforriados ficavam no Largo das Forras – por isso o nome – vendendo peças de cerâmica e artesanato para tropeiros que por ali passavam pela Estrada Real. Hoje, o local é o principal ponto de partida para explorar a cidade, seja a pé ou de charrete, bem tradicional por ali, cujo passeio custa de R$ 50 a R$ 120. No seu entorno, estão diversos restaurantes, bares e charmosas lojas de lembrancinhas.
Foi na cidade que teve início a Inconfidência Mineira
Em Tiradentes, o ouro foi encontrado em 1702, onde há capela em homenagem a Santo Antônio do Canjica – as pepitas de ouro eram do tamanho de grãos de milho, por isso o nome. Trata-se da primeira igrejinha do local, e o então arraial foi se desenvolvendo ao redor, e depois se tornou Vila de São José e, por fim, Tiradentes. “Característica das cidades históricas era que, conforme o arraial se desenvolvia, a capelinha era transportada ao ponto mais alto do local.
A Igreja, naquela época, não tinha só poder espiritual, mas principalmente político. Então o fato de a matriz estar no local mais alto era forma de dominação sobre o arraial naquela época. A Santo Antônio de Pádua pertencia ao grupo social chamado de ‘homens bons’, que, para Portugal, eram os homens brancos e ricos que geravam impostos para a Coroa Portuguesa.
“O problema é que em 1705 já tínhamos mais de 50 mil pessoas em Minas Gerais querendo ficar rica da noite para o dia e não pensando em prover alimentos para a população. Então, a crise de fome foi intensa. Uma galinha que custava 140 réis em São Paulo, em Tiradentes era vendida a 4.000 réis. Daí a expressão ‘galinha dos ovos de ouro’.”
Outro ponto importante é que de tudo o que era extraído no País, 20% pertenciam a Portugal, e quem sonegasse era severamente punido, por isso a cobrança ficou popularmente conhecida como o ‘quinto dos infernos’. Para reduzir perdas, a Coroa resolveu fundir o ouro, transformando-o em barra, mas para burlar a lei, as pessoas o guardavam dentro de imagens de madeira, o que originou a expressão ‘santo do pau oco’. Em 1750, a cobrança veio mais forte e os 20% deveriam atingir pelo menos 1.500 quilos de ouro e, se não chegasse a isso, os militares tomavam posse dos bens mais valiosos dos ricos. Foi exatamente o que motivou a Inconfidência Mineira.
O movimento, que tinha reuniões na casa do padre Toledo, acabou em oito dias porque um dos inconfidentes, Joaquim Silvério dos Reis, devia muito dinheiro e negociou informações em troca de suas dívidas com a Coroa. Com isso, Tiradentes – que nasceu em 1746 em Ritápolis (cidade vizinha), ficou órfão aos 11 anos e passou a viver com seu padrinho na cidade que passou a levar seu nome, que o ensinou o ofício de dentista, e depois foi morar no Rio de Janeiro –, que então era alferes (patente de aspirante a tenente), ativista e levava as informações aos inconfidentes. Por ter sido o único que não negou a participação, ficou três anos aguardando julgamento na Ilha das Cobras, no Rio, e em 21 de abril de 1972 foi levado ao Largo da Lampadosa, atual Praça Tiradentes, onde foi enforcado e esquartejado a machado.
Partes de seu corpo foram distribuídas pela Estrada Real e sua cabeça foi exposta em Ouro Preto. Até sua quinta geração foi declarada infame. Ninguém podia falar que era parente dele que era perseguido. Sua casa na cidade foi destruída e, o chão, salgado, para não nascer mais mato. Antes de morrer, ele disse: “Seja feita a vontade de Deus. Mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria pela libertação da minha Pátria”.
Herança do movimento é o lema da bandeira do Estado de Minas Gerais, composto por triângulo vermelho em fundo branco e pelos dizeres Libertas quae sera tamen, que significa, na tradução do latim, Liberdade ainda que tardia.
SEQUÊNCIA HISTÓRICA DE TIRADENTES OFICIAL SEGUNDO IPHAN
História – Tiradentes (MG) – FONTE OFICIAL IPHAN
RESUMÃO
Os primeiros povoadores das terras do atual município de Tiradentes foram os paulistas, atraídos por cascalhos e manchas de ouro nos montes e na Bacia do Rio das Mortes. A região foi desbravada por Tomé Portes del Rei, guarda-mor distrital estabelecido nas imediações da atual São João del Rei. Durante suas andanças à cata de ouro, um de seus garimpeiros – João de Siqueira Afonso – chegou àquelas paragens, e alertou Portes sobre a existência de ouro no sopé da Serra de São José.
Siqueira Afonso fundou, em 1702, o primeiro agrupamento de garimpeiros no local denominado Arraial de Santo Antônio. Em 1705, foram descobertos os veios auríferos das serras, na região. A região foi palco das lutas entre paulistas e emboabas*, e os sobreviventes se instalaram na Várzea do Marçal, até a pacificação da região. Em 1718, foi criada a segunda vila do rio das Mortes, com o nome de São José, em homenagem ao Príncipe D. José, então com quatro anos de idade, filho de D. João V.
Com a exploração do ouro em grande escala, sua população cresceu provocando um aumento rápido de moradias, além da construção de igrejas e casas comerciais. Em 1719, foi criado o município de São José del Rei, mais tarde São José do Rio das Mortes. A criação do distrito data de 1724 e, em 1849, o território do atual município foi desmembrado de São João del Rei. Em 1860, a sede municipal foi elevada à categoria de cidade e, em 1889, recebeu o nome de Tiradentes.
Tiradentes, Mártir da Inconfidência – Como ocorreu em inúmeros outros municípios brasileiros, durante os séculos XIX e XX, os territórios onde estão as cidades de Tiradentes e São João del Rei (MG) passaram por várias divisões administrativas e receberam novos nomes. Isto resultou em algumas controvérsias sobre a vila onde nasceu Joaquim José da Silva Xavier, o Mártir da Independência. Alguns estudos realizados para identificar o local exato de nascimento de Tiradentes indicam que ele era natural “do Pombal, termo da Vila de São João D’El-Rey, da Capitania de Minas Gerais”.
Seu registro de batismo – segundo o historiador Basílio de Magalhães (1874-1957) – está datado de 12 de novembro de 1746, na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, filial da Matriz de Nossa Senhora do Pilar da Vila de São João d’El-Rey. Tiradentes foi preso em maio de 1789 e executado em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, por ter sido um dos líderes da Inconfidência Mineira (1789). Ele era um dos integrantes do grupo de conspiradores composto de homens cultos e influentes.
Condenado e enforcado, depois de percorrer as principais ruas do centro do Rio de Janeiro. Após o enforcamento, sua cabeça foi cortada e o corpo esquartejado. Com seu sangue lavrou-se uma certidão de que fora cumprida a sentença. Seus restos mortais foram mergulhados em salmoura e levados para a Capitania de Minas Gerais. A cabeça – colocada em uma gaiola – apodreceu em um poste, em Vila Rica, enquanto outras partes do corpo ficaram expostas ao longo do Caminho Novo, que Tiradentes percorria pregando a libertação do Brasil da Coroa Portuguesa.
A humilde Capela de Santo Antônio do Canjica não está dentro do núcleo histórico de Tiradentes, mas é considerada pelo IPHAN como parte do conjunto arquitetônico e paisagístico da cidade.Pela tradição, foi construída em 1702 pelo bandeirante João de Siqueira Afonso. Não é de todo improvável que a primitiva capela seja do início do século 18.
HISTORICO DOS NOMES SUCESSIVOS DA CIDADE DE TIRADENTES-MG
A Cidade de Tiradentes foi fundada por volta de 1702, quando os paulistas descobriram ouro nas encostas da Serra de São José, dando origem a (um arraial batizado com o nome de Santo Antônio do Rio das Mortes PRIMEIRO NOME), esse nome se deu por conta da CAPELA DE SANTO ANTONIO, DAÍ A VILA RECEBEU O NOME DE SANTO ANTONIO DO RIO DAS MORTES (ARRAIAL DE SANTO ANTONIO DO RIO DAS MORTES) POR CONTA DA CAPELA A SANTO ANTONIO, A PRIMEIRA DA CIDADE; TODAVIA, AINDA NÃO SE SABE SE A PRIMEIRA CAPELA ERA A DO CANJICA OU DA MATRIZ. O arraial posteriormente, passou a ser conhecido como Arraial Velho (SEGUNDO NOME, MAS NÃO OFICIAL, MAS FOI O ADOTADO MAIS COMUM), para diferenciá-lo do Arraial Novo do Rio das Mortes, a atual São João del Rei. Em 1718 o arraial foi elevado à vila, com o nome de Vila de São José (TERCEIRO NOME), em homenagem ao príncipe D. José, Futuro rei de Portugal, passando em 1860, à categoria de cidade.
. Mas foi o inflamado Silva Jardim que, de passagem por São José, sugere em seu discurso que o nome da cidade fosse trocado para o do herói, em lugar de um rei português. Com a proclamação da república, por decreto de número 3 do governo provisório do estado, datado de 06 de dezembro de 1889, recebe a cidade o atual nome “Cidade e Município de Tiradentes”(QUARTO E ULTIMO NOME).
O tombamento histórico de Tiradentes, cidade localizada em Minas Gerais, Brasil, foi realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938. Essa medida tem como objetivo preservar e proteger o patrimônio cultural e histórico da cidade.
. Mas foi o inflamado Silva Jardim que, de passagem por São José, sugere em seu discurso que o nome da cidade fosse trocado para o do herói, em lugar de um rei português. Com a proclamação da república, por decreto de número 3 do governo provisório do estado, datado de 06 de dezembro de 1889, recebe a cidade o atual nome “Cidade e Município de Tiradentes”.
AINDA SOBRE O BARROCO, ARABESCOS E RETABULO
Retábulo (do espanhol retablo) é uma estrutura de madeira, mármore ou de outro material, com lavores, que fica por trás ou acima do altar e que, normalmente, encerra um ou mais painéis pintados ou em relevo.
O arabesco é uma forma de decoração artística que consiste em “decorações de superfície baseadas em padrões lineares rítmicos de rolagem e entrelaçamento de folhagens, gavinhas” ou linhas simples,[1] muitas vezes combinadas com outros elementos. Outra definição é “ornamento foliáceo, usado no mundo islâmico, normalmente usando folhas, derivadas de meias-palmeiras estilizadas, que foram combinadas com hastes em espiral”.[2] Geralmente consiste em um único desenho que pode ser ‘lado a lado’ ou repetido quantas vezes desejar
CONJUNTO ARQUITETÔNICO:TIRADENTES
MATRIZ DE SANTO ANTONIO
A história da Matriz de Santo Antônio confunde-se com os primórdios da criação do Arraial Velho do Rio das Mortes. Existiu inicialmente uma pequena capela dedicada a Santo Antônio que veio a se tornar a primeira freguesia da Comarca do Rio das Mortes. A Paróquia parece ter sido fundada oficialmente em 1710, quando se criou a Irmandade do Santíssimo Sacramento.
As primeiras obras de construção da nova igreja, cuja tradição indica o ano de 1710, não são documentadas pela perda irremediável do 1º Livro de Receitas e Despesas da Irmandade do Santíssimo Sacramento que registrava o período de 1710-1736.
Sabe-se, entretanto, que em 1732 a igreja encontrava-se praticamente concluída, faltando apenas os assoalhos e forros, conforme consta na petição de ajuda enviada à coroa portuguesa.
AMPLIAÇÕES AO LONGO DO SECULO XVIII
Em 1736/37 a documentação indica uma ampliação na igreja, que parece tratar-se de um aumento da extensão longitudinal da nave, surgindo nesta época diversos pagamentos a profissionais como João de Faria, João da Ponte e Nicolau de Souza.
As obras se prosseguiram ao longo do século XVIII, e incluíram os consistórios e sacristias que circundam a nave e capela-mor.
A FACHADA DA MATRIZ É TODA REFEITA POR ALEIJADINHO
Ainda em fins daquele século, verificaram-se obras de remodelação da fachada ou reparos e só em 1807/10 a Irmandade do Santíssimo Sacramento decide demolir a frontaria e reconstruir outra ao gosto rococó, tendo para tal encomendado o projeto ao Aleijadinho. A obra foi executada sob a direção do mestre-pedreiro Cláudio Pereira Viana, tendo o mesmo concluído o adro com escadaria em três patamares, por volta de 1813.
EMBORA TODA FACHADA JÁ PRONTA EM 1813, HOUVE TOQUE FINAL DA CANCELA
A última obra realizada seja talvez a colocação das duas cancelas de ferro batido, por volta de 1840.
OUTRAS INTERVENÇÓES E REFORMAS ATÉ DIA DE HOJE
O monumento passou por ampla restauração em 1893, quando se vendeu algumas alfaias de prata para custear as obras.
Nova intervenção em 1946, empreendida pelo IPHAN e em 1960 com restauração do forro da nave e outros serviços de conservação.
Outra intervenções foram ainda realizadas em 1973, 1980 e 1982.
FACHADA E ADRO DA MATRIZ
Situada em sítio elevado da cidade, apresenta planta em grande retângulo, com a divisão da nave, capela-mor e sacristia.
O adro é acessível por escadaria com ricas balaustradas de cantaria de pedra-sabão em três planos.
PAREDÃO FRONTAL
O QUE É FRONTSPÍCIO?
O frontispício de uma igreja muitas vezes é projetado para ser impressionante e representar a importância e grandiosidade do edifício. Pode incluir características como portais, colunas, frontões, estátuas, relevos esculpidos, vitrais, entre outros elementos decorativos.
1-Possui frontispício largo, destacando-se a portada, de autoria do PROJETO A Aleijadinho, NÃO EXECUTADO POR ELE, APENAS O PROJETO É DE SUA AUTORIA. A PORTADA É guarnecida de talha em pedra que se prolonga até o óculo circular envidraçado.
2-As duas janelas laterais ao nível do coro têm peitoris fechados, com balaustradas barrocas e cercaduras em pedra-sabão com cimalhas movimentadas e ornamentadas.
3-Os cunhais e pilastras são em cantaria terminando em cornija superior arqueada, com óculo no centro.
O QUE É CANTARIA?
OBSERVE SOB AS COLUNAS DO FRONTSPÍCIO, AS PEDRAS LAVRADAS PARA DAR SUSTENTAÇÃO A FACHADA. OU SEJA, AS COLUNAS COMEÇAM COM PEDRAS DE CANTARIA E TERMINAM NOS ORNATOS DE CORNIJA.
O
AS TORRES LATERAIS
Dos lados do frontão, encontram-se duas torres de cantos chanfrados com sineira e relógio.
FRONTÃO
O frontão é em curvas barrocas e ornatos, arrematado por cruz (Nota-se o centro da construção com dois arabescos longos e finalizando ao centro com a bela cruz). PARA FACILITAR A IDENTIFICAÇÃO, É TUDO QUE ESTÁ ENTRE AS TORRES E SOBRE AS CORNIJAS QUE EMOLDURAM O ÓCULO CENTRAL.
DECORAÇÃO INTERNA DA MATRIZ SANTO ANTONIO
Retábulo do altar-mor
Toda a talha que reveste intensamente o arco cruzeiro, as ilhargas da capela-mor e o retábulo-mor pertencem à oficina de João Ferreira Sampaio, artista português do qual não se conhece outra obra e não se encontrou, até o momento, referência a outras obras nem em Minas, nem em Portugal, OU SEJA, EIS O TRABALHO DA VIDA DE UM ARTISTA..
DETALHES DO ALTAR-MOR OU RETÁBULO CENTRAL
1-É possível que a imagem do padroeiro da igreja tenha sido uma das primeiras representações escultóricas do popular Santo Antônio introduzidas na capitania de Minas Gerais. A peça pertenceu sem dúvida à capela primitiva.
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Por trás da imagem de Santo Antônio há uma grande auréola de cabeças de anjos e um resplendor de longos raios dourados lembrando a glória divina
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Já a imagem de São José, padroeiro da vila criada em 1718, é obra um pouco mais tardia e de origem portuguesa.
Nossa Senhora da Conceição
1-Os dois retábulos do cruzeiro são as peças mais antigas da nave (anteriores a 1730).
2-O retábulo abriga uma bela imagem da Imaculada Conceição pisando um globo de nuvens, com crescente e três cabeças de anjos. Imagem de origem portuguesa, de cunho erudito, teve a policromia original substituída por outra mais clara em 1926, no Rio de Janeiro.
3-Dois pares de colunas pseudos salomônicas, com fuste decorado em cachos de uvas e pássaros, são sustentados por anjos atlantes com guirlandas e pássaros. Externamente, duas pilastras são decoradas com motivos de acantos e pássaros. O coroamento faz-se em um respaldo côncavo com decoração em enrolamentos, acantos e anjos, lembrando ainda a estrutura dos retábulos do período nacional português, mas já de transição para o estilo joanino,. A parte superior possui um frontão reto com decoração fitomorfa, além de anjos, pássaros e meninos. Uma sanefa dourada protege o retábulo superiormente.
4-A decoração acanto é um estilo ornamental que se baseia nas folhas e motivos inspirados nas folhas do acanto. ABAIXO A REPRESENTAÇÃO DE ACANTO:
5-A área do sacrário, bastante interessante, inclui um par de meninos segurando coroas de flores, cabeças de querubins, pássaros e elementos acantivos, centrando uma porta em sol antropomorfo raiado
TRAÇADO MUITO UTILIZADO NO BARROCO.
Quanto à decoração interna, os dois retábulos de Nossa Senhora da Conceição e São Miguel e Almas são os mais antigos da igreja.
O primeiro serviu de altar do Santíssimo quando o altar-mor estava em obras em 1727 e ,o segundo, tem uma inscrição que revela ter sido dourado em 1732.
Um retábulo é uma obra de arte que consiste em uma estrutura decorativa ou arquitetônica posicionada atrás de um altar em uma igreja ou capela. Também conhecido como altar-mor, o retábulo é geralmente uma peça grande e elaborada que pode conter pinturas, esculturas, relevos e outros elementos decorativos.
São Miguel Arcanjo
Em meados do século XVIII, duas peanhas (Uma peanha é uma base ou pedestal em que uma estátua, escultura ou objeto de arte é colocada para exibição.) foram colocadas no intercolúnio para a entronização do par de imagens de Santa Bárbara e Santa Luzia, ambas virgens mártires romanas, trajando sobre a túnica uma dalmática e um manto de nobreza. Os rostos ingênuos e a policromia sóbria indicam que as imagens são de origem mineira.
As talhas são ainda de gosto nacional português, com intervenções nos estilos D João V e rococó. A decoração das ilhargas da capela-mor, arco cruzeiro (ambos de 1750), tarja e, por analogia, o retábulo do altar-mor (1736) são de autoria do entalhador, provavelmente português, João Ferreira Sampaio. Trata-se de esplendoroso conjunto homogêneo de talha, no melhor do estilo D. João V, comparável às igrejas de Santa Clara e São Francisco do Porto. Do mesmo período, cerca de 1740, data a obra monumental do coro, com sua colunas em estípete e vigorosas guirlandas douradas, tendo nele trabalhado Pedro Monteiro de Souza. Os forros da capela-mor e da nave podem ser atribuídos a Antônio Caldas que ajustou a obra de douramento e pintura da igreja em 1750/52. O primeiro, em forma de abóbada e de arestas invertidas, é pintado a ouro e têmpera castanha, em grotescos, e o da nave é ainda em arcaicos caixotões com cercaduras em grotescos dourados, centrando símbolos eucarísticos, cenas e símbolos do antigo testamento. Os dois grandes painéis ovais da capela-mor, juntamente com o painel que fechava o camarim foram pintados, entre 1736/37, por um pintor de nome João Batista, revelando qualidade inferior à talha.
Os retábulos medianos da nave, pertencentes à Irmandade do Bom Jesus do Descendimento (1734) e Bom Jesus dos Passos (1730), são obras de Pedro Monteiro de Souza, em estilo D. João V ainda pouco evoluído. Os retábulos de Nossa Senhora do Terço e Nossa Senhora da Piedade foram executados entre 1735-1745, apresentando estilo semelhante aos anteriores, mas certamente de autoria diferente. O assoalho em campas, em óleo bálsamo, foi feito em 1774 por Manoel José de Oliveira, mantendo-se ainda conforme o original, exceção da parte sob o coro. Desta época também é a bela balaustrada entalhada em jacarandá, ao gosto rococó, atribuída ao artista Salvador de Oliveira. Citam-se ainda as duas belas sacristias, ambas decoradas ao gosto rococó, a partir de 1780, pelos entalhadores Salvador de Oliveira e Romão Dias Pereira Cardoso, apresentando forro e painéis pintados por Manoel Victor de Jesus (1755/1828), pintor mulato atuante na região. Ainda são decorados com pinturas do mesmo artista, os consistórios dos Passos, do Santíssimo Sacramento e do Descendimento.
Cabe ainda mencionar, o órgão confeccionado na cidade do Porto (Portugal) e instalado em 1788 e o relógio da torre, instalado no mesmo ano, e encomendado também nos subúrbios do Valongo, da mesma cidade, ainda em funcionamento. É também digno de registro o relógio de sol em pedra-sabão, feito em 1785 por Leandro Gonçalves Chaves, hoje um dos ícones mais famosos da cidade. Complementa a decoração da igreja o conjunto de 7 lâmpadas de prata, feitas no Rio de Janeiro por volta de 1740, os castiçais do altar-mor ao gosto rococó também feitos no Rio por volta de 1770, além da rica coleção de objetos litúrgicos em prata do Rei de Lisboa, hoje em cofre-forte.
Texto extraído de: Inventário Nacional de Bens Móveis e Integrados. VITAE/IPHAN. CARRAZZONI, Maria Elisa. Guia dos Bens Tombados. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura. 1980.
Observações: O tombamento inclui todo o seu acervo, de acordo com a Resolução do Conselho Consultivo da SPHAN, de 13/08/85, referente ao Processo Administrativo nº 13/85/SPHAN.
Fonte: Iphan.
FOTOS:
Imagem: Iphan
Imagem: Iphan
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Imagem: Iphan
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário-Tiradentes-MG
Face ao desaparecimento dos livros da Irmandade do Rosário dos Pretos, anteriores a 1800, nada restou sobre a construção desta Capela.
Podemos situar a obra de arquitetura entre 1740 e 1770, a julgar pelo sistema construtivo em alvenaria de pedra, com as esquadrias de cantaria lavrada em arenito amarelado, de execução erudita. Todas as portas e janelas são compostas por vergas retas, típicas em Minas Gerais na primeira metade do século XVIII. Trata-se de uma construção em alvenaria de pedra com cunhais e esquadrias de cantaria. A planta é composta por nave retangular, capela-mor ladeada por duas sacristias, um consistório paralelo à nave e sineira à esquerda. À direita da nave existe um pequeno compartimento construído em época posterior.
A fachada é marcada por dois pares de cunhais que sustentam uma cimalha larga
. A portada, de verga reta, possui decoração em frisos curvos e tarja de gosto barroco, encimada por nicho com a imagem de São Benedito
Duas janelas, à altura do coro, integram-se aos cunhais e cimalha. O frontão desenvolve-se em curva, arrematado por volutas e ladeado por coruchéus.
É encimado por cruz, hoje de cimento armado visto que a original foi destruída por uma descarga elétrica nos anos 30. HISTORIAS DO ARRAIAL VELHO
Outra duas cruzes de cantaria encimam as empenas da nave e capela-mor. Os beirais superiores são em cimalha de cantaria e, os inferiores (sacristia e consistório) são de cachorros e beira- seveira. Internamente, a decoração conta com o retábulo do altar-mor, do terceiro quartel do século XVIII, de estrutura joanina, mas com decoração de gosto rococó, dourado e policromado; dois retábulos colaterais menores, numa interpretação provinciana do estilo D. João V, policromados e dourados, provavelmente provenientes da capela primitiva. Possui, ainda, bela balaustrada torneada, púlpito com bacia de cantaria, coro com pilastras copiados da Matriz. A pintura do forro da capela-mor, de autoria não identificada, representa a Virgem entre São Francisco e São Domingos, em tarja composta por trama arquitetônica em .perspectiva barroca, embora com decoração ao gosto rococó. A nave apresenta forro de caixotões artesoado, copiado da Matriz, com 18 painéis representando os mistérios do calvário e três invocações da ladainha da Virgem. Esta pintura, datada do primeiro quartel do século XIX, é atribuída a Manoel Victor de Jesus que pertencia à Irmandade Rosário.
O ALTAR DA IGREJA DO ROSÁRIO POSSUI 3 RETÁBULOS, UM CENTRAL E DUAS SENTINELAS AO LADO
FICHEIRO DA IGREJA DO ROSÁRIO (FORRO DO TETO DA NAVE)
NOTA-SE A IMPRESSÃO DE PROFUNDIDADE DA PINTURA
a pintura barroca, especialmente nas pinturas murais em igrejas, os artistas frequentemente usavam técnicas como a perspectiva ilusionista para criar a sensação de profundidade e tridimensionalidade.
IGREJA DE SÃO JOÃO EVANGELISTA AO LADO DO MUSEU PADRE TOLEDO
Face à inexistência de documentação, quase nada há sobre a construção da capela, sabendo-se apenas que a Irmandade de São João Evangelista dos Homens Pardos foi fundada por volta de 1740, na igreja matriz e funcionava no altar do Descendimento onde existe uma imagem de São João ao pé da cruz. Desta Irmandade só restaram os livros de termos de entrada de Irmãos. Parece que a Irmandade funcionou na matriz até o final do século XVIII, tendo a construção da capela própria se iniciado por volta de 1750/60, com recursos provenientes dos Irmãos. Na capela de São João Evangelista foi criada, em 1812, a Irmandade de São Francisco de Assis dos Pardos, que segundo parece, teve breve duração, e a confraria de Nossa Senhora das Dores, fundada por volta de 1816 ou 1817, que teria construído o altar colateral de Nossa Senhora das Dores e o oratório da sacristia, onde se guarda a imagem processional sob sua invocação. D. Frei José da SSm.ª Trindade, em seu relatório de visita pastoral de 1824, faz uma pequena descrição da capela, inferindo-se deste documento que o retábulo de Nossa Senhora das Dores foi refeito no primeiro quartel do século XIX e, que o de Nossa Senhora dos Remédios é posterior a 1824, uma vez que a descrição do referido retábulo por ele feita naquela ocasião, não corresponde ao atual que é semelhante ao de Nossa Senhora das Dores. Não há mais registros documentais sobre a igreja, a não ser referências de pequenas compras de objetos no início do século XX e pedidos de esmolas para reformas na igreja, em 1923. Parece que nesta época a Irmandade promoveu reformas no telhado, paredes e pintura. O assoalho da capela-mor deve ter sido reformado no mesmo período, com o desmonte das campas e colocação de tábuas estreitas formando losango em duas cores. Em 1961/62, a igreja passou por ampla restauração efetuada pelo IPHAN, para a instalação da capela do Seminário Diocesano São Tiago que funcionou na casa Padre Toledo, ao lado. Nesta época, as laterais foram transformadas em salas de aula, com substituição dos forros e assoalhos e a adaptação do antigo depósito de materiais de construção, ao fundo, para auditório, ocupado pelo Instituto Histórico e Geográfico desde 1979. Data deste período a dispersão do acervo da igreja. As velhas palmas e ornamentos tradicionais foram substituídos por objetos decorativos modernos, assim como móveis, alfaias e paramentos. Seguida da Matriz, a igreja de São João Evangelista é a maior igreja da cidade de Tiradentes. É toda construída em taipa de pilão, com grossas paredes, embasadas em socos de cantaria, com todos os vãos de verga curva, a exceção das quatro janelas abertas nos fundos da igreja, em 1962. Os beirais superiores da nave e capela-mor são de cachorros em grande balanço e os inferiores (laterais) e da frontaria são em beira-seveira. A planta obedece ao esquema comum em Minas, com nave retangular e capela-mor mais estreita, ladeadas por cômodos laterais e um grande salão por trás da capela-mor. A fachada principal é bastante simples, marcada por quatro cunhais largos, porta de verga curva encimada por duas janelas à altura do coro e óculo na empena, que é triangular, sem decoração, com arremates em beira-seveira. Dois corpos laterais completam a fachada, sendo que à esquerda se instalou o sino. Duas seteiras iluminam o acesso ao coro e sineira. A decoração interior conta com o retábulo do altar-mor, bastante alto, pintado de branco, com talha característica de pelo menos três épocas distintas, parecendo ter sido montado com talha de um retábulo mais antigo. Atrás tem inscrita a data de 1864. Os dois altares colaterais apresentam talha rococó, sendo o de Nossa Senhora das Dores dourado e branco, datável do primeiro quartel do século XIX, podendo-se atribuir sua autoria ao entalhador Salvador de Oliveira. O retábulo fronteiro, de época posterior, assemelha-se ao de Nossa Senhora das Dores, embora de talha inferior. O arco-cruzeiro, de grandes proporções, é decorado com talha rococó de boa qualidade e é coberto por ampla sanefa policromada. O coro possui balaustrada torneada de gosto setecentista, assim como a mesa de comunhão em balaústres recortados típicos do século XIX. Na sacristia há um oratório de Nossa Senhora das Dores, cujo retábulo parece ter sido aproveitado de um Passo da Paixão, visto que é igual aos retábulos dos três Passos mais antigos. As duas portas transversais da nave são entalhadas ao gosto rococó. A pintura da igreja, provavelmente do mesmo autor, é de gosto popular em cores fortes. É constituída por medalhão. No forro da capela-mor, duas telas nas ilhargas, quatro painéis na nave, além das cimalhas marmorizadas. O conjunto de imaginária é certamente de um mesmo santeiro, devendo datar de fins do século XVIII ou início do XIX. É constituído por excelente escultura, com policromia ao gosto rococó. Cabe registrar o desaparecimento das imagens de Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora dos Remédios, três castiçais e uma cruz, ocorrido em dezembro de 1994, ainda não recuperados.
CAPELA DO SENHOR BOM JESUS DA POBREZA
A Capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza, cujo nome originou-se provavelmente da igreja do mesmo orago em Évora, Portugal, está localizada no antigo “Largo das Rua das Forras”, hoje praça principal da cidade. A documentação sobre esta Capela é muito escassa, o que torna impossível compor a história do monumento
. Sabe-se que foi construída, certamente em pagamento a uma promessa, pelo Capitão-mor Gonçalo Joaquim de Barros, que, em 1801, encaminha à Coroa Portuguesa uma petição para provisionar a construção do templo, embora sua construção seja muito mais antiga. Presume-se que a capela tenha sido construída em 1771, conforme a data que até bem poucos anos achava-se pintada no frontão. Outra data, 1940, inscrita na fachada, indica a realização de ampla reforma. O certo é que, conforme se infere do livro de Receita e Despesa da Irmandade do Santíssimo, a construção do pequeno templo terminou em 1786.
A esquadria e a porta vieram da demolição do sobrado do Largo das Forras, onde hoje é o hotel Ponta do Morro. A pintura do retábulo, em motivos florais, como também das paredes da nave, do frontal do altar e cimalhas, foi contratada com o pintor Francisco Cezário Coelho, caracterizando-se pelo nítido gosto popular. Também se colocou um painel representando o Pai Eterno no forro, de autoria desconhecida. Na década de 50, o IPHAN empreendeu ampla restauração na capela, que incluiu a substituição do guarda-corpo de cimento das janelas do coro por balaústres de madeira torneada, das telhas marselhesas da cimalha por telhas canal, reconstrução da soleira da porta principal e caiação de branco das paredes internas, encobrindo a decoração floral. Em época mais recente foram feitas outras intervenções no telhado, escada do coro e reforço das taipas das paredes. A capela do Bom Jesus é constituída por planta simples, constando de nave única e uma sacristia à direita, com sineira em “puxado” lateral, com dois sinos pequenos. A fachada apresenta frontão recortado em curva ladeado por pináculos, pequeno óculo e duas janelas rasgadas no coro, além de pequeno círculo onde se encontrava a pintura dos três cravos de Cristo, hoje desaparecida.
A decoração da Capela é bastante singela, resumindo-se apenas a um retábulo de madeira recortada com dois nichos laterais, um gradil torneado no coro, e duas pias de água-benta em pedra-sabão. A imaginária se restringe à imagem do Bom Jesus, de excelente qualidade escultórica, Nossa Senhora do Patrocínio, Santa Rita e Nossa Senhora da Conceição, todas setecentistas, e uma interessante imagem de barro de São Geraldo feita por uma artista local no início do século. A Capela possui ainda alguns ex-votos, hoje recolhidos à Matriz.
Capela de São Francisco de Paula
NO ALTO DO SÃO FRANCISCO
Construção de meados do século XVIII, apresenta fachada simples com porta larga em verga curva, duas janelas à altura do coro com parapeito em balaústres torneados, frontão triangular com óculo envidraçado e encimado por cruz de ferro oitocentista. Lateralmente existem os dois puxados onde estão as sineiras cujo telhado é continuação do telhado do corpo central.
A Igreja de São Francisco guarda uma das mais bonitas vistas de Tiradentes – MG
É do gramado em frente à capela que se tem uma das vistas mais bonitas da cidade. Um lugar para contemplar, em silêncio, o sol se despedindo no horizonte, colorindo com o crepúsculo a bela imagem do centro histórico de Tiradentes. Dali se avista a imponente Matriz de Santo Antônio e a charmosa arquitetura do centro histórico. Existe, nesse mesmo gramado, um cruzeiro datado de 1718, ano em que o então arraial de São José foi elevado à categoria de vila.
QUEM DESCOBRIU OURO NO ARRAIAL DE SANTO ANTONIO?????
QUEM DESCOBRIU FOI THOME PORTES D’EL REI JUNTO AO SÍTIO, EM QUE HOJE ESTÁ A VILA DE S. JOSÉ, UM RIBEIRO QUE ELE, COMO SUBSTITUTO DO GUARDA-MOR GARCIA RODRIGUES PAES, REPARTIU ENTRE SI, E ALGUNS TAUBATEANOS, ONDE FORMARAM TODOS UM ARRAIAL A QUE DERAM O NOME DE SANTO ANTÔNIO, LEVANTANDO NELE UMA PEQUENA CAPELA COM A INVOCAÇÃO DO MESMO SANTO, E NESTA TEVE PRINCÍPIO A PRIMEIRA FREGUESIA DESTE DISTRITO.”
OUTROS RELATOS DÃO CONTA QUE QUEM DESCOBRIU OS VEIOS DE OURO FOI O TAUBATEANO JOÃO DE SIQUEIRA AFONSO, QUE TINHA SE HOSPEDADO EM CASA DE THOMÉ PORTES D’EL REI. JOÃO SIQUEIRA AFONSO JÁ TINHA EXPERIÊNCIA COMO MINERADOR POIS HAVIA DESCOBERTO AS MINAS DE GUARAPIRANGA E DO ARRAIAL DO SUMIDOURO,
ENQUANTO THOMÉ PORTES HAVIA SE ESTABELECIDO ÀS MARGENS DO RIO DAS MORTES, EXPLORANDO A PASSAGEM DO PORTO REAL PARA QUEM IA DE SÃO PAULO PARA AS MINAS DE OURO PRETO E SABARÁ, DITAS ENTÃO MINAS GERAIS E FORNECIA HOSPEDAGEM E MANTIMENTOS PARA OS VIAJANTES.
MAS COMO AUTORIDADE (GUARDA-MOR SUBSTITUTO) LHE COUBE DEMARCAR E DISTRIBUIR AS NOVAS MINAS DESCOBERTAS.
UANDO O ARRAIAL NOVO SE TRANSFORMOU EM VILA DE SÃO JOÃO DEL REY? FOI ESSE MOTIVO QUE SURGIU DESEJO DE SE CRIAR A VILA DE SÃO JOSÉ ?
Em 08 de dezembro de 1713, o governador D. Brás Baltazar da Silveira cria no Arraial Novo a Vila de São João del Rei, que também é cabeça da Comarca Judicial e Eclesiástica do Rio das Mortes.
Os moradores do Arraial Velho não satisfeitos com a criação da Vila no Arraial Novo, requerem ao governador a criação de nova vila no Arraial Velho, o que é negado por D. Brás, mas logo seu sucessor, D. Pedro Miguel de Almeida e Portugal, conde de Assumar (1688-1756), que assumindo o governo de São Paulo e Minas, em 1717, atendeu ao apelo dos moradores do Arraial Velho e deu-lhes foros de Vila com o nome de São José, em homenagem ao príncipe D. José (1714-1777) àquela época com apenas quatro anos de idade.
ARGUMENTOS EM FAVOR DA CRIAÇÃO DA FREGUESIA (TERRAS, TERRITÓRIO FISICO, TERRENO, COMUNIDADE), PARA ASCENÇÃO A VILA:
E acrescenta que a freguesia “ é uma das maiores... com muita laguesa de matas para roçar... tem seus moradores casas quase todas cobertas com telhas por estarem as olarias perto da freguesia... poderá conservar uma olo vila das maiores destas Minas...” Fato importante aqui assinalado é a existência de casas cobertas de telhas de barro, uma vez que no início do século XVIII
ASCENDÊNCIA DE JOAQUIM JOSE SILVA XAVIER NA FUNDAÇÃO DA CIDADE DE TIRADENTES:
É curioso notar que dos eleitos apenas Gonçalo Mendes da Cruz e Domingos Ramalho de Brito assinaram a petição de criação da Vila.
TAMBÉM É MISTER LEMBRAR QUE O PRIMEIRO TESOUREIRO DA CÂMARA (1718) FOI DOMINGOS XAVIER FERNANDES, PAI DE ANTÔNIA DA ENCARNAÇÃO XAVIER(MÃE DE TIRADENTES)
E AVÔ DE JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER, O TIRADENTES. ISSO TUDO DEMONSTRA COMO O EIXO DE CONVIVENCIA E IDENTIDADE CULTURAL E LOCAL ERA VOLTADO COM A VILA DE SÃO JOSÉ, POR ISSO FILHO DA TERRA CONSAGRADO.
A GUERRA DOS EMBOABAS
A Guerra dos Emboabas foi um conflito ocorrido no Brasil colonial entre 1707 e 1709. Ocorreu na região das Minas Gerais, especificamente nas áreas de extração de ouro recém-descobertas. A guerra teve início devido a disputas entre bandeirantes paulistas, que já exploravam as minas, e os forasteiros conhecidos como “emboabas”, que chegaram posteriormente de diversas partes do país e até mesmo de Portugal.
Os bandeirantes paulistas, liderados por Manuel Nunes Viana, reivindicavam o controle exclusivo das minas e não aceitavam a presença dos emboabas. Estes, liderados por Manuel de Borba Gato, resistiram e defendiam seu direito de explorar as minas e de participar das atividades econômicas da região.
O conflito foi marcado por batalhas e confrontos armados, envolvendo tanto os bandeirantes quanto os emboabas. A situação se agravou quando o governador-geral do Brasil, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, interferiu e apoiou os emboabas, ampliando o conflito.
Durante a guerra, houve diversos confrontos e batalhas violentas entre os bandeirantes paulistas e os emboabas na região próxima ao rio. Esses confrontos resultaram em muitas mortes, e o rio ficou associado a esse derramamento de sangue, recebendo o nome de “Rio das Mortes”.
Durante a Guerra dos Emboabas, ocorreu um conflito específico no chamado “Capão da Traição”, uma área próxima ao Rio das Mortes. Nesse episódio, um grupo de emboabas emboscou e atacou os bandeirantes paulistas, resultando em várias mortes.
Em razão desse evento, o nome “Rio das Mortes” passou a ser utilizado para se referir ao rio que corta a região. Ele recebeu essa denominação devido ao sangue derramado e às mortes ocorridas no Capão da Traição.
A emboscada conhecida como “Capão da Traição” foi um episódio marcante durante a Guerra dos Emboabas. O conflito ocorreu em 1708, próximo ao Rio das Mortes, na região das Minas Gerais, no Brasil colonial.
A situação escalou quando um grupo de emboabas liderado por João de Siqueira Afonso emboscou os bandeirantes paulistas no Capão da Traição. A emboscada ocorreu em uma área de mata densa e proporcionou uma vantagem estratégica para os emboabas.
Sobre a questão da proposta dos emboabas de não matar ninguém, que acabou resultando no nome “Capão da Traição”, é importante destacar que existem diferentes versões sobre o episódio. Segundo relatos históricos, durante as negociações entre os emboabas e os bandeirantes, os emboabas fizeram uma proposta de que não matariam ninguém em uma determinada emboscada.
No entanto, durante a emboscada no Capão da Traição, os emboabas quebraram sua promessa e atacaram violentamente os bandeirantes, resultando em um conflito sangrento e mortes. Essa traição por parte dos emboabas teria sido o motivo pelo qual o local ficou conhecido como “Capão da Traição”.
Após diversos embates e um período de instabilidade, a guerra chegou ao fim com a assinatura do Tratado de 1709, que estabeleceu uma trégua entre as partes envolvidas. O acordo reconhecia o direito dos emboabas de explorar as minas, porém, sob algumas restrições.
Para entender tal acontecimento, é preciso dar conta de, pelo menos, duas questões: as descobertas de minas de ouro na região paulista em fins do século XVII e os conflitos pela posse daquele território.
No início do século XVIII, a expansão paulista através de entradas e bandeiras em direção às chamadas “Minas Gerais”, iniciadas ainda no século XVII, estava praticamente completa. A descoberta de ouro pelos paulistas foi acompanhada por uma enorme propagação da notícia que concorreu para uma franca incursão de pessoas vindas de diferentes partes da colônia e mesmo da Europa. O Ato Real de 1694 que garantia aos paulistas a posse das minas descobertas e o quinto dos recursos ali extraídos para a Coroa não foi suficiente, assim como as defesas dos próprios paulistas, para impedir os números cada vez mais crescentes de pessoas que afluíam para aquela região. Em pouco tempo, aqueles considerados como forasteiros pelos paulistas (sendo denominados pejorativamente de emboabas) passaram, em maior número, a disputar a posse das minas descobertas, ocasionando grandes conflitos de interesses com paulistas.
Num desses eventos, um destacamento de emboabas, comandado por Bento do Amaral Coutinho, fora enviado para conter um destacamento de paulistas chefiados por Valentim Pedroso de Barros e Pedro Pais de Barros que havia se dirigido para Sabará e Cachoeira com a missão de expulsar os que ali residiam. Fracassada aquela missão, o destacamento paulista passou a ser perseguido até a região do Rio das Mortes. Aproximando-se os emboabas, os paulistas subiram em árvores e delas empreenderam um ataque surpresa que resultou em várias baixas. Os emboabas passaram a sitiá-los de modo que se rendessem pela sede e fome.
Após dois dias e duas noites, recebendo promessa de Amaral Coutinho de que teriam suas vidas poupadas caso entregassem suas armas, os paulistas se renderam. O que ocorreu em seguida foi uma verdadeira chacina sobre o destacamento paulista que ali se encontrava. Alguns autores consideram que o número de mortos chegou a 50, enquanto outros afirmam que os mortos chegaram a 300. Até hoje de incerta localização, o lugar onde ocorreu este evento entrou para a história como Capão da Traição.
Hoje em dia, a história da Guerra dos Emboabas é lembrada como um importante episódio na colonização do Brasil e no desenvolvimento da região das Minas Gerais.
EXPRESSÕES DO CICLO DO OURO
E SUAS ORIGENS
DAR NO COURO
O Século XVIII, foi o século do ouro no Brasil, e no inicio deste séculos nos idos dos anos 1700, o ouro encontrado na região da hoje Tiradentes era aquele conhecido como ouro de aluvião, ou seja, ouro achado em superfície, encontrado em montões de terra, erosões de terra, e em encostas ou no leito de cursos d’agua como córregos e cachoeiras.
É nos cursos d’agua que se deu a técnica RUDIMENTAR de extração, que é bom dizer que naquele tempo tudo era muito artesanal, usando, portanto as bateias, que são discos côncavos que, por meio de movimentos circulares, o ouro, por ser mais pesado se junta no centro mais fundo dessa peça.
Já o mundéu, eram um mundéu de terra, ou seja um mundão, uma porção de material que era selecionado e ajuntado de propósito, a saber: funcionava assim : em um curso d’agua , se fazia uma barragem (mundéui), e se revestia toda aquela porção de couro cru de boi, com a parte peluda para fora, e a agua daquele curso d’agua ia então se acumulando, e junto dessa água, os ESCRAVOS iam pegando terra, quebrando pedras COMUNS E DO TIPO QUARTZO ENCONTRADAS JUNTO AS ENCOSTAS DA SERRA DE SÃO JOSÉ
, trazendo todo tipo de material de argila, terra, torrões, tudo que era possível REVIRAR E lançavam ali naquele MUNDÉU, a fim de que, ao final de um período, aqueles couros eram retirados daquele lugar, antes de se liberar a represa , óbvio que cheios de resíduos, e levados para secar.
Após a secagem desses couros, eram selecionados escravos de melhor porte físico e força para que, com um bastão, DESSEM NO COURO, que estava estendido em algum varal para a secagem; com isso removiam então o ouro acumulado entre os pelos do couro e tiravam seu lucro.
PORTANTO, A EXPRESSÃO DAR NO COURO VEIO DESSAS “CATAS” DE OURO POR MEIO DOS MUNDÉUS ONDE SOMENTE OS HOMENS MAIS FORTES “DAVAM NO COURO”, O QUE FICOU CONHECIDO PARA NÓS QUE HOJE , AQUELE QUE DÁ NO COURO, É O QUE É “SEXUALMENTE CAPAZ E ATIVO”, O QUE NÃO SERIA POSSÍVEL PARA ESCRAVOS MAIS VELHOS E CANSADOS BATER NO COURO E CONSEQUENTEMENTE “DAR NO COURO” OU ESTAR SEXUALMENTE ATIVO. Essa herança do período colonial está presente principalmente na linguagem do povo mineiro mas pode- se ouvir por todo Brasil.
LOCAL DE NARRAÇÃO PODE SER EM CIMA DE ALGUMA PONTE MOSTRANDO O RIO E FALANDO DO MUNDÉU, LEMBRANDO QUE PARA OS DIAS DE HOJE, HOMENS QUE SÃO MAIS BEM APRESENTADOS FISICAMENTE, EM REFERENCIA AQUELE TEMPO, SÃO RECONHECIDOS COMO QUE “DÃO NO COURO!”. OBS. A OUTRA INTERPRETAÇÃO FAZENDO REFERENCIA A QUESTÕES SEXUAIS DEVEERÃO SER EVITADAS PARA NÃO HAVER CONSTRANGIMENTO.
SANTO DO PAU OCO
Durante o século do ouro, século XVIII, Portugal não queria de modo algum que sua parte, ou seja o imposto do quinto, que mais tarde ficou conhecido como o “QUINTO DOS INFERNOS”, SERIA SONEGADO OU PASSARIA PELO CRIME DE DESCAMINHO. Para isso Portugal de forma sagaz, instalou CASAS DE FUNDIÇÃO, onde os mineradores e pessoas autorizadas a extração, ERAM OBRIGADAS A LEVAR SEU OURO EM PÓ OU EM PEPITAS para as CASAS DE FUNDIÇÃO, onde o ouro passaria POR UM PROCESSO DE FUNDIÇÃO E RECEBERIA nos 80% restantes, um SELO REAL, um brasão, para que não tivesse mais OURO EM PÓ OU PEPITA QUE SERIAM FACILMENTE introduzidos em IMAGENS DE SANTOS, as quais por terem seu interior OCO, seriam facilmente PREENCHIDAS por ouro na FORMA DO PÓ OU DE PEPITAS OU PEQUENAS PEDRAS.
Essa expressão “Santo do pau oco”, surgiu nessa época, o que passou a significar , para as pessoas que assim recebem essa designação, DE SEREM FALSAS, HIPÓCRITAS E MAU CARÁTER, OU SEJA, POR FORA PARECEM SANTAS, MAS POR DENTRO SÃO DE OUTRA SUBSTANCIA, SUJAS, E CHEIAS DE MALDADE.
LOCAL DE NARRAÇÃO SERIA NA FRENTE DE ALGUMA DAS IGREJAS FAZENDO MENÇÃO AS IMAGENS.
PÉ DE MOLEQUE
A expressão pé de moleque tem origem no brasil colonial , onde as tarefas mais leves eram reservadas para escravos mais fracos e, na maioria, meninos pejorativamente chamados de moleques. Nesse caso, as ruas das vilas coloniais, incluindo a vila de são josé, hoje iradentes, eram pavimentadas com pedras disformes, com formatos variados resultantes de resto de construções ou a própria extração que, por seu caráter mais trabalhoso de deixa-las em tamanho e formato padrão, convencionou-se usar formas variadas. Isto posto, eram portanto usadas pedras em formatos variados para pavimentação das ruas e a mão de obra utilizada era a dos “MOLEQUES”, Que por seus pés menores, era possível segundo seu pisoteado, REJUNTAR COM ARGILA E TERRA OS INTERVALOS DAS PEDRAS. Com isso, começou a chamar aquelas ruas pelo nome pé de moleque, por conta do uso daquelas pessoas nesta atividade pavimentar.
Através das ruas que receberam esse nome, observou-se que o doce feito de amendoim, eram achatados e cheios de pedaços aparentemente disformes assim como as ruas coloniais; assim, as pessoas transferiram esse nome para o doce devido a aparência familiar com as ruas, criando assim o nome desse doce tão popular.
TEM CAROÇO NESSE ANGU
No brasil colonial, a utilização de mão de obra escrava era algo comum entre os senhores abastados. Infelizmente, as condições de vida dessas pessoas eram muito precárias além de serem mal alimentados; nessa seara, os escravos eram alimentados apenas com ANGU, uma boa fonte de carbohidrato mas sem nenhuma fonte de proteína.
As escravas que trabalhavam na cozinha, afim de beneficiar seus irmãos que viviam na SENZALA, ao mexer o angu, ficavam atentas a possibilidade de que, quando possível, colocar carne e torresmo da mesa dos SEUS SENHORES, no meio da massa, sabendo que FICARIAM OCULTOS E ESCONDIDOS ALI. Essa prática passava desapercebida pelos feitores responsáveis pela guarda dos ESCRAVOS. Quando chegava o angu para os escravos, perguntavam entre si: TEM CAROÇO NESSE ANGU?
DESDE ENTÃO, ESSA EXPRESSÃO FICOU CONHECIDA POR QUESTÕES DE DESCONFIANÇA, OU SEJA , QUANDO ALGUÉM INTENTA DISSIMULADAMENTE, FURTIVAMENTE OU FALSAMENTE AGIR CONTRA OUTRA PESSOA, DIZ-SE QUE TEM CAROÇO NESSE ANGU.
EXPRESSÃO PODE SER APLICADA AO PASSAR PELO MUSEU PADRE TOLEDO, EM REFERENCIA AS REUNIÕES QUE ACONTECIAM ALI DE PORTA FECHADA E SEMPRE ENVOLVENDO MUITO MISTÉRIO. AS PESSOAS PASSAVAM E DIZIAM: TEM CAROÇO NESSE ANGU!!!!
SÓ PARA INGLES VER/FIQUEI A VER NAVIOS
Com a fuga da família real portuguesa para o Brasil, apoiada pela INGLATERRA, no momento em que seria subjugada por NAPOLÃO BONAPARTE DO IMPÉRIO FRANCES, este imperador teria dito: “FIQUEI A VER NAVIOS”, em referencia ao fato de que ao chegar em LISBOA, Napoleão viu os navios da frota inglesa e portuguesa distantes já no mar e a ele só restou lamentar: “FIQUEI A VER NAVIOS”.
Já a expressão “SÓ PARA INGLES VER”, se deve ao fato que, devido a esse apoio da Inglaterra a Portugal na fuga, sua parceria e colaboração mútua de ESTADO, já passados alguns anos que a coroa portuguesa chegara ao Brasil, observou-se que sua economia estava toda alicerçada em mão de obra escrava, o que gerava uma competição desigual e injusta no comercio internacional entre esses países, por esse motivo e outros, começou uma intensa pressão da INGLATERRA para que o imperador proibisse a prática do uso de mão de obra escrava. Então, em 1850, a Coroa promulgou uma lei que proibia o mão de obra escrava; todavia, dependentes que eram dos escravizados e visando manter o baixo custo de produção, houve uma intensa RESISTENCIA a essa mudança de base na força de trabalho, com isso, passou-se a se ocultar escravos durante o transporte marítimo desses escravos usando toda forma de técnica furtiva para que não fossem achados em transporte escravo. A essas muitas ocultações, se dizia que as camuflagens eram apenas “PARA INGLES VER”, E não haver punição aos contrabandistas.
ESSA EXPRESSÃO PODE SER FALADA NA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA QUE FARIA MENÇÃO A ORIGEM DAS MAQUINAS A VAPOR DA INGLATERRA E REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. OUUMA FORMA DE CITAR AS EXPRESSÕES SERIA FAZENDO REFERENCIA A CANCELA DA FRENTE DA MATRIZ, FEITA DE FERRO FORJADO, O ferro forjado era um material amplamente utilizado na produção de elementos arquitetônicos, como portões, grades e cancelas, durante o século XIX. A técnica de ferro batido envolve o aquecimento do ferro e sua modelagem por meio de martelos e outras ferramentas para criar padrões decorativos e detalhes ornamentais, SUA TÉCNICA DE PRODUÇÃO ERA MUITO COMUM NA INGLATERRA, E EM FALANDO EM INGLATERRA, DUAS EXPRESSÕES GERADAS QUE ENVOLVIAM OS INGLESES SÃO.......
SEM EIRA NEM BEIRA
No Brasil colonial, ainda no século dezoito, as casas eram construídas quando de alvenaria, com adobe, ou seja, tijolos robustos de barro e ajuntados com barro. Com isso, as paredes feitas de adobe eram muito absorventes para umidade e, como a água da chuva era a principal fonte de umidade, o beiral do telhado deveria ser pronunciado externamente para evitar que o telhado SEM CALHA, não permitisse que a agua voltasse e molhasse as paredes.
Nessa época quem podia fazer uma casa de alvenaria era muito privilegiado, mas aqueles mais ABASTADOS, podiam fazer os telhados com seguintes acabamentos para proteger suas paredes:
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BEIRA OU TRIBEIRA, QUE ERAM ACABAMENTOS SOBRE O FINAL DA PAREDE NO FORMATO DE ONDAS QUE LANÇAVAM O TELHADO PARA LONGE DA PAREDE. COM FORMATO DE ONDINHAS, O ACABAMENTO DO TELHADO ERA ADEQUADO PARA A PROTEÇÃO. A QUESTÃO É QUE A BEIRA OU TRIBEIRA ERA UM ACABAMENTO MUITO TRABALHOSO E, PORTANTO, MUITO CARO. AS FAMILIAS QUE PODIAM FAZER ERAM TIDOS COMO PESSOAS ABASTADAS E DE MUITAS POSSES E SERVIA COMO UMA DEMONSTRAÇÃO VISUAL DA CONDIÇÃO SUPERIOR DA FAMÍLIA. Na expressão sem eira nem beira, há referencia as fazendas que além dos casarões nesse formato, os espaços externos eram usados para secagem de grãos colhidos em suas plantações que RECEBIAM O NOME DE EIRA. DAÍ, QUEM NÃO TINHA POSSES FINANCEIRAS E NÃO CONSEGUIAM FAZER CASAS ADEQUADAS OU TER BOAS FAZENDAS COM COLHEITAS QUE GERAVAM MUITA RENDA, ERA TIDAS COMO PESSOAS “SEM EIRA, NEM BEIRA”.
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CIMALHA: Eram para o mesmo propósito, todavia, não eram ondulações, mas extensores formados por frisos horizontais e que davam um belo visual.
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CACHORRO: Feitos com mesmo propósito, os acabamentos chamados de cachorro, foram a evolução da beira e cimalha, pois , feitos de madeiras, os prolongamentos do beira do telhado, com forros sobre caibros adornados com um belo peito de pombo, deixaram ainda mais bonitas as casas e as protegiam da tão repudiada umidade nas paredes.
SOBRADO E SOLAR
Como o Brasil foi uma colônia portuguesa, fomos diretamente impactados com a importação dos costumes portugueses. Um desses costumes é o de nomear a rua mais importante de uma cidade, como RUA DIREITA. Essa rua recebia os casarões de pessoas mais abastadas que eram proprietárias de dois tipos de casarões: os solares e os sobrados.
Os solares eram de famílias que não dependiam do imóvel para desenvolver comércio, pois, era costume que aqueles que tinham no primeiro pavimento um comércio, estes eram os sobrados porque na parte superior do imóvel onde a família iria morar, morariam em uma sobra do imóvel, OU SEJA, UM SOBRADO COM COMÉRCIO EMBAIXO E LAR EM CIMA. Por outro lado, quando não haveria comércio, O CASARÃO ERA CHAMADO DE SOLAR, OU SEJA, SÓ HAVERIA “LAR”.
Ambos, casarões, sobrado e solar, geralmente seriam mais comumente encontrados NAS RUAS DIREITAS.
LOCAL MAIS QUE APROPRIADO PARA DESCREVER A RUA DIREITA É A PROPRIA RUA DIREITA DE SÃO JOAO DEL REY E TIRADENTES. DEMONSTRANDO OS CASARÕES E SOLARES.
ENFEZADO
Expressão usada para demonstrar o estado de uma pessoa irritada. A origem dessa palavra remonta ao Brasil colonial onde as famílias tinham um escravo destacado com a função de transportar os rejeitos das famílias, a saber fezes ou urina, que ficavam concentradas em uma espécie de balde que, quando enchiam, eram transportadas por esses homens para descartar em locais apropriados. O mal cheiro e as constantes vezes que os rejeitos derramavam no corpo DO ESCRAVO O DEIXAVA MAL-CHEIROSO E COM CERTEZA MAL HUMORADO, O QUE DEU ORIGEM A PALAVRA ENFEZADO, PARA DESIGNAR RAIVA COM A SITUAÇÃO DEGRADANTE. Pra piorar, no brasil colonial não se tinha hábitos de higiene que temos hoje, muitas vezes as casas mantinham um cheiro desagradável de fezes por conta da sujeira e no entorno, viajantes, escravos e até a população mesmo faziam coco e xixi em qualquer lugar, sem nenhuma cerimonia. Foi neste contexto que surgiram os escravos chamados de homens tigres devido as listras que surgiam em seus corpos devido ao descoramento na cor da sua pele em decorrência das substancias que vinham do balde. Quando esse escravo tinha rixa com alguém ele não tinha cerimonia de simular uma queda e dar um banho de dejetos em seu desafeto, que ficava todo ENFEZADO.
ONDE PODE CONTAR ESSA HISTÓRIA? NO BECO DO POCINHO. INCLUSIVE JÁ FAZER O LINK COM A REVOLVA DO MONTÃO DE TERRA QUE REMOVEU AQUELA ENCOSTA E ACABOU POR REVELAR A NASCENTE QUE VIROU O POCINHO E , QUANDO DEIXOU DE GERAR OURO, VEIO A SER USADO COMO ÁREA DE DESCARTE DOS DEJETOS DAS CASAS. NESTE CASO É BACANA NARRAR QUE ALI FICOU TÃO CHEIO DE VEGETAÇÃO GRAÇAS A QUALIDADE DO ESTERCO DEPOSITADO ALI KKKKK. PODE FALAR QUE VAI SER SUCESSO.
FEITO N AS COXAS
EXPRESSÃO oriunda de um entendimento que algo foi mal feito. Sua origem remonta ao brasil colonial. Escravos precisavam produzir muito e quando eles se acidentavam, seus senhores ficavam incomodados com sua improdutividade e ainda tinham que comer; desse modo tiveram a idéia de obriga-los a fazer telhas com argilas em suas coxas. Como geralmente tinham mais escravos acidentados produzindo telhas, e cada um tinha uma coxa diferente, quando elas eram acondicionadas nos telhados, sua forma desigual gerava vazamentos e um aspecto torto do telhado. POR ISSO QUANDO ALGO FICA MAL FEITO, DIZ-SE QUE FOI FEITO NAS COXAS.
DO ALTO DA MATRIZ É POSSÍVEL FALAR DESSA EXPRESSÃO OLHANDO OS TELHADOS COM ESSAS TELHAS QUE LEMBRAM AQUELAS DAQUELE TEMPO, NO FORMATO ARREDONDADO.
BUCHO CHEIO, MEIA TIJELA E NÃO VALE O ANGU QUE COME
NO BRASIL colonial, Portugal concedia grandes áreas ou terrenos para que senhores pudessem fazer a extração do ouro por meio dos seus escravos que tinham metas diárias a cumprir em quantidade de ouro encontrado. Este ouro era colocado em uma pequena bolsa de pano chamada bucho o qual precisava estar cheio ao fim da jornada; contudo, nem sempre o dia era produtivo, muitas vezes não era culpa dos escravos, mas sim da lavra do dia que não permitia encontrar o metal dourado; dessa forma se o BUCHO NÃO ESTIVESSE CHEIO, A PUNIÇÃO NÃO SERIA FÍSICA MAS SIM COM RESTRIÇÃO DE COMIDA NA TIJELA. A esses desafortunados que iriam ganhar somente a metade da tijela recebiam o nome de MEIA TIJELA. Não satisfeitos com a redução da porção, eles reclamavam e questionavam receber menos comida, DAÍ SEUS SENHORES DIZIAM QUE FICASSEM SATISFEITOS, POIS NÃO VALIAM NEM O ANGU QUE COMEM, DAÍ A EXPRESSÃO: “NÃO VALEM O ANGU QUE COMEM”;
AO PASSAR DIANTE DE UM RESTAURANTE DE COMIDA MINEIRA, PODEMOS LEMBRAR QUE UMAS DAS IGUARIAS HERDADAS DO PERIODO COLONIAL QUE É .MUITO APRECIADA PELOS MINEIROS É O ANGU. LEMBRANDO DELE É POSSÍVEL FALAR DESSAS 3 EXPRESSÕES ORIGINADAS ENTRE OS ESCRAVOS EXATAMENTE POR CONTA DA ÚNICA COMIDA QUE TINHAM ACESSO: O ANGU.
ONDE É QUE FUI AMARRAR MINHA ÉGUA
Nas pequenas cidades do Brasil colonial, era comum o transito de viajantes ou moradores de outras cidades que transitavam para fazer comercio. Como naquele tempo o transporte/deslocamento era feito somente a cavalo, esses CAVALEIROS prendiam seus animais em vigas de cimento ou madeira em pontos específicos da cidade, geralmente em frente a comércios das ruas principais, como a RUA DIREITA. O Problema que ao longo do dia em suas andanças, essas pessoas iam “ESQUENTAR O PEITO” e tomavam a FAMOSA CACHAÇA. Entre uma e outra bebida, aqueles que tinham menor resistência acabavam se embriagando demais e na hora de ir embora não encontravam seus animais por que esqueciam onde “AMARRARAM SUA ÉGUA” E ENTÃO SE PERGUNTAVAM LAMENTANDO: “ONDE É QUE EU FUI AMARRAR MINHA ÉGUA”.
TIRADENTES TEM MUITAS DESSAS VIGAS DE PEDRA OU MADEIRA, DAÍ É NESSES LUGARES A OPORTUNIDADE DE FALAR DESSA EXPRESSÃO.
QUINTO DOS INFERNOS
AS DATAS ou terrenos que eram entregues as pessoas para exploração do ouro, geravam em contrapartida o pagamento do quinto do ouro, que era 20% de todo ouro arrecadado seriam direcionados à coroa portuguesa como imposto. Embora isso já fosse algo previamente acordado, a cobrança do quinto sempre era alvo de grande arrogância por parte dos publicanos ou cobradores, até pelo fato do ouro não poder circular em pó ou em pepitas e sim somente em barras com selo real. Toda essa perseguição em busca do seu quinhão pela coroa, gerava profunda indignação por parte dos senhores que sempre se referiam ao quinto como QUINTO DOS INFERNOS!!!
Aqueles que sonegavam e eram pegos, eram exilados para outras colônias na Àfrica e, por ser muito distante, ainda sempre diziam que fulano foi levado pros QUINTOS DOS INFERNOS.
AO SE FALAR DAS CORRENTES ANTIGAS EM FRENTE A IGREJA DO ROSÁRIO, DESTACAR O MODO ARTESANAL EM QUE FOI FEITA ELA OU AS JANELAS DO MUSEU DE SANTA’NA COM FERRO FUNDIDO E LEMBRAR DAS CASAS DE FUNDIÇÃO E A EXPRESSÃO ORIGINADA PELA COBRANÇA INSISTENTE NO QUINTO QUE GEROU O QUINTO DOS INFERNOS.
PICAR A MULA
A MULA QUE É cruzamento entre a égua e o jumento, é um animal muito resistente e forte e muito usado no brasil colonial para transporte de bandeirantes em suas expedições bandeiras e até mesmo aos emboabas em suas entradas.
O fato é que embora esses animais sejam muito resistentes, eles são como o nome fala “BURROS”, MEIO porque são lentos no raciocínio e, para um homem montando a mula conseguir comunicar para dar o movimento, em muitos casos é necessário um GOLPE DE ESPORA para faze-los andar.
Assim, o termo PICAR A MULA surgiu em referencia a iniciar o movimento que , neste caso, só foi possível PICANDO A MULA.
EXSITEM:
CAVALO E ÉGUA; BURRO/JUMENTO E BURRA/JUMENTA (MESMO ANIMAL, PODENDO SER CHAMADO DAS DUAS FORMAS, LEMBRANDO QUE SÃO UMA ESPÉCIE DE ASNO AFRICANO) E, por fim, o CRUZAMENTO ENTRE UM BURRO/JUMENTO E UMA ÉGUA QUE RESULTA EM UM ANIMAL ESTÉRIO CHAMADO MULA!!!!
EM UMA DAS MÚLTIPLAS SITUAÇÕES ONDE SE OBSERVA UMA CHARRETE, PODE-SE CONTAR A HISTÓRIA DO PICAR A MULA, PQ ALI A MAIORIA DOS ANIMAIS NÃO SÃO CAVALOS, SÃO ASNOS OU MULAS. HOJE EMBORA NÃO PIQUEM A MULA A CHICOTEIAM.
AGUAARDENTE/PINGA
DURANTE A confecção de melado usando garapa, um escravo dormiu e deixou a mistura passar do ponto e ficando azeda por conta da fermentação. Temeroso pelo castigo que receberia, o escravo guardou bem escondido e, durante a realização do próximo melado, ele misturou aquele azedume fermentado anterior na mesma panela.
Aquela nova mistura então passou a evaporar e formar gotículas no teto DAQUELE ENGENHO vindo a PINGAR sobre as costas daquele escravo, o que ardeu-lhe as feridas das costas recebendo assim o nome de AGUARARDENTE, Pois ardeu.
Embora o desconforto do ardido, notaram também que aquela mistura tinha um gosto agradável e que , ao consumi-la, se sentiam alegres. Dali em diante, todas as vezes que eles queriam ficar alegres, era só repetir o mal feito.
Em frente a igreja matriz tem um bar e nele se vende a famosa pinga. Daí é so aproveitar e contar a história da pinga.
ENQUANTO DESCANSA, CARREGA PEDRA
Durante o século XVIII, os escravos recebiam a dura e penosa tarefa de quebrar pedras para se retirar o ouro presente no interior das rochas; todavia, por não conseguirem trabalhar nessa árdua tarefa por muito tempo, de 6 em 6 horas, eles eram liberados para “descansar” e, para relaxar e após essa extenuante jornada, eles ganhavam o direito de carregar pedra, o que era de certo modo um pouco mais leve, se é que podemos dizer assim.
Diante dessa situação, toda vez que um escravo demonstrava estar muito cansado, ele recebia o direito de “”
ESSA EXPRESSÃO PODE SER CONTADA AO SE EXPLICAR SOBRE AS PEDRAS SOLTEIRONAS DISPOSTAS AO LONGO DAS RUAS EM TIRADENTES.
ORAPRONOBIS
Planta trepadeira muito comum em minas gerais, o orapronobis , recebeu esse nome depois que um padre no período colonial proibiu os escravos de consumirem as folhas dessa planta que serviam de cerca viva na igreja do dito vigário. Como as folhas eram saborosas e faziam com que os escravos se sentissem mais fortes, elas passaram a ser alvos da preferencia daquelas pessoas, mas devido a proibição, eles tiveram que usar de sabedoria. Como perceberam que o padre tinha um compromisso diário que afastava sua atenção durante um bom tempo, a saber, a prece aos santos padroeiros da paroquia, onde ele repetia um sem numero de vezes: “Santo Antônio, ora-pro-nobis, São João, ora-pro-nobis”; assim, toda vez que queriam ter um tempinho para apanhar suas folhas prediletas, era só esperar a hora da reza, e assim que começa o ora-pro-nobis, estavam liberados e seguros.
PRA NARRAR A HISTORIA DA PLANTA, É SÓ ESTAR DE FRENTE UMA IGREJA E CITAR A LADAINHA QUE DEU NOME A PLANTA.
PÉ RAPADO
Expressão usada para pessoas pobres de poucas posses. Essa designação nasceu durante o período colonial quando , em períodos chuvosos as pessoas de menos posses eram obrigadas a caminhas pelas ruas enlameadas, o que fazia com que seus calçados ficassem cheios de lama. Ao entrar em igrejas para missa ou na casa de alguém essas pessoas que não podiam contar com o luxo de andar em uma charrete , como era o caso dos mais abastados e que, portanto, não sujavam seus calçados, tinham, para a remoção dessa sujeira, sofisticados removedores de barro, chamados RASPA PÉ. Portanto, quem tinha que rapar o pé eram somente os mais pobres, daí eram chamados de PÉ RAPADO , OU DURO SEM DINHEIRO!!!
ESSA EXPRESSÃO FICA TOP PARA SER NARRADA ONDE HOUVER AINDA O RASPA PÉ. Salvo engano, parece que tem um de frente a matriz.
DAR COM OS BURROS N’AGUA
DURANTE as bandeiras, os paulistas bandeirantes utilizavam de mulas e burros para o transporte de pessoal e de carga. Não era incomum que , por vezes, fossem surpreendidos por rios volumosos que impediam que prosseguissem. Como o retorno não era algo factível porque a marcha era sempre pra frente, esses bandeirantes procuravam pontos do rio mais estreitos e se aventuravam a passagem. Na maioria das vezes tinham sorte em conseguir passar; todavia, por vezes, o rio acabava por afogar os animais que afundavam com toda a carga do tropeiro; frustrados, retornavam sem lograr êxito e, quando eram perguntados o motivo do retorno, diziam: “DEMOS COM OS BURROS N’AGUA”.
EXPRESSÃO PODE SER NARRADA SOBRE A PONTE DO CHAFARIZ, MOSTRANDO QUE EMBORA AQUELE CURSO SEJA DE POUCA ÁGUA, RIOS VOLUMOSOS DA REGIÃO COMO O DAS MORTES, GERARAM ESSA EXPRESSÃO.
LAVAR A EGUA
ESSA expressão surge no desejo de alforria dos escravos em comprar sua liberdade. Como não tinham salário, tinham que contar com sua esperteza. Era assim:
Sobre o termo lavar a olo, vou deixar minha contribuição aqui para o nosso querido chat gpt saiba mais um pouco. Essa expressão surgiu no período olonial durante a mineração nas minas. Todos escravos anseavam por sua alforria e a única forma de fazê-lo era conseguindo ouro para tal façanha. Como conseguiam? De várias formas, mas a mais comum era contrabandeando ouro que eles mesmos extraiam das minas durante o trabalho. O que faziam? Como as minas eram apertadas e com muitas pontas de pedras e solo irregular, não era incomum que os animais se ferissem; com isso a única maneira de manter as feridas protegidas dos insetos e da infecção, era por meio da aplicação de barrto argiloso nas feridas. Maliciosamente, ao longo do dia, essas “ataduras” de barro recebiam boas porções de pequenas pepitas de ouro que ficavam camufladas no meio daquele barro. Ao final do dia não faltavam voluntários para “Lavar a Égua” e , com isso, recolher todo aquele ouro que seria , possivelmente , sua libertação do cativeiro do seu Senhor.
TRANSCRIÇÃO DO PASSEIO FEITO POR UM GUIA MUITO FAMOSO NO BAIRRO CASCALHO E NO POVOADO DO BICHINHO
EM TIRADENTES TIVERAM 5 MIL ESCRAVOS
FOI DIFERENTE DE OURO PRETO PQ HOUVE MINERAÇÃO PÉ SERRA DE SÃO JOSE´
NEGROS ESCRAVIZADOS TINHAM TRES GRUPOS PRIMEIROS AFRICANOS, FILHOS DOS NEGROS AFRICANOS ERAM CRIOULOS BRASILEIROS E TERCEIRO GRUPO OS MULATOS FILHOS DOS BRANCOS SENHORES COM AS NEGRAS
70 POR CENTO DOS HABITANTES NESSA EPOCA ERAM OS CATIVOS E NÃO PODIAM TRANSITAR NAS RUAS PRINCIPAIS PQ ALI SOMENTE AS FAMILIAS MAIS RICAS, JÁ NEGROS ´SO NO EIXO DA ESCRAVIDÃO.
VISITAÇÃO DOS BECOS CONTANDO A HISTORIA DO SECULO XVIII. NESTE CASO QUALQUER ROTEIRO QUE ESCOLHER, É POSSIVEL FALAR DA HISTORIA SOBRETUDO DOS ESCRAVOS.
IRMANDADES RELIGIOSAS NÃO TINHAM A MESMA INFLUENCIA QUE TINHAM NA EUROPA. PPORTUGAL EXPULSA DO BRASIL OS JESUITAS E ORDENS CATOLICAS PRIMEIRAS
ENTÃO PESSOAS LEIGAS SE REUNIRAM-SE EM TORNO DA DEVOÇÃO DE UM SANTO CATOLICO, REUNIAM FUNDOS DE DINHEIRO E FAZIAM SUAS PROPRIAS CAPELAS E IGREJAS ONDE SE REUNIAM. CADA GRUPO SOCIAL TERIA SUA PROPRIA IRMANDADE, FORMANDO SEGREGAÇÃO SOCIAL, SUA PROPRIA IRMANDADE,
AS FAMILIAS MAIS RICAS ERAM TIDAS COMO HOMENS BONS PARA PORTUGAL E PPODIAM ESCOLHER OS MELHORES TERRENOS, LOCALIDADES DA CIDADE DIANTE DE PORTUGAL. SE A POSIÇÃO DO TERRENO É ELEVADA, PASSA-SE A MENSAGEM DE SUPERIORIDADE PQ EM QUALQUER PONTO DA CIDADE, PODE-SE VISUALIZAR A IGREJA QUE REPRESENTA AQUELE GRUPO SOCIAL E IDENTIFICAR AS FAMILIAS DE POSIÇÃO MAIS ELEVADA. ALEM DISSO, TERRENOS M AIS ALTOS SÃO MENOS PASSÍVEIS A UMIDADE E ENCHENTES.. DAI A CONSTRUÇÃO DA PRIMEIRA IGREJA, A MATRIZ SANTO ANTONIO.
COMO O TURISMO COMEÇOU EM TIRADENTES?
A PRIMEIRA PESSOA A SE IMPORTAR COM O TURISMO EM TIRADENTES, FOI O INGLES JHON PASSOS, QUE, VINDO VISITAR A CIDADE NA DECADA DE 1970, SE ENCANTOU PELA CIDADE E DECIDIU COMPRAR UM DOS CASARÕES QUE ESTAVAM DISPONIVEIS MAS MUITO MAL PRESERVADOS, E ASSIM REFORMOU E COMEÇOU INCLUSIVE A AJUDAR FAMILIAS POBRES A FAZER PEQUENAS REFORMAS EM SUAS CASAS PARA FINS DE PRESERVAÇÃO. OUTRA BOA MEDIDA DESSE INGLES FOI BUSCAR JUNTO A CEMIG, A REMOÇÃO POSTES DE ENERGIA ELETRICA PARA CABEAMENTO SUBTERRANEO PARA MANTER A CONFIGURAÇÃO ORIGINAL.
ESTRADA REAL
QUANDO PORTUGAL, POR MEIO DAS ENTRADAS E DAS BANDEIRAS PERCEBE, O QUANTO DE OURO TEM AQUI EM MINAS GERAIS, A PRIMEIRA MEDIDA FOI TRAÇAR UM ESTRADA REAL, OU SEJA, UM ROTEIRO ÚNICO , CHAMADO CAMINHO VELHO, NO QUAL ERA OBRIGATÓRIO TRAFEGAR POR ELE PARA IR PARA O INTERIOR. O OBJETIVO ERA QUE, SENDO ASSIM, NO CAMINHO O OURO FOSSE QUINTADO E RECEBIA SELO REAL PARA EVITAR CONTRABANDO E DESCAMINHO.
CALÇAMENTO DAS RUAS
ORIGINALMENTE, A PAVIMENTAÇÃO DE TODA A CIDADE ERA ORIGINAL, OU SEJA, PÉ DE MOLEQUE. ESSE ORIGINAL ERA FEITO COM RESTO DE PEDRAS DAS CONSTRUÇÕES A VOLTA DA CIDADE, COMO RESTO CONSTRUÇÃO IGREJAS, CASAS, CASAROES,ETC. AS MAIS DIVERSAS SOBRAS, ARENITO, PEDRA SABÃO, QUARTZITO E OUTROS, E ESSE MATERIAL APLICADO NAS RUAS AS DEIXAVAM IRREGULARES. FOI ENTAO QUE A PARTIR DA DECADA DE 60, A PREFEITURA PASSOU A MELHORAR A COBERTURA DAS RUAS COM AS SOLTEIRONAS, QUE ERAM GRANDES BLOCOS DE PEDRAS RETIRADAS DA SERRA DE SÃO JOSÉ, OS BLOCOS DE QUARTIZITO VIERAM DE ONDE?
PARA ACESSAR A PEDREIRA FOI ABERTA UMA ESTRADA PARA CAMINHÕES NO LUGAR DE UMA ANTIGA TRILHA, HOJE TRANSFORMADA EM ESTRADA PARQUE (IEF) NA APA SERRA DE SÃO JOSÉ.
AS PEDRAS SÃO QUARTZITO EM TONS CLAROS E AS VEZES AVERMELHADOS, DE CORTE IRREGULAR COM MARCAS DE ONDULAÇÕES DE ÁGUA ENTRE AS PLACAS DENUNCIANDO SEREM ROCHAS MUITO ANTIGAS ANTERIORES A PANGÉIA.
A EXTRAÇÃO DO OURO INICIALMENTE FOI EM DUS FRENTES.AQUELA EM QUE SE REVIRAVAM AS ENCOSTAS DA SERRA E SE BUSCAVA EM MUNDÉU E EM BATEIA.
O RIBEIRÃO SANTO ANTONIO E OS DEMAIS CURSOS DAGUA FORAM TODOS REVIRADOS POR CENTENAS DE ESCRAVOS DIARIAMENTE DE PONTA A PONTA COM AS BATEIAS, MESMO EM DIAS D E INVERNO, ESSES ESCRAVOS ESTAVAM A REVIRAR TUDO.
A PONTE DE PEDRA SOBRE RIBEIRO SANTO ANTONIO
ESSA PONTE FOI INCIALMENTE UMA PONTE DE MADEIRA, MAS QUE PERIODICAMENTE ERA LEVADA PELAS CHEIAS EM DIAS DE CHUVA. VISTO ISSO , A COROA AUTORIZOU A CONSTRUÇÃO DE UMA PONTE DE PEDRA COM ARCOS ROMANOS NO ESTILO CLÁSSICO, IGUAL A DUAS QUE TEM EM SJDR. INCLUSIVE NOTA-SE A PRESENTA DE UMA ESTRUTURA PARECIDA COM A PROA DE UM NAVIO INSTALADA NO ENCONTRO DOS ARCOS, COM A FINALIDADE DE SER COMO UM QUEBRA MAR E DIMINUIR A INTENSIDADE DAS AGUAS E PROTEGER A PONTE.
QUAL ERA A CONFIGURAÇÃO DO ARRAIAL DE SANTO ANTONIO
O ARRAIAL DE SANTO ANTONIO ERA NO SECULO Xviii acessado pela ponte romana que entravam pela praça das forras, cujo nome vem de alforria. As NEGRAS DE TABULEIRO (QUITANDEIRAS), TINHAM ACORDO COM SEUS SENHORES QUE PARTE DO LUCRO DA VENDA DAS QUITANDAS ERA RESERVADA PELOS SEUS SENHJORES COM O PROPÓSITO DE AS NEGRAS RECEBEREM SUA LIBERDADE E DE SUA FAMILIA. QUANDO A ALFORRIA ACONTECIA, ELAS TRABALHAVAM NESSE LARGO DAS FORRAS, OU SEJA, DAS NEGRAS ALFORRIADAS.
PROJETO PAISAGISTICO
BURLE MARX ERA UM IMPORTANTE PAISAGISTA QUE COLECIONA MAIS DE 2000 JARDINS PELO BRASIL, ONDE SE DESTACAM OS JARDINS DO ITAMARATY NO MINISTERIO DE RELAÇÕES EXTERIORES EM BRASILIA, MUSEU DE ARTE MODERNA NO RIO DE JANEIRO E JARDIM BOTANICO. FOI ESTE RENOMADO PAISAGISTA QUE PROJETOU E COORDENOU A REVITALIZAÇÃO DA PRAÇA DO LARGO DAS FORRAS E MAIS 4 JARINS EM TIRADENTES, COMO LARGO ROSARIO, CHAFARIZ , E LARGO DAS MERCES.
IGREJA BOM JESUS DA POBREZA
Sabe-se que foi construída, certamente em pagamento a uma promessa, pelo Capitão-mor Gonçalo Joaquim de Barros, que, em 1801, encaminha à Coroa Portuguesa uma petição para provisionar a construção do templo, embora sua construção seja muito mais antiga. Presume-se que a capela tenha sido construída em 1771, conforme a data que até bem poucos anos achava-se pintada no frontão. A NOVA DATA QUE ESTÁ NO FRONTAO REFERE-SE A DATA DA ULTIMA REFORMA EM 1940.
OUTRA TRADIÇÃO REMETE A CONSTRUÇÃO DA IGREJA AO FIM DO PERIODO AUREO, ONDE ACABOU O OURO QUE ANTES SE ACHAVA FACIL TAMBÉM ACABOU FÁCIL. ESSES COMERCIANTES E MINERADORES AGORA EMPOBRECIDOS JÁ NÃO ERAM BEM VINDOS ENTRE OS RICOS E ELITE DA MATRIZ, ENTÃO SURGE UM NOVO GRUPO SOCIAL QUE LEVANTA ESSA CAPELA EM 1771.
ENTRE 1771 E 1980 QUANDO JHON PASSOS SE INTERESSA PELA CIDADE, NESSE INTERIM A CIDADE SEM OURO E SEM OUTRA FONTE DE RENDA FICA “A VER NAVIOS”, OU SEJA SEM NENHUMA EXPRESSÃO OU FONTE DE RENDA. HÁ AI UM PERIODO DE 200 ANOS QUE BEM OU MAL ACABOU POR PRESERVAR A CIDADE EM SUA ARQUITETURA COLONIAL.
FOI ESSA IGREJA A ULTIMA A SER CONSTRUIDA NA CIDADE EM TODA CICLO DO OURO.
CRISE DOS ALIMENTOS EM MINAS GERAIS
COM A DESCOBERTA DO OURO EM MINAS GERAIS PELO BANDEIRANTE FERNÃO DIAS NA REGIÃO DE CAETES, MARIANA E OURO PRETO, A NOTICIA LOGO SE ESPALHOU E MAIS DE 30 MIL PESSOAS VIERAM NA ANSIA DE EXPLORAR O VIL METAL. COM TANTO FOCO NO OURO ESQUECERAM DE PRODUZI-LOS. UM EXEMPLO DISSO É QUE UMA GALINHA QUE ERA COMPRADA NA CIDADE ORIGEM DOS BANDEIRANTES, TAUBATÉ, POR 140 REIS, AQUI EM MINAS GERAIS CHEGOU A CUSTAR 4000 REIS. A FOME ERA TANTA QUE SURGIU UM NOVO MERCADO, O DOS COMERCIANTES QUE VINHAM EM EXPEDIÇÕES PARA VENDER ALIMENTO PARA OS MINERADORES.
POR CONTA DA ESCASSEZ DE ALIMENTOS, HOUVERAM MUITOS CONFRONTOS E MORTES, ATÉ QUE MAIS TARDE, NATURALMENTE, O FLUXO DE ALIMENTOS MELHOROU.
TRATADO DE MATHUEN, OU TRATADO DE PANOS E VINHOS
NESSE TRATADO DE PANOS E VINHOS DE 1703, CONVENCIONAVA-SE QUE PORTUGAL ERA OBRIGADO A COMPRAR PRODUTOS MANUFATURADOS DE UMA PRODUÇÃO SEMI INDUSTRIAL COMO PANOS, CALÇADOS, MOVEIS, ENFIM, TUDO QUE ERA PRODUTOS DE MAIS MODERNO PARA INICIO DO SECULO DEZOITO, JÁ PORTUGAL VENDERIA PARA A INGLATERRA OS SEUS FAMOSOS VINHOS QUE, EMBORA TIVESSE PARA ONDE ESCOAR, O CONSUMO INGLES DO VINHO ERA MUITO MENOR DO QUE TODOS OS OUTROS PRODUTOS QUE INGLATERRA VENDIA PARA PORTUGAL. POR ESSE MOTIVO, É QUE A BALANÇA COMERCIAL ERA FAVORÁVEL PARA A INGLATERRA.
DETALHE ESSE TRATADO SE EXTENDIA AS COLONIAS, OU SEJA, NO BRASIL, EMBORA OS COLONOS FOSSEM MUITO TAXADOS E SOBRECARREGADOS, NÃO PODIAM AINDA FABRICAR NADA, OU SEJA, TUDO ERA MUITO ARTESANAL E ESCASSO
IMPORTANTE SE OBSERVAR AQUI PARA A APLICAÇÃO DE TIRADENTES E MINAS GERAIS É QUE COM ISSO, A EXPLORAÇÃO DO OURO ERA CADA VEZ MAIS INTENSA E CADA MAIS NECESSARIA PARA BANCAR ESSE COMERCIO INTER PAISES.
COM ISSO QUASE TODO OURO DO BRASIL FOI PARA NA INGLATERRA.
OURO DE SUPERFICIE
O OURO DE SUPERFÍCIE ERA AQUELE QUE ESTAVA DISPONÍVEL NOS BARRANCOS E EM PORÇÕES DE TERRA COM NO MÁXIMO 3 METROS DE PROFUNDIDADE. SE REMOVIAM AS ARVORES E COMEÇAVAM A ESCAVAR ATÉ SE ACHAR OS VEIOS .
É POSSÍVEL ENCONTRAR OURO ASSOCIADO A VEIOS DE QUARTZO. O OURO E O QUARTZO MUITAS VEZES OCORREM JUNTOS EM DEPÓSITOS MINERAIS. ESSA ASSOCIAÇÃO É CONHECIDA COMO OURO DE VEIO DE QUARTZO (PEDRA BRANCA E MUITO DURA, MUITO COMUM PARA FAZER JOIAS.). JUNTO AO QUARTZO ACHAVA-SE O OURO. ESSES VEIOS SÃO COMUNS NÃO SOMENTE EM ROCHAS SOLIDAS COMO FOI EM SJDR, COMO TAMBÉM ACHAVA-SE EM TORROES COM CASO DO OURO DE SUPERFICIE EM TIRADENTES.
O QUINTO DO OURO , PARA PRODUZIR O OURO QUINTADO. FOI O NOME DO IMPOSTO CRIADO POR PORTUGAL PARA QUE, EM CONTRA PARTIDA A CESSÃO DA TERRA, FOSSE RESSARCIDA A COROA PORTUGUESA. EM 1720 FORAM CRIADAS AS CASAS DE FUNDIÇÃO AO LONGO DO CAMINHO VELHO, TAMBÉM CONHECIDA HOJE COMO ESTRADA REAL.
ACONTECE QUE TODOS OS EXPLORADORES BUSCAVAM SONEGAR , E COM A SONEGAÇÃO, AQUELES QUE ERAM PEGOS ERAM MANDADOS PARA AS COLONIAS PORTUGUESAS NA AFRICA, ALÉM DE SEREM AÇOITADOS E OUTRAS PUNIÇÕES. POR ISSO FICOU CONHECIDO COMO O QUINTO DOS INFERNOS.....
COMO O ÚNICO LUGAR PERMITIDO PARA TRANSITAR ERA O CAMINHO VELHO, QUEM FOSSE PEGO PASSANDO A LARGO, ERA PRESO POIS PRESUMIA-SE QUE ESTAVA BUSCANDO A SONEGAÇÃO.
OUTRA TÁTICA FOI OS SANTOS DO PAU OCO. POR FORA TINHA DEVOÇÃO MAS POR DENTRO SONEGAÇÃO. ESSAS IMAGENS ERAM BASTANTE EVITADAS SE FISCALIZA-LAS POR SE TRATAR DE ALGO SAGRADO.
DICAS DURANTE O PASSEIO PARA SE FAZER EM OUTRO MOMENTO
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POR DO SOL NO ALTO SÃO FRANCISCO E ÓTIMO PARA TIRAR FOTOS
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FOTO NO VARANDÃO DA CAMARA DE VEREADORES
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PASSEIO NA SERRA , ROTEIRO ECOLOGICO E ÓTIMO PARA SE AVISTAR A CIDADE A DISTANCIA
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CITY TOUR EM SJDR ONDE VAI SE ENCONTRAR UM CENTRO HISTÓRICO MUITO MAIS RICO
ALTO DO SÃO FRANCISCO E O CRUZEIRO
EM FRENTE A CAPELA DE SÃO FRANCISCO, TEM UM GRAMADO QUE ALÉM DE TER O MELHOR POR DO SOL DA CIDADE, BOM PARA TIRAR FOTOS, ; TEM AINDA DE FRENTE O CRUZEIRO, ONDE FOI O SIMBOLO DA EMANCIPAÇÃO DO ARRAIAL DE SANTO ANTONIO DA PONTA DO MORRO OU ARRAIAL VELHO DO RIO DAS MORTES A CONDIÇÃO DE VILA, OFICIALMENTE PERANTE A COROA PORTUGUESA.
PARA SER VILA, FOI USADO OS SEGUINTES ARGUMENTOS::
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O ARRAIAL DE SANTO ANTONIO EXTRAIA MAIS OURO QUE A VIZINHA SÃO JOAO DEL REY DA QUAL ERA VINCULADA O ARRAIAL
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A DIFICULDADE DOS MORADORES DO ARRAIAL DE ACESSAR A VILA DE SÃO JOÃO DEL REY PARA SUAS NECESSIDADES MATERIAIS E OUTRAS QUESTÕES
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HAVIA CONDIÇÕES DE SE FAZER A ESTRUTURA BÁSICA PARA SER VILA, OU SEJA, PRECISAVA TER UMA CÃMARA (ESPECIE DE PREFEITURA, PARA ONDE SERIA TOMADA AS DECISÕES ADMINISTRATIVAS DA CIDADE, UMA CADEIA NO SOTÃO E POR FIM UM PELOURINHO NA FRENTE DA CAMARA PARA SE CASTIGAR OS NEGROS
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PRECISAVA TER UM CRUZEIRO PARA SE ESTABELECER AS MISSAS E AS QUESTÕES ESPIRITUAIS, POIS SIMBOLIZAVA QUE HAVIA UMA DEVOÇÃO CRISTÃ NAQUELE LOCAL E A IGREJA CATÓLICA ESTAVA PRESENTE.
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INFLUÊNCIA DA IGREJA NA SOCIEDADE: A PRESENÇA DE CRUZEIROS NAS CIDADES COLONIAIS TAMBÉM REFLETIA O PAPEL DOMINANTE DA IGREJA CATÓLICA NAQUELA ÉPOCA. A RELIGIÃO DESEMPENHAVA UM PAPEL CENTRAL NA VIDA COTIDIANA DAS PESSOAS E SUA PRESENÇA ERA VISÍVEL E PALPÁVEL EM ELEMENTOS COMO OS CRUZEIROS.
POR FIM É BOM RESSALTAR QUE A ASCENÇÃO DO ARRAIAL DE SANTO ANTONIO A VILA DE SÃO JOSE QUE RECEBEU O CRUZEIRO NO ALTO SÃO FRANCISCO, NÃO ORIGINOU A IGREJA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS. ESSA CAPELA É DE MEADOS DO SECULO XVIII.
ALFERES TIRADENTES
JJSILVA XAVIER É RETRATADO COMO UMA IMAGEM DE UM CRISTO, BARBUDO, CABELUDO, ENFIM. COM A BUSCA PELA REPÚBLICA PELOS REPUBLICANOS NO FINAL DO SECULO XIX, OS MESMOS PRECISAVAM CRIAR UM HERÓI NACIONAL QUE AFIANÇASSE SEUS IDEAIS, COM ISSO, VIRAM EM TIRADENTES O PERSONAGEM PERFEITO, POIS LUTOU PELA LIBERDADE SENDO UM DOS CONJURADOS MINEIROS, QUE ATENTOU CONTRA O CRIME DA INCONFIDENCIA, PREVISTO NA LEI REAL QUE CRIMINALIZAVA CRIMES DE LESA MAJESTADE.
COMPARAÇÕES COM CRISTO:
AMBOS ERAM BARBUDOS, NO CASO DE JJSILVA XAVIER, ELE SÓ FICOU BARBUDO DURANTE OS TRES ANOS QUE FICOU PRESO, AGUARDANDO SER CUMPRIDA SUA SENTENÇA DE MORTE NA ATUAL PRAÇA TIRADENTES NO RIO DE JANEIRO, NO PATÍBULO DA EPOCA
OUTRA SIMILARIDADE É QUE AMBOS PREGAVAM A LIBERDADE E QUE AMBOS FORAM MORTOS EM SACRIFICIO DE UMA CAUSA IMPORTANTE
AMBOS FORAM TRAIDOS, NO CASO DESTE ULTIMO, A CONJURAÇÃO FOI DELATADA PELO TRAIDOR JOAQUIM SILVÉRIO DOS REIS.
MUSEU PADRE TOLEDO
LOCAL QUE RECEBEU A PRIMEIRA REUNIAO DA INCONFIDENCIA MINEIRA EM 10 OUTUBRO DE 1788. ESSE MUSEU ERA A CASA DO PADRE TOLEDO, UMA DAS CASAS MAIS LUXUOSAS DA ÉPOCA. ELA TEM PINTURAS EM TODOS SEUS 11 COMODOS NO FORRO DO TETO. SEU ACERVO É PRECIOSÍSSIMO E, TEM UM PORÃO ONDE FICAVAM OS ESCRAVOS DO PADRE.
PARA QUE SERVIAM OS PELOURINHOS NO PERIODO COLONIAL????
Os pelourinhos eram estruturas de pedra, normalmente localizadas em praças ou áreas centrais das cidades coloniais, que possuíam diferentes funções ao longo da história. A seguir, descreverei algumas das principais finalidades dos pelourinhos:
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Punição e justiça: Durante o período colonial, os pelourinhos eram usados como locais de punição pública. Escravos rebeldes, criminosos e pessoas condenadas por transgressões sociais eram amarradas ou acorrentadas aos pelourinhos e expostas ao público como forma de castigo e exemplo para a comunidade.
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Exposição de escravos à venda: Os pelourinhos também eram utilizados como pontos de exposição de escravos à venda. Os comerciantes de escravos exibiam os cativos ao redor do pelourinho, permitindo que os potenciais compradores os examinassem antes da negociação.
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Avisos públicos: Os pelourinhos eram frequentemente utilizados como espaços para anúncios e avisos públicos. Proclamações oficiais, editais, leis e comunicados importantes eram afixados nesses locais para que a população pudesse tomar conhecimento.
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Símbolo de poder e autoridade: Os pelourinhos também tinham um significado simbólico, representando o poder e a autoridade das autoridades coloniais. Eles eram estruturas visíveis e imponentes, posicionadas em locais centrais das cidades, como um lembrete do controle exercido pelas autoridades coloniais sobre a população., BEM COMO, ERAM CRITERIO PARA A EMANCIPAÇÃO ESTATAL DO LUGAR, OU FREGUESIA.
O MONUMENTO ACIMA, EMBORA PAREÇA UM PELOURINHO, NÃO É. ELE É EM COMEMORAÇÃO AO CENTENÁRIO DA MORTE DE JJDA SILVA XAVIER, O TIRADENTES, EM 1992.
ONDE ESTEVE INSTALADO O PRIMEIRO PELOURINHO DA VILA DE SÃO JOSE DEL REY?
Após a ordem de Conde se Assumar, quem veio instalar a Vila foi juiz ordinário, Antônio de Oliveira Leitão, por estar adoentado o ouvidor da Comarca, Dr. Valério da Costa Gouveia. No ato de instalação da vila assentou-se o pelourinho “num largo e praça que faz no dito arraial abaixo da freguesia, erigindo nele Vila, da qual deu logo parte os moradores como também seu termo e distrito começando este da banda de cá do Rio das Mortes...” Fica portanto claro que o pelourinho foi instalado no Largo abaixo da Matriz, onde posteriormente se construiu a Câmara, passando a ser conhecido como Largo do Pelourinho ou Largo da Câmara. A Câmara tratou logo de se instalar em uma casa alugada para os concelhos e faz sua primeira eleição da mesa em 30 de janeiro de 1718.
Largo onde se instalou o Pelourinho em 19 de janeiro de 1718. David Nascimento
O RELÓGIO DE SOL DA MATRIZ
FEITO E INSTALADO EM 1785, PELO ARTESÃO LEANDRO GONÇALVES. FEITO EM PEDRA SABÃO, O RELÓGIO FUNCIONA DE UM LADO NO VERÃO E DO OUTRO LADO NO INVERNO. ESSA MESMA PEÇA ESTÁ DIANTE DA MATRIZ ATÉ OS DIAS DE HOJE.
CORNIJAS OU CIMALHAS
DETALHES EMOLDURADOS NA FACHADA, FRONTÃO OU FRONTISPICIO NA IMSA.
Na arquitetura, tanto a cornija quanto a cimalha são elementos importantes relacionados à configuração da parte superior de um edifício, mas têm funções e características distintas.
Cornija:
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A cornija é um detalhe arquitetônico que fica posicionado na parte superior de uma parede externa, geralmente onde o telhado encontra a parede.
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É uma projeção horizontal que se sobressai da parede do edifício, projetando-se para fora.
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Sua função principal é proteger a parede abaixo dela contra a entrada de água da chuva e também direcionar a água para longe do edifício.
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A cornija pode ter uma função decorativa e, em alguns estilos arquitetônicos, pode ser ricamente ornamentada.
Cimalha:
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A cimalha também é um detalhe arquitetônico que se localiza na parte superior de um edifício, mas está mais relacionada à estrutura do telhado do que à parede externa.
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É a parte superior do beiral de um telhado, a borda horizontal que se projeta para fora da linha da parede.
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A cimalha ajuda a proteger a parede externa da água da chuva, assim como a cornija, mas está mais focada na transição entre a cobertura do telhado e a parede.
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Assim como a cornija, a cimalha também pode ter elementos decorativos, especialmente em estilos arquitetônicos mais elaborados.
Em resumo, a cornija é um elemento saliente posicionado na parte superior da parede externa, enquanto a cimalha é a parte saliente do beiral do telhado (ou seja, ambos tem o mesmo aspecto, a cornija e a cimalha, ambos servem para ornamentar a parte superior de uma parede; todavia, a cimalha PRECISA, OBRIGATORIAMENTE, SE ENCONTRAR COM O TELHADO, ENQUANTO A CORNIJA, PODE SER APENAS UMA MOLDURA QUE ORNAMENTA E DÁ BELEZA A UMA FACHADA, COMO POR EXEMPLO, NA FACHADA DA IMSANTONIO). Ambos têm uma função importante de proteger o edifício contra a entrada de água e, ao mesmo tempo, podem contribuir para a estética da arquitetura.
NOTA SOBRE A DATAÇÃO DA CONSTRUÇÃO DAS IGREJAS E CAPELAS
É importante destacar sobre a construção dos diversos templos do período colonial , houve uma certa evolução das obras. Muitos templos como é o caso da Matriz de Santo Antonio e a Matriz nossa senhora do pilar em sjdr, foram começadas no século dezoito mas só foram concluídas na primeira ou segunda metade do século dezenove. Cabe ressaltar que a exemplo das obras feitas nas construções das casas e casarões, solares e sobrados do período colonial que sobreviveram até os dias de hoje, houveram sempre obras de reformas e de ampliações que, conforme os recursos e tecnologias iam aparecendo, os imóveis e igrejas eram adornadas e ampliadas conforme esses fatores.
A matriz de santo antonio em Tiradentes, por exemplo, era uma pequena capela quando ficou pronta em 1710, todavia, embora sempre sendo reformada e melhorada, foi somente em 1810 que recebeu obras resultantes do projeto feito pelo mestre alejadinho mas realizada por outros mestres, oficiais e artesãos de sua OFICINA.
NO caso da Matriz nossa senhora do Pilar em sjdr, o processo foi muito parecido. A primeira se de da referida igreja nem foi onde é hoje construída. Sua primeira capela que já era chamada de matriz, surgiu junto com o povo que se instalou aqui em busca do vil metal. Sua primeira capela no alto do bonfim ou no chamado morro da forca, veio inclusive a ser incendiada durante a GUERRA DOS EMBOABAS, fato que não desanimou os fiés que a reformaram logo depois. Todavia, com a evolução do povoado, achou-se melhor dar a importância que a matriz merecia, o que fez que ela se mudasse para onde hoje está instalada com autorizações datando de 1721 e sua conclusão em 1724. Já suas ampliações e melhorias seguiu-se até o final da primeira metade do século XIX, Até chegar ao explendor que é hoje.
Já como foi dito sobre evolução das residências, as primeiras construções traziam janelas quadradas ou retangulares, sem adornos, sem colunas ou platinbandas. Com a melhora das técnicas e avanço financeiro trazido pela prosperidade com a exploração do ouro ou mesmo, no caso de sjdr, com a evolução do comércio por se tratar de uma freguesia base ou estratégica para quem seguia para VILA RICA, as residências ganharam detalhes e ornamentos que embelezam as residências até hoje, como colunas, capitéis, cornijas, platibandas, beiras do tipo tribeira, cimalha ou cachorro; sacadas, balaustradas, grades de ferro fundido que resistem ao tempo e, por fim, um marco importante que é a chegada dos janelões ou portas com formatos arredondados, hoje chamados de estilo colonial. Não podemos esquecer também do estilo neoclássico do século XIX, que trouxe uma certa mistura e embelezamento dos estilos, além das cores.. Nota-se que o comércio do COMENDADOR, era voltado para esse fim.
Um outro dado interessante que confirma o que foi falado sobre a evolução das construções, é o que se nota em alguns casarões ou casarios da rua direita onde pode-se notar a influencia da evolução dos ornamentos através dos séculos. Nestes casarios nota-se sacadas que foram feitas com balcões, ou seja, o patamar em cimento após a popularização do cimento em meados do século XX. Em 1926, foi criada a primeira fábrica de cimento no Brasil, a "Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus", localizada em São Paulo. Essa fábrica marcou o início da produção em larga escala e da comercialização de cimento no país. Daí passaram a usar esse material que já estava presente nas ampliações, ornatos, reformas das casas, casarios e casarões do centro de sjdre recebeu o nome de arte Decor, sobretudo pelas sacadas, também chamadas de balcões.. Outro detalhe importante de se notar é que estruturas em ferro forjado com rosto de leão ao centro retratava uma arquitetura do tipo “Arte vitoriana”,
